Críticas

Speed Racer (2008)
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Lucas Cine26 de junho de 2026
Lucas Cine26 de junho de 2026Assisti esse filme muito novinho na escola em um a cópia gravada do cinema, e aquilo me encantou de uma maneira, que sempre vinham cenas desse filme e com o tempo acabei escutando sobre o quão esse filme era ruim e feio esteticamente (tudo ao contrario), e ontem, antes de dormir assisti essa belezinha depois de tantos anos.
Muita coisa. As irmãs Wachowski pensam o digital como parte da narrativa e extrapolam a estética em prol da aproximação de linguagem da forma de quadrinhos, de mangá. É lindo de se ver como cada composição tem um tom pomposo e que vai cada vez mais tomando forma. Cada corrida tem sua identidade, cada corrida tem uma trama fora da corrida, e no final nem é sobre a corrida.
Existem aqui uma dominação de narrativa e texto que é singular e singelo o sentimento, o quanto ele é materializado naquele família, a falta dela e os espaços vazios que ela deixa quando não em tela. E as cores brilhantes exaltando a relação deles, o coração do carro é o amor e a disponibilidade de todos para fazerem aquele motor viver.
A metalinguagem que transborda todos os momentos sublimes de diálogo fazendo daquele universo vivo, colorido, esbelto, crível e fantástico ao mesmo tempo. São frames pensados quase como um sonho, sem amarras, que te envolve do começo ao fim em enérgicos e imparáveis estímulos visuais, dialéticos que só crescem durante a trama.
Speed Racer toma um lugar depois dessa revisita de muito carinho e amor de um tipo cinema que faz falta hoje em dia, de um tipo de cineastas fazem falta e em como pensar filmes como universos vivos que transbordam personalidade com tanto para se falar desde o vilão corporativo, até o amor da família e você querer viver o sonho sem ser engolido por ele. Lindo!
Muita coisa. As irmãs Wachowski pensam o digital como parte da narrativa e extrapolam a estética em prol da aproximação de linguagem da forma de quadrinhos, de mangá. É lindo de se ver como cada composição tem um tom pomposo e que vai cada vez mais tomando forma. Cada corrida tem sua identidade, cada corrida tem uma trama fora da corrida, e no final nem é sobre a corrida.
Existem aqui uma dominação de narrativa e texto que é singular e singelo o sentimento, o quanto ele é materializado naquele família, a falta dela e os espaços vazios que ela deixa quando não em tela. E as cores brilhantes exaltando a relação deles, o coração do carro é o amor e a disponibilidade de todos para fazerem aquele motor viver.
A metalinguagem que transborda todos os momentos sublimes de diálogo fazendo daquele universo vivo, colorido, esbelto, crível e fantástico ao mesmo tempo. São frames pensados quase como um sonho, sem amarras, que te envolve do começo ao fim em enérgicos e imparáveis estímulos visuais, dialéticos que só crescem durante a trama.
Speed Racer toma um lugar depois dessa revisita de muito carinho e amor de um tipo cinema que faz falta hoje em dia, de um tipo de cineastas fazem falta e em como pensar filmes como universos vivos que transbordam personalidade com tanto para se falar desde o vilão corporativo, até o amor da família e você querer viver o sonho sem ser engolido por ele. Lindo!

O Estranho Vício da Senhora Wardh (1971)
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Lucas Cine26 de junho de 2026
Lucas Cine26 de junho de 2026Se tornou um dos meus favoritos do Gialli como um todo -até agora- ao lado de tantos outros exemplares mas que Sérgio Martino aqui em O Estranho Vício da senhora Wardh pega os signos e elementos do Gialli para contar uma história quase fantasmagórica dentro de um thriller policial de investigação enquanto erradica seu discurso inicial da citação a Freud e como vai trabalhando todo seu filme em torno dos ciclos de violência, psicológica ou física que perdura por toda a eternidade da sua vida, até mesmo quando quem traumatizou possa estar morto.
Aqui não temos uma investigação propriamente dita, ela se aloca no segundo plano e seguimos de maneira viciante os olhos de Edwige Fenech como senhora Ward conspirando, entendendo o que está acontecendo e como irá lhe dar com aquilo tudo. Mesmo que seu passado diga o contrário aos olhos mais conservadores, Martino trata como o lado mais humano construindo o fetiche da personagem como a maior importância e como a mesma vai aguentar tudo que lhe ocorre durante todo o longa.
Citei “Fantasmagoria” mais acima no comentário, e aqui retorno para abrir um pouco mais essa minha leitura que fiz de alguns aspectos e escolhas que o filme toma depois de mais da metade do filme de tratar todos os personagens como quase mortos vivos que estão lutando para se manter vivo e ganhar na vida, mesmo que seja tirando a dos outros. E a brincadeira dessa expectativa criado por espaços vazios, casas enormes, e olhares masculinos compenetrados na nossa protagonista, que em certo ponto do filme nem mesmo em casa está segura. Até mesmo o carro do assassino tem um tom de entidade como se ele movesse o assassino, e não o contrário. Mas sem nunca entrar no sobrenatural de fato.
Aqui não temos uma investigação propriamente dita, ela se aloca no segundo plano e seguimos de maneira viciante os olhos de Edwige Fenech como senhora Ward conspirando, entendendo o que está acontecendo e como irá lhe dar com aquilo tudo. Mesmo que seu passado diga o contrário aos olhos mais conservadores, Martino trata como o lado mais humano construindo o fetiche da personagem como a maior importância e como a mesma vai aguentar tudo que lhe ocorre durante todo o longa.
Citei “Fantasmagoria” mais acima no comentário, e aqui retorno para abrir um pouco mais essa minha leitura que fiz de alguns aspectos e escolhas que o filme toma depois de mais da metade do filme de tratar todos os personagens como quase mortos vivos que estão lutando para se manter vivo e ganhar na vida, mesmo que seja tirando a dos outros. E a brincadeira dessa expectativa criado por espaços vazios, casas enormes, e olhares masculinos compenetrados na nossa protagonista, que em certo ponto do filme nem mesmo em casa está segura. Até mesmo o carro do assassino tem um tom de entidade como se ele movesse o assassino, e não o contrário. Mas sem nunca entrar no sobrenatural de fato.

O Chamado (2002)
L
Lucas Cine26 de junho de 2026
Lucas Cine26 de junho de 2026Antes de morrer você verá o chamado
Em suma, O Chamado foi uma das minhas primeiras experiências com histórias contadas que tomaram forma no meu imaginário; minha tia assistiu no cinema (que inveja) e eu sempre querendo saber dos filmes e já muito aficionado sobre o assunto , perguntei como era o filme e ela claro, contou de cabo e rabo, o que também se tornou por muito tempo a maneira de eu dar a sinopse do filme e levou um tempinho para que eu conseguisse definir os filmes para quem os deseja assistir. A história do filme e todos os detalhes que minha tia falava eram muito grandiosos na minha cabeça e isso perdurou até o momento em que assisti pela primeira vez, o que também revela a origem do meu amor por creepypastas e história de horror no geral.
Um filme formal que trabalha com todos os signos visuais de um melodrama com flertes de terror; o filtro esverdeado evocando uma melancolia atônita que parece nunca ter fim, a chuva como prenúncio do mal e os sete dias restantes da sua vida na terra e a sobreposição do digital na vida ordinária na qual todos são possíveis vítimas. Muito de Kiyoshi Kurosawa e seus dois filmes Cure e Pulse que contém na sua narrativa comentários da virada do milênio temos aqui no remake estadunidense de O Chamado. O niilismo em prol da pós-verdade e suas vítimas mergulhadas no campo escuro dos infinitos “achismos”.
Depois de Vertigo realmente tudo se torna Vertigo e a caçada das vidas terrenas pelas histórias post mortem que tanto carregam nossa humanidade desde seu início, dando sentido em muitas coisas e como Gore Verbinski utiliza de uma personagem jornalista para investigar todos os desdobramentos da garota Samara e os acontecimentos turvos da ilha onde ela morava com seus pais adotivos. Tudo parece estar no seu lugar e as respostas vem de forma orgânica, mas sempre mudando a rota -literal e geográfica- da jornada daqueles personagens. Comunicação, a busca pela verdade e o medo do fim da vida.
Em um dos planos do filme a personagem de Naomi Watts (amaldiçoada com os 7 dias) está olhando a janela de seu apartamento e observa a janela de outros indivíduos, assistindo a tv, pondo suas crianças para assistirem, e ainda somos agraciados com um homem de perna engessada em uma cadeira de rodas de costa.
Dois filmes muito especiais de diretores especiais com quase a mesma narrativa são Déjà Vu do Tony Scott e O Chamado, ambos com filtros verdes e provenientes de suas épocas, mas potencializadores máximos de seus respectivos gêneros.
Curiosidade interessante (a quem interesse): baixei um release Bluray Remux com a sobriedade do filtro desolador, mas as TVs (sem soundbar nem home theater) não conseguem fazer a leitura desses canais de áudio DTS. Apesar de ter o DVD, queria assistir essa masterização do Bluray e o que mais chegou perto foi na Netflix, que chegou recentemente, mas é muito triste como a plataforma tira toda a identidade do filme e deixa ele meio lavado demais tirando um dos maiores aspectos cênicos do filme.
Em suma, O Chamado foi uma das minhas primeiras experiências com histórias contadas que tomaram forma no meu imaginário; minha tia assistiu no cinema (que inveja) e eu sempre querendo saber dos filmes e já muito aficionado sobre o assunto , perguntei como era o filme e ela claro, contou de cabo e rabo, o que também se tornou por muito tempo a maneira de eu dar a sinopse do filme e levou um tempinho para que eu conseguisse definir os filmes para quem os deseja assistir. A história do filme e todos os detalhes que minha tia falava eram muito grandiosos na minha cabeça e isso perdurou até o momento em que assisti pela primeira vez, o que também revela a origem do meu amor por creepypastas e história de horror no geral.
Um filme formal que trabalha com todos os signos visuais de um melodrama com flertes de terror; o filtro esverdeado evocando uma melancolia atônita que parece nunca ter fim, a chuva como prenúncio do mal e os sete dias restantes da sua vida na terra e a sobreposição do digital na vida ordinária na qual todos são possíveis vítimas. Muito de Kiyoshi Kurosawa e seus dois filmes Cure e Pulse que contém na sua narrativa comentários da virada do milênio temos aqui no remake estadunidense de O Chamado. O niilismo em prol da pós-verdade e suas vítimas mergulhadas no campo escuro dos infinitos “achismos”.
Depois de Vertigo realmente tudo se torna Vertigo e a caçada das vidas terrenas pelas histórias post mortem que tanto carregam nossa humanidade desde seu início, dando sentido em muitas coisas e como Gore Verbinski utiliza de uma personagem jornalista para investigar todos os desdobramentos da garota Samara e os acontecimentos turvos da ilha onde ela morava com seus pais adotivos. Tudo parece estar no seu lugar e as respostas vem de forma orgânica, mas sempre mudando a rota -literal e geográfica- da jornada daqueles personagens. Comunicação, a busca pela verdade e o medo do fim da vida.
Em um dos planos do filme a personagem de Naomi Watts (amaldiçoada com os 7 dias) está olhando a janela de seu apartamento e observa a janela de outros indivíduos, assistindo a tv, pondo suas crianças para assistirem, e ainda somos agraciados com um homem de perna engessada em uma cadeira de rodas de costa.
Dois filmes muito especiais de diretores especiais com quase a mesma narrativa são Déjà Vu do Tony Scott e O Chamado, ambos com filtros verdes e provenientes de suas épocas, mas potencializadores máximos de seus respectivos gêneros.
Curiosidade interessante (a quem interesse): baixei um release Bluray Remux com a sobriedade do filtro desolador, mas as TVs (sem soundbar nem home theater) não conseguem fazer a leitura desses canais de áudio DTS. Apesar de ter o DVD, queria assistir essa masterização do Bluray e o que mais chegou perto foi na Netflix, que chegou recentemente, mas é muito triste como a plataforma tira toda a identidade do filme e deixa ele meio lavado demais tirando um dos maiores aspectos cênicos do filme.

Toy Story 5 (2026)
A
Ander Cover23 de junho de 2026
Ander Cover23 de junho de 2026"[...] o filme é muito feliz em não focar exclusivamente nesse duelo ‘tradição contra novidade’. Neste sentido, temos um ótimo trabalho de construção e desconstrução de personagens ao longo de sua metragem. [...]"
Crítica completa no artigo da Peliplat
Crítica completa no artigo da Peliplat

Cara de Um, Focinho de Outro (2026)
D
Deivid R. Purificação21 de junho de 2026
Deivid R. Purificação21 de junho de 2026Um fator sempre muito admirável nos filmes da Pixar é como, mesmo quando tenho questões com certas ideias (como em Os Incríveis), os projetos são fabularmente consistentes: mensagens claras para crianças, sem abrir mão de certa sutileza na caracterização e até de uma duplicidade simbólica, algo muito evidente na franquia Toy Story.
E eu começo por aí porque, conforme Hoopers avança e se ancora numa tese ambientalista antagonizando o crescimento tecnológico, tudo vai ficando previsível, tanto em termos de trama quanto de encenação. No momento em que a rainha dos insetos decreta que o “rei dos humanos” deve ser esmagado, o desfecho já está todo desenhado. Em um filme infantil isso nem sempre é um problema, mas aqui, onde o melodrama é central, pesa.
A ideia de que “todo mundo é bom lá no fundo” também não se sustenta totalmente. O filme até flerta com isso ao redimir o prefeito, mas cria outro vilão completamente mau, o que dilui a própria proposta. Mais do que isso, ao optar por caminhos seguros, o longa enfraquece o peso dramático. A protagonista perde a avó e vê a floresta, símbolo dessa relação, se deteriorar, mas o impacto nunca é realmente sentido. Tudo acaba tratado em tom de piada, o que entra em conflito com a abertura, que dedicava mais tempo, silêncio e calor visual para construir essa relação.
Nem tudo se perde. O trabalho de Daniel Chong com o texto de Jesse Andrews rende bons momentos de humor situacional, em que a piada nasce da encenação. Como nas discussões entre o prefeito e a garota, em que ele diz estar em casa, mas mantém a mesma postura de político, ou na morte da rainha dos insetos, com a castora limpando as mãos tentando disfarçar o acidente.
Esses momentos funcionam isoladamente, mas não o suficiente para esconder que o filme está sempre um passo atrás de desenvolver plenamente o próprio comentário.
E eu começo por aí porque, conforme Hoopers avança e se ancora numa tese ambientalista antagonizando o crescimento tecnológico, tudo vai ficando previsível, tanto em termos de trama quanto de encenação. No momento em que a rainha dos insetos decreta que o “rei dos humanos” deve ser esmagado, o desfecho já está todo desenhado. Em um filme infantil isso nem sempre é um problema, mas aqui, onde o melodrama é central, pesa.
A ideia de que “todo mundo é bom lá no fundo” também não se sustenta totalmente. O filme até flerta com isso ao redimir o prefeito, mas cria outro vilão completamente mau, o que dilui a própria proposta. Mais do que isso, ao optar por caminhos seguros, o longa enfraquece o peso dramático. A protagonista perde a avó e vê a floresta, símbolo dessa relação, se deteriorar, mas o impacto nunca é realmente sentido. Tudo acaba tratado em tom de piada, o que entra em conflito com a abertura, que dedicava mais tempo, silêncio e calor visual para construir essa relação.
Nem tudo se perde. O trabalho de Daniel Chong com o texto de Jesse Andrews rende bons momentos de humor situacional, em que a piada nasce da encenação. Como nas discussões entre o prefeito e a garota, em que ele diz estar em casa, mas mantém a mesma postura de político, ou na morte da rainha dos insetos, com a castora limpando as mãos tentando disfarçar o acidente.
Esses momentos funcionam isoladamente, mas não o suficiente para esconder que o filme está sempre um passo atrás de desenvolver plenamente o próprio comentário.

Clímax (2018)
E
Emerson Teixeira18 de junho de 2026
Emerson Teixeira18 de junho de 2026Climax (Gaspar Noé, 2018)
Gaspar Noé traduz há mais de uma década o espírito da inovação tecnológica unido com uma perspectiva alucinógena da vida e as conexões com a movimentação de câmera. Seu olhar é tão poético quanto agressivo, transforma o caos em seda aos olhos, qualquer ideia pode ser traduzida pelas lentes e movimentações circulares de Noé – tal como a própria condição de existência, compartilhada ou não. Em Climax (2018) ele abdica do choque explícito e utiliza os artifícios técnicos e fotografia para compor a experiência mais eletrizante do ano. Uma viagem infernal, embriagada e nefasta que sintetiza não só a leviandade juvenil, como a sua total desconstrução psicológica.
Se existe um diretor que mudou a minha forma de pensar criativamente – principalmente no que diz respeito ao audiovisual – esse nome é Gaspar Noé. Sua mente opera em uma energia criativa impressionante, ele flexibiliza não só a parte visual, como o roteiro, de modo que as consequências se tornam uma experiência insana e catastrófica para quem assiste. Diferentemente de Lars Von Trier, o choque em Gaspar Noé existe (ironicamente) mais na forma que ele conduz a narrativa, do que no conteúdo geralmente tão intenso quanto.
Fotograficamente seus filmes são vislumbres urbanos-caóticos-sujos, existe poesia na violência e seus quadros trazem sangue, sexo, gozo a cada instante, ainda que nem sempre literal. É um artista selvagem que constrói e orquestra o inferno tal qual Dante o fez em seu clássico “A Divina Comédia”.
Em Climax (2018), Noé abdica do explícito para conduzir uma trama em base ao movimento corporal – que distorce a naturalidade passiva do corpo, assim como o diretor faz com a vida – e cria um ritmo alucinante em base ao álcool; toda essa experiência é conjunta, íntima, provocativa, bem como próprio cinema (deveria) ser.
Em um plongée vemos uma personagem se contorcendo de dor, manchando o branco da neve com o vermelho do seu sangue. A primeira cena é o final do arco da história, o diretor costuma dialogar muito com a passagem de tempo e descaso do contexto dos acontecimentos. Indo e vindo como se fosse natural perder-se em meio às horas, dias, meses. “O tempo destrói tudo”, já diria um de seus personagens mais famosos, o “açougueiro” vivido pelo Philippe Nahon em “Carne” (1991), Sozinho Contra Todos (1998) e Irreversível (2002).
Depois dessa introdução todos os personagens são apresentados pela televisão, rodeada de livros e filmes – entre eles a evidente inspiração na direção de arte e atmosfera “Suspiria” (1977) e Possessão (1981). O fato de conhecermos a estrutura básica de todos eles através da TV soa como uma forma de dinamizar o processo, pois como são muitos bailarinos, fica nítido que é preciso encontrar um refúgio para desmistificá-los rápido afim de concentrar todo o processo de subversão nos seus corpos e perda lenta da lógica através da droga alucinógena que experimentam forçadamente.
Se na dança principal, logo no começo, mesmo apesar das diferenças performáticas, todos encontram uma comunhão através da arte, e é impressionante como a movimentação da câmera acompanha o ritmo com uma fluidez certeira, participando da dança e elevando a experiência de quem assiste a um degrau absurdo de concentração, cada minuto que passa essas mesmas diferenças se tornam agressivas e incômodas quando os sentidos passam a ser alterados. Se nessa cena a dança é filmada em um plano sem cortes, ao longo passamos a experimentar uma bad trip compartilhada sem cortes ou rodeios, de modo que a experiência pessoal de cada um e a obscuridade psicológica sirvam como signos de estranheza ao espectador que contempla visualmente o alucinógeno, mas se distancia dele enquanto experiência, desse modo é impressionante como tecnicamente o filme cria uma conexão entre todas viagens e desconexões, de modo a envolver-nos em uma experiência infernal.
Se o estilo da dança krump é agressiva, visualmente e fisicamente, quando a droga acessa as personas tudo se torna corrompido, os movimentos passam a simbolizar a psique, beirado uma viagem astral sem tempo (olha ele novamente) para acabar, onde a adrenalina enxerga a alma e os corpos rastejantes se tornam exatamente aquilo que foram projetados, a sexualidade bestial os possui e a transe impera. Ao passo que a identidade se perde, ressaltando a ironia no fato de que os jovens em sua pluralidade, seja de movimentos, racial, interesses etc, represente a diversidade da juventude francesa.
Climax (2018) é uma fuga ao inconsciente, um pesadelo estético – as cores vermelhas ilustram a proximidade de conceitos tão diferentes como amor, perigo e sexo – e filosófico, onde a realidade é distorcida para se atingir o ápice do alucinógeno. O horror aqui é psicológico e ressaltado através da sincronicidade entre movimento corporal, estética, trilha sonora eletrônica e filmagem dinâmica, que faz experimentações além da obviedade ao registrar esse grande declínio em conjunto através de planos holandeses, movimentos de c
Gaspar Noé traduz há mais de uma década o espírito da inovação tecnológica unido com uma perspectiva alucinógena da vida e as conexões com a movimentação de câmera. Seu olhar é tão poético quanto agressivo, transforma o caos em seda aos olhos, qualquer ideia pode ser traduzida pelas lentes e movimentações circulares de Noé – tal como a própria condição de existência, compartilhada ou não. Em Climax (2018) ele abdica do choque explícito e utiliza os artifícios técnicos e fotografia para compor a experiência mais eletrizante do ano. Uma viagem infernal, embriagada e nefasta que sintetiza não só a leviandade juvenil, como a sua total desconstrução psicológica.
Se existe um diretor que mudou a minha forma de pensar criativamente – principalmente no que diz respeito ao audiovisual – esse nome é Gaspar Noé. Sua mente opera em uma energia criativa impressionante, ele flexibiliza não só a parte visual, como o roteiro, de modo que as consequências se tornam uma experiência insana e catastrófica para quem assiste. Diferentemente de Lars Von Trier, o choque em Gaspar Noé existe (ironicamente) mais na forma que ele conduz a narrativa, do que no conteúdo geralmente tão intenso quanto.
Fotograficamente seus filmes são vislumbres urbanos-caóticos-sujos, existe poesia na violência e seus quadros trazem sangue, sexo, gozo a cada instante, ainda que nem sempre literal. É um artista selvagem que constrói e orquestra o inferno tal qual Dante o fez em seu clássico “A Divina Comédia”.
Em Climax (2018), Noé abdica do explícito para conduzir uma trama em base ao movimento corporal – que distorce a naturalidade passiva do corpo, assim como o diretor faz com a vida – e cria um ritmo alucinante em base ao álcool; toda essa experiência é conjunta, íntima, provocativa, bem como próprio cinema (deveria) ser.
Em um plongée vemos uma personagem se contorcendo de dor, manchando o branco da neve com o vermelho do seu sangue. A primeira cena é o final do arco da história, o diretor costuma dialogar muito com a passagem de tempo e descaso do contexto dos acontecimentos. Indo e vindo como se fosse natural perder-se em meio às horas, dias, meses. “O tempo destrói tudo”, já diria um de seus personagens mais famosos, o “açougueiro” vivido pelo Philippe Nahon em “Carne” (1991), Sozinho Contra Todos (1998) e Irreversível (2002).
Depois dessa introdução todos os personagens são apresentados pela televisão, rodeada de livros e filmes – entre eles a evidente inspiração na direção de arte e atmosfera “Suspiria” (1977) e Possessão (1981). O fato de conhecermos a estrutura básica de todos eles através da TV soa como uma forma de dinamizar o processo, pois como são muitos bailarinos, fica nítido que é preciso encontrar um refúgio para desmistificá-los rápido afim de concentrar todo o processo de subversão nos seus corpos e perda lenta da lógica através da droga alucinógena que experimentam forçadamente.
Se na dança principal, logo no começo, mesmo apesar das diferenças performáticas, todos encontram uma comunhão através da arte, e é impressionante como a movimentação da câmera acompanha o ritmo com uma fluidez certeira, participando da dança e elevando a experiência de quem assiste a um degrau absurdo de concentração, cada minuto que passa essas mesmas diferenças se tornam agressivas e incômodas quando os sentidos passam a ser alterados. Se nessa cena a dança é filmada em um plano sem cortes, ao longo passamos a experimentar uma bad trip compartilhada sem cortes ou rodeios, de modo que a experiência pessoal de cada um e a obscuridade psicológica sirvam como signos de estranheza ao espectador que contempla visualmente o alucinógeno, mas se distancia dele enquanto experiência, desse modo é impressionante como tecnicamente o filme cria uma conexão entre todas viagens e desconexões, de modo a envolver-nos em uma experiência infernal.
Se o estilo da dança krump é agressiva, visualmente e fisicamente, quando a droga acessa as personas tudo se torna corrompido, os movimentos passam a simbolizar a psique, beirado uma viagem astral sem tempo (olha ele novamente) para acabar, onde a adrenalina enxerga a alma e os corpos rastejantes se tornam exatamente aquilo que foram projetados, a sexualidade bestial os possui e a transe impera. Ao passo que a identidade se perde, ressaltando a ironia no fato de que os jovens em sua pluralidade, seja de movimentos, racial, interesses etc, represente a diversidade da juventude francesa.
Climax (2018) é uma fuga ao inconsciente, um pesadelo estético – as cores vermelhas ilustram a proximidade de conceitos tão diferentes como amor, perigo e sexo – e filosófico, onde a realidade é distorcida para se atingir o ápice do alucinógeno. O horror aqui é psicológico e ressaltado através da sincronicidade entre movimento corporal, estética, trilha sonora eletrônica e filmagem dinâmica, que faz experimentações além da obviedade ao registrar esse grande declínio em conjunto através de planos holandeses, movimentos de c

Dia D (2026)
A
Ander Cover18 de junho de 2026
Ander Cover18 de junho de 2026Spielberg dirigindo é uma delícia, inegavelmente! Neste quesito senti a tensão e senso aventuresco da obra. E acho que meu sentimento mais claro da experiência reside na diversão. Aliás, acabei me divertindo tanto que em muitos momentos comecei a rir (não só nas cenas de comédia, mas nas sérias também - ou seja, não intencionalmente). E creio que não era esse o intuito….
Há muitos meandros que poderiam ser melhor explorados a respeito do diálogo com a própria humanidade, contexto bélico e seus dilemas em si, sinto que ficou mais no superficial e potencialmente ingênuo.
Mas é um bom pipocão do ano, de fato.
PS: teve até referência ao quadro “Visitando o Passado” do Caldeirão do Huck kkkkk 🫠
Há muitos meandros que poderiam ser melhor explorados a respeito do diálogo com a própria humanidade, contexto bélico e seus dilemas em si, sinto que ficou mais no superficial e potencialmente ingênuo.
Mas é um bom pipocão do ano, de fato.
PS: teve até referência ao quadro “Visitando o Passado” do Caldeirão do Huck kkkkk 🫠

Morra, Amor (2025)
F
Flávia_Ferreira18 de junho de 2026
Flávia_Ferreira18 de junho de 2026Uma performance avassaladora, inebriante e visceral de Jennifer Lawrence!!!
Gostei, mas não amei!
Contextualizando...
Uma mulher grávida se muda com o marido para o fim do mundo, mas uma depressão pós-parto a leva à exaustão mental e à solidão.
Jennifer é o que me mantém assistindo. É hipnotizante vê-la interpretando essa personagem. Ela suga você para o caos em que está mergulhada.
Algumas mães podem se identificar com algumas questões abordadas, principalmente com a solidão, mesmo tendo o companheiro ao lado; com a superproteção; e com a busca por uma nova identidade diante dessa nova fase da vida.
Robert Pattinson interpreta um marido que tenta, mas não consegue compreender o que a esposa está passando. Na verdade, por ser uma situação tão complexa, ele faz o que pode. Sua mãe é quem o alerta sobre a depressão da esposa.
O filme é confuso, mas arrisco dizer que isso pode ser proposital, para mostrar a confusão mental em que a personagem de Jennifer se encontra. Você não sabe o que é real ou alucinação, assim como o final ambíguo. A história é ótima, os atores também; apenas o desenvolvimento do filme não me prendeu.
Mas Jennifer Lawrence é fenomenal, como sempre!!!
Um furacão em cena!!!
Gostei, mas não amei!
Contextualizando...
Uma mulher grávida se muda com o marido para o fim do mundo, mas uma depressão pós-parto a leva à exaustão mental e à solidão.
Jennifer é o que me mantém assistindo. É hipnotizante vê-la interpretando essa personagem. Ela suga você para o caos em que está mergulhada.
Algumas mães podem se identificar com algumas questões abordadas, principalmente com a solidão, mesmo tendo o companheiro ao lado; com a superproteção; e com a busca por uma nova identidade diante dessa nova fase da vida.
Robert Pattinson interpreta um marido que tenta, mas não consegue compreender o que a esposa está passando. Na verdade, por ser uma situação tão complexa, ele faz o que pode. Sua mãe é quem o alerta sobre a depressão da esposa.
O filme é confuso, mas arrisco dizer que isso pode ser proposital, para mostrar a confusão mental em que a personagem de Jennifer se encontra. Você não sabe o que é real ou alucinação, assim como o final ambíguo. A história é ótima, os atores também; apenas o desenvolvimento do filme não me prendeu.
Mas Jennifer Lawrence é fenomenal, como sempre!!!
Um furacão em cena!!!

A Vida de Chuck (2024)
F
Flávia_Ferreira18 de junho de 2026
Flávia_Ferreira18 de junho de 2026"Eu sou vários. Há multidões em mim!"
É com esse poema de Walt Whitman que o filme se move e revela, a cada momento, novos significados.
"A Vida de Chuck" é lindíssimo. É um caleidoscópio da vastidão interna que é o ser humano. Mostra como somos formados pelas memórias das pessoas que conhecemos, dos lugares que frequentamos, das músicas que ouvimos, dos afazeres do dia a dia. Tudo contribui para a formação desse universo humano tão particular.
E, quando essa pessoa se vai, todo o seu universo vai com ela. Mas isso não é aterrorizante, pois uma parte dela permanece nas pessoas que ela marcou ao longo da vida.
Uma adaptação fantástica e melancólica do livro de Stephen King. Não li a obra, mas o próprio King elogiou a adaptação por focar justamente nas memórias que carregamos pela vida.
O filme é dirigido por Mike Flanagan, um dos cineastas do meu coração! Mesmo com a pitada de terror presente em boa parte de seus trabalhos, ele insere com maestria a complexidade do ser humano e suas inúmeras facetas. Arrisco dizer que ele faz dramas vestidos de suspense e terror. Talvez seja por isso que se conecte tão bem com as obras de King.
Confesso que o começo demorou um pouco para me prender, mas, depois, me emocionei profundamente com os três atos da vida de Chuck.
É um filme reflexivo sobre a vida e sobre como ela é finita.
"Eu vou viver a minha vida até que ela se apague. Eu sou maravilhoso. Eu mereço ser maravilhoso. Eu contenho multidões!"
"Obrigado, Chuck, por 39 ótimos anos!"
Ou melhor:
Obrigada, Mike Flanagan, por 1h51min de pura magia do cinema!
É com esse poema de Walt Whitman que o filme se move e revela, a cada momento, novos significados.
"A Vida de Chuck" é lindíssimo. É um caleidoscópio da vastidão interna que é o ser humano. Mostra como somos formados pelas memórias das pessoas que conhecemos, dos lugares que frequentamos, das músicas que ouvimos, dos afazeres do dia a dia. Tudo contribui para a formação desse universo humano tão particular.
E, quando essa pessoa se vai, todo o seu universo vai com ela. Mas isso não é aterrorizante, pois uma parte dela permanece nas pessoas que ela marcou ao longo da vida.
Uma adaptação fantástica e melancólica do livro de Stephen King. Não li a obra, mas o próprio King elogiou a adaptação por focar justamente nas memórias que carregamos pela vida.
O filme é dirigido por Mike Flanagan, um dos cineastas do meu coração! Mesmo com a pitada de terror presente em boa parte de seus trabalhos, ele insere com maestria a complexidade do ser humano e suas inúmeras facetas. Arrisco dizer que ele faz dramas vestidos de suspense e terror. Talvez seja por isso que se conecte tão bem com as obras de King.
Confesso que o começo demorou um pouco para me prender, mas, depois, me emocionei profundamente com os três atos da vida de Chuck.
É um filme reflexivo sobre a vida e sobre como ela é finita.
"Eu vou viver a minha vida até que ela se apague. Eu sou maravilhoso. Eu mereço ser maravilhoso. Eu contenho multidões!"
"Obrigado, Chuck, por 39 ótimos anos!"
Ou melhor:
Obrigada, Mike Flanagan, por 1h51min de pura magia do cinema!

O Pântano (2001)
L
Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026A bagunça, caos e sujeira mais organizada e milimetricamente pensada e calculada que já vi na vida. Nós, latinos, sentimos esse filme no osso enquanto o resto do mundo só pode imaginar.

Pela Metade (2026)
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Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026Assim como Baby reindeer a minissérie da vez conta com um certo exagero, e digo, o exagero é aquele além do que se propõe. Mesmo assim achei muito bom, até mesmo pertinente esse tom de tragedia grega que encontrei aqui. A coisa vai escalonando de uma forma que é impossível conceber um retorno e a gente vai se perdendo ao tentar visualizar a próxima loucura a ser realizada, aquele estopim. O elenco é absurdo, todos muito bem e praticamente no mesmo nível, e tem tantas outras camadas que eu poderia mencionar mas não irei, só uma coisa: li e ouvi por aí pedirem sutileza pro Richard Gadd, e eu discordo, toda essa violência abordada faz parte de como ele quer que concebamos suas histórias (que são sobre violências também) e eu respeito isso.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)
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Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026Sinto que a posição ideal para assistir Backrooms é saber o básico, rasteiro mesmo, sobre sua origem e desenvolvimento nos fóruns da internet. Que sabe demais ou consumiu demais fica entregue à teorias e quem de nada sabe possivelmente sairá sabendo menos ainda. Backrooms serve de alegoria para tantas coisas, abriu abas e abas de interpretações na minha cabeça. Interessante, e caramba, que composição de cenários!

Light and the Sufferer (2007)
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Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026Li tantos comentários hilários sobre Light and the Sufferer que precisei repensar minha nota. Vou esquecer o quão lamentável foi o CGI daquela pantera alienígena, até porque o feito concedeu um charme 00's a mais pra produção. Não faço a ideia se existia alguma intenção qualquer de lição moral nessa trama, mas sua conclusão foi tão surrealmente filosófica que eu apenas concordei, com o que quer que fosse.

Mirrored Mind (2004)
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Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026Esse filme me encontrou quando eu me sentia a mosca do cocô do cavalo do bandido e apesar de tratar de assuntos pesados, me fez repensar alguns aspectos da minha vida e enxergar as coisas com um pouco mais de otimismo ou gentileza. Tem tanto dialogo foda que dá vontade de printar tudo pra guardar. Cadê o tumblr quando precisamos dele?

Hokum: O Pesadelo da Bruxa (2026)
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Lee Rosal15 de junho de 2026
Lee Rosal15 de junho de 2026Fica aquela impressão que McCarthy tentou se adequar ao mais convencional aqui, ao que pode ter melhor aceitação ao publico em geral, e certo ele. Hokum poderia ser mais breve, traria um feito mais marcante, mas ainda assim é legal. Sempre fico aflita e apreensiva com sua condução de narrativa, porém, meu favorito segue sendo Oddity,

O Falcão dos Mares (1951)
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Fábio Rockenbach11 de junho de 2026
Fábio Rockenbach11 de junho de 2026Essa aventura do Walsh é um bom exemplo de como a busca pelo ultra-realismo no cinema contemporâneo ajuda a matar a imaginação. Um filme como O FALCÃO DOS MARES hoje seria visto de forma irônica, como uma comédia, por boa parte da geração mais nova, por conta das soluções fáceis de roteiro, do excesso caricatural e de uma certa artificialidade na composição dos personagens que é, de certa monta, a base de boa parte do cinema de aventura do período. O que ele conserva é a capacidade de Walsh de acreditar no material que tem em mãos e no potencial do público - daquela ou de qualquer época - de embarcar nesse faz de conta, principalmente na maneira como entrega cenas de batalha no mar que surpreendem ainda hoje (que eu lembrava da infância e sorri revendo, décadas depois)

O Idiota (1951)
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Fábio Rockenbach11 de junho de 2026
Fábio Rockenbach11 de junho de 2026Das grandes obras da carreira de Kurosawa, assim como VIVER ou HOMEM MAU DORME BEM, filmes que fogem do ciclo histórico e oferecem a chance de perceber o domínio do diretor sobre o espaço. O que ele faz aqui é putaria: o controle que ele tem sobre a disposição dos personagens no quadro e como cada movimento ou escolha de posição nunca soa como banal. Não sou conhecedor de Dostoievski, mas o cara deve sorrir no túmulo a cada menção a esse filme (e ao Noites Brancas, de Visconti)

Marcas da Violência (2005)
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Fábio Rockenbach11 de junho de 2026
Fábio Rockenbach11 de junho de 2026A violência, em seus diferentes tipos, nunca escondida, sempre cobrando seu preço, mais cedo ou mais tarde. É impossível fugir dela.
Cronenberg inicia seu filme em uma sequência fabulosa, que nunca se preocupa em ser óbvia. Antes, seduz o espectador pela curiosidade e o respeita ao permitir que ele não apenas coloque as peças no seu lugar como antecipe o potencial da história que virá. Mas como estamos falando de Cronenberg, nem é o prenúncio do mal maior que virá atrás do protagonista - é uma espécie de ferramenta do destino mostrando que o universo sempre conspira a expor nossas feridas.
A construção dessa história, a partir dos elementos que irão dar o start no pesadelo do protagonista, só mostra o quanto certos diretores precisam ser mais conhecidos do grande público. Enquanto a teoria narrativa diz que toda história precisa de um personagem buscando algo e agindo para aquilo, aqui tudo se baseia, sobretudo, em um personagem antes de tudo sofrendo as consequências.
Cronenberg, falando de violência, também faz questão de expô-la ao espectador a todo momento, sem virar a câmera para o lado, abusando dos closes, mas encenando-a de maneira a fazer inveja a quase todos os grandes "diretores de ação" contemporâneos. E, se esse pequeno conto fílmico começa de uma maneira envolvente em termos técnicos, consegue terminar com um silêncio tão violento quanto as cenas do qual é composto.
Cronenberg inicia seu filme em uma sequência fabulosa, que nunca se preocupa em ser óbvia. Antes, seduz o espectador pela curiosidade e o respeita ao permitir que ele não apenas coloque as peças no seu lugar como antecipe o potencial da história que virá. Mas como estamos falando de Cronenberg, nem é o prenúncio do mal maior que virá atrás do protagonista - é uma espécie de ferramenta do destino mostrando que o universo sempre conspira a expor nossas feridas.
A construção dessa história, a partir dos elementos que irão dar o start no pesadelo do protagonista, só mostra o quanto certos diretores precisam ser mais conhecidos do grande público. Enquanto a teoria narrativa diz que toda história precisa de um personagem buscando algo e agindo para aquilo, aqui tudo se baseia, sobretudo, em um personagem antes de tudo sofrendo as consequências.
Cronenberg, falando de violência, também faz questão de expô-la ao espectador a todo momento, sem virar a câmera para o lado, abusando dos closes, mas encenando-a de maneira a fazer inveja a quase todos os grandes "diretores de ação" contemporâneos. E, se esse pequeno conto fílmico começa de uma maneira envolvente em termos técnicos, consegue terminar com um silêncio tão violento quanto as cenas do qual é composto.

Sonata de Outono (1978)
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Fábio Rockenbach11 de junho de 2026
Fábio Rockenbach11 de junho de 2026Bergman alterna os grandes closes no rosto de suas grandes atrizes com as lembranças sempre marcadas pelos planos abertos distantes de outros rostos, das pessoas ao longe, como se tais lembranças fossem distantes, desumanizadas. Por mais que esse longo e revelador diálogo entre mãe e filha, pontuado por flashbacks, seja inesquecível, há um momento mais sutil, na primeira parte, que me marca entre todos os filmes de Bergman: mãe e filha em frente ao piano.
Da câmera que se foca no rosto de Ingrid Bergman, enquanto ouve a filha, e registra o desapontamento inegável ("Gostou mãe?" "Gostei de você") à câmera que depois foca o rosto de Liv Ullman, enquanto a mãe toca a mesma melodia, o olhar perdido olhando para a mãe num tipo diferente de desapontamento. Algo como "meu Deus, você ainda é assim, como sempre foi? Depois de tudo não conseguiu mudar?"). A dor da decepção da mãe, a revelação desapontada da filha. São somente olhares, porque não há comunicação mais direta entre elas. Bergman dedica uma câmera solitária focando Ingrid, mas faz Ullman dividir o enquadramento com a mãe, em primeiro plano. Não é por acaso.
É um grande filme, que conquista a atenção do público gradualmente através dessas duas atrizes memoráveis. É um filme marcado pelo constante enquadramento com rostos de mãe e filha juntos, e também não por acaso, em muitos momentos tendo uma nos olhando de frente, e outra de perfil - algo que não é novo na filmografia de Bergman, mas aqui se compõe de um significado particular a partir da incongruência de toda a vida entre mãe e filha, nunca partilhando do mesmo olhar.
Quando Eva fala sobre a ausência de limites para o que sentimos ou pensamos, quando adentra em um território menos materialista, o zoom de Bergman retira sua mãe do quadro.
Ela só reaparece quando Eva muda de assunto.
Enquanto uma perdeu sua vida buscando a atenção de outra pessoa, a outra dedicou sua vida a pensar apenas em si e, ironicamente, sempre conseguiu traduzir sentimentos pelas teclas de um piano, mas jamais pelo toque ou pela atenção de um olhar ou de um carinho.
Para certos ressentimentos, sempre é tarde demais...
Da câmera que se foca no rosto de Ingrid Bergman, enquanto ouve a filha, e registra o desapontamento inegável ("Gostou mãe?" "Gostei de você") à câmera que depois foca o rosto de Liv Ullman, enquanto a mãe toca a mesma melodia, o olhar perdido olhando para a mãe num tipo diferente de desapontamento. Algo como "meu Deus, você ainda é assim, como sempre foi? Depois de tudo não conseguiu mudar?"). A dor da decepção da mãe, a revelação desapontada da filha. São somente olhares, porque não há comunicação mais direta entre elas. Bergman dedica uma câmera solitária focando Ingrid, mas faz Ullman dividir o enquadramento com a mãe, em primeiro plano. Não é por acaso.
É um grande filme, que conquista a atenção do público gradualmente através dessas duas atrizes memoráveis. É um filme marcado pelo constante enquadramento com rostos de mãe e filha juntos, e também não por acaso, em muitos momentos tendo uma nos olhando de frente, e outra de perfil - algo que não é novo na filmografia de Bergman, mas aqui se compõe de um significado particular a partir da incongruência de toda a vida entre mãe e filha, nunca partilhando do mesmo olhar.
Quando Eva fala sobre a ausência de limites para o que sentimos ou pensamos, quando adentra em um território menos materialista, o zoom de Bergman retira sua mãe do quadro.
Ela só reaparece quando Eva muda de assunto.
Enquanto uma perdeu sua vida buscando a atenção de outra pessoa, a outra dedicou sua vida a pensar apenas em si e, ironicamente, sempre conseguiu traduzir sentimentos pelas teclas de um piano, mas jamais pelo toque ou pela atenção de um olhar ou de um carinho.
Para certos ressentimentos, sempre é tarde demais...

Amar Foi Minha Ruína (1945)
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Fábio Rockenbach11 de junho de 2026
Fábio Rockenbach11 de junho de 2026Gene Tierney e Jeanne Crain são hipnóticas, para contrabalançar um Cornel Wilde excessivamente passivo - um personagem com uma construção bem mais frágil que aqueles que o cercam, um arco dramático que pouco convence em suas transformações. O tom farsesco predomina e influencia até a montagem, de elipses repentinas e bruscas, mas o filme de Stahl, que alterna uma câmera fluida com um estilo por vezes pouco excessivamente conservador em seus enquadramentos - tem uma aura de mistério e sedução que mantém a atenção (e, de novo, que o mérito se coloque sobretudo em Gene Tierney. Que atriz...)