Vamos falar de cinema

“All those moments will be lost in time, like tears in rain.”
— Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982)

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Lanternas (2026)
Nnatan vinicius11 de outubro de 2026
Acredito que agora que a série já passou de sua metade — estamos no quinto de oito episódios — Vou falar de um assunto que estou a muito tempo querendo falar e discutir, e vou utilizar esse canal de comunicação para isso. A Estética azulada da série — algo irônico, considerando ser uma série dos Lanternas Verdes — Algo recorrente nas série contemporâneas, como “A Agência” (Série com o Michael Fassbender, que eu vi a primeira temporada completa, tem uma falta triste de recorrência principalmente no que se trata de ação, da qual é substituída por um romance melodramático), e como foi muito comentado na internet, uma semelhança estética e temática com “True Detective” (com heróis).

A relação entre Hal Jordan e John Stewart remete a um arquétipo já antigo nessas séries de investigação, os dois são uma dupla de “detetives” com poderes e qualificações muita específicas. E é essa relação que sustenta grande parte dos quatro primeiros episódios, junto a um mistério que desaparece — e se dissipa —. Esse mistério parte da ideia de que existe um alienigena — criminoso de guerra, assassino, e genocida — em Rushville, uma cidade ficticia; esse criminoso, vêm diretamente dos quadrinhos e se chama “Manhunter”, quase como um aceno ao filme do Michael Mann que compartilha de estética e narrativa com a série, esse personagem se esconde entre vários “Sósias” que fingem ser ele próprio, mesmo ele não aparecendo — ou sequer sendo sabido quem ele é — apenas poucas informações são sabidas pela dupla de personagens principais, apenas sendo sabido que esse personagem é um dos capturados do Abin-Sur que o perdeu quando veio à Terra.

O Terceiro episódio anda por uma linha tênue, uma balança entre ser muito chato, mas ainda beirando o interessante, se considerarmos o avanço na trama; esse é um Filler.
O Pássaro das Plumas de Cristal (1970)
Nnatan vinicius11 de outubro de 2026
A Ausência de Daria Nicolodi; substituída pelas também belas Suzy Kendall e Eva Renzi; Nicolodi, a futura musa dos filmes de Argento e mãe de Asia Argento, filha do diretor; faz do filme, um pouco diferente e menos característico (não abandonando essa característica, já que ela, aliás, ainda nem existia) dos filmes posteriores de Argento como: Opera (1987) e Profondo Rosso (1975), ela traria uma sensualidade onirica que conversara muito com esse cinema “Rosso” de Argento, forma como apelidei essa primeira fase de ouro do Dário, com um sangue mais falso, enquanto a fase “Profondo”, nos anos 80, com “Tenebre” e “Opera” faz um cinema que conversa ainda mais com um horror realista, com um “sangue menos profundo”, a junção de ambas fase forma Profondo Rosso (1975), como deve ter sido imaginado pelo nome que dei à estas fases.

Vejo um pouco do cinema de Jean Pierre Melville no inspetor Morosini de Enrico Maria Salerno, e sua incrivel atuação e até um pouco no estilo da investigação; Argento realiza transições suaves, principalmente através (apartir) do que já se é sabido pelo telespectador e (no caso do filme) pelo protagonista, Sam Dalmas, como por exemplo que o assassino tem um quadro específico em seu “covil” (um apartamento de um comôdo (napolitano) de Jef Costello, de Alain Delon em Le Samourai (1967), de Melville;) contendo uma coleção de facas, um pano vermelho numa iluminação Chiaroscuro, um “studio” onde a única luz adjacente ilumina uma máquina de escrever); o assassino carrega uma carácteristica em sua voz, uma rouquidão.

Argento apresenta os pássaros do filme, de forma menor como: uma homenagem ao filme de Hitchcock e um interesse do protagonista, e mais geral, o assassino como a caça e o caçador e a luva deixada na galeria como as plumas, algo deixado por pássaros que podem deixar a localização deles mais fácil de encontrar pelos caçadores (Dalmas e Morosini).
O Manuscrito de Saragoça (1965)
Nnatan vinicius11 de outubro de 2026
Contém spoilers
Uma espécie de Ugetsu (Contos da Lua Vaga, de Mizoguchi) em trama em forma, uma adaptação considerável de 3h3m que adapta o livro de Jan Potocki, Influenciado pelo clássico Decamerão, de Boccaccio, Has o adapta com a mesma austeridade a qual alguém adaptaria as Mil e Uma Noites. O filme é de várias formas psicodélico, como uma obra desse calibre e formato de ser contado; ou melhor: onírico, sem deixar de parecer uma história fantástica de livro, mas sendo quase real, se me prendessem numa caverna como nos mitos de Platão, e me mostrassem esse filme, eu acreditaria que a vida do lado de fora, a vida virada para o “sol” era cheia de devaneios, permitindo que o sobrenatural fantástico possa invadir a história através dele. Wojciech J. Has fez esse filme apenas dois anos antes do trágico e letal acidente de seu protagonista, interpretado por Zbigniew Cybulski numa de suas atuações que menos se parece com ele, devo admitir ter demorado perceber que era Cybulski no papel, mesmo tendo visto Cinzas e Diamantes, poucos dias atrás, Cybulski morreu poucas horas depois de ser atropelado por um trem ao tentar pular num vagão, em 1967, aos 39 anos. Novamente; o filme impressiona com sua qualidade técnica e beleza de suas imagens, cenários realmente bélissimos, o que facilitam bastante a produção de imagens realmente belas, as sequências mais bonitas são em sua grande maioria, aquelas onde o diretor rege com sagacidade, os personagens são no mínimo excêntricos, e é perceptível como que os enforcados são um portal para aquele mundo inverso ao nosso, onde a magia e a fantasia são poentes são possíveis como o pôr do sol, que pouco aparece na fotografia preto e branco desse filme, tanto os cenários interiores que parecem subterrâneos ou a cena maluca onde a música dos títulos e dos créditos retorna para tocar como um épico e repetir as belas imagens dos créditos já mencionados.

A cidade espanhola que dá nome ao filme, Saragoça, é explêndida e fantástica, de todas as formas que se possa imaginar, sendo até mesmo espantosa; a beleza das atrizes que interpretam as irmãs de forma hipnótica, é isso também: um misto entre hipnose e beleza que agarra o protagonista e já não solta mais, agarrando-o como imãs; se eu fecho meu par de olhos e imagino num David Lynch polonês só poderia pensar em Has, ou melhor: se eu imaginasse um Wojciech Has americano, minha mente só buscaria à Lynch, com seu estilo característico e expoente do expressionismo alemão e do surrealismo latino, como das obras de Buñuel (que fez questão de ver e rever esse filme três vezes, algo fora do comum em sua cinefilia), ou as do gênio, mas asqueroso, Salvador Dali. Os personagens tem características especificas empregadas particularmente por seus atores e atrizes, tem nomes importantes na monarquia espanhola, como Donnas e Dons, além de Condes e “Señores”.

Retornando à Lynch, tanto Alfonse Van Worden, quanto Dale Cooper, estão entre a cruz e a espada, vivendo e passando por terrores numa cidade que pouco conhecem, mas que se apaixonam, sejam por sua estrutura e paisagem; ou de seus habitantes, novamente quero retomar sobre como eu acredito que o personagem de Cybulski, quando passa pelos irmãos criminosos enforcados, ele não apenas atravessou um portal; entre o real e o real fantasioso, como liberou as criaturas que habitavam o lado de lá, as cenas são ainda mais repetitivas pela desgraça de Saragoça, que vive constantes saques e invasões.
Fedora (1978)
Nnatan vinicius11 de outubro de 2026
Contém spoilers
O filme gira em torno da vida da fictícia atriz Fedora, uma famosa estrela reclusa que vive numa isolada vila em Corfu, na Grécia. A cada nova revelação, o filme se tornava ainda mais interessante e autoral — e podem ficar tranquilos, pois irei mencionar muito pouca coisa a respeito. Recomendo não pesquisarem nada sobre o filme, já que o plot twist é algo muito comentado, inclusive no magnífico texto da Pala de Walsh, "Fedora: 'For Old Times' Sake'", escrito por Joana Duarte.

Como já é costume na filmografia de Billy Wilder, diretor do longa, esse projeto não se abstém da hermenêutica classicista que havia consagrado Wilder décadas antes e que o colocava no patamar de figuras estrelares do cinema inglês (britânico e americano) — como Alfred Hitchcock —, hermenêutica que ele realizava com tanto prazer nas eras de ouro de Hollywood, mesmo esse filme tendo fortes conexões com a Europa também. Soma-se a isso a conexão com a própria vida de Wilder que, assim como o roteirista vivido por Holden, tinha problemas para captar recursos para realizar sua obra: uma comédia de erros composta por rejeições de elenco, problemas de saúde no set, conflitos com o estúdio e o choque com a nova estética de Hollywood — a Nova Hollywood de Brian De Palma, Martin Scorsese e Steven Spielberg, principalmente, mas contando também com diretores como Francis Ford Coppola, Dennis Hopper, Mike Nichols, George Lucas, Peter Bogdanovich, Hal Ashby e Arthur Penn, que durante vários anos dirigiram e realizaram obras como O Poderoso Chefão, Apocalypse Now, Taxi Driver, Touro Indomável, Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Guerra nas Estrelas, American Graffiti, Carrie, a Estranha, Vestida para Matar, A Última Sessão de Cinema, MASH*, Nashville, Ensinando a Viver, Muito Além do Jardim e Bonnie e Clyde. Além de realizarem essas obras, alguns deles atuariam futuramente como produtores, caso de Spielberg, que produziu Poltergeist: O Fenômeno (1982), dirigido por Tobe Hooper, Os Goonies (1985), dirigido por Richard Donner, De Volta para o Futuro (1985), dirigido por Robert Zemeckis, Gremlins (1984), dirigido por Joe Dante, e Uma Cilada para Roger Rabbit (1988). Essa forma lucrativa do alto cinema de Hollywood — misturando o estilo europeu com críticas sociais e forte apelo artístico — criaria obras do início do blockbuster: produções de massa com altos lucros e grande investimento de marketing, inauguradas pelo já comentado Tubarão, de Spielberg, e consolidadas como uma forma lucrativa de conseguir dinheiro ao longo de toda a década de 70.

Billy Wilder, por ter se especializado na antiga hermenêutica clássica de Hollywood, tinha aos olhos dos estúdios apenas o estilo europeu, o que causou mais dificuldades para terminar esse filme. Assim como o personagem de Holden, Wilder famosamente teve problemas para captar recursos e verba para produzir o roteiro, realizá-lo e filmar em locação como queria; ainda mais por ter uma pequena ponta do astro Henry Fonda como diretor-presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Wilder queria Marlene Dietrich para o papel principal, mas ela odiou o roteiro e recusou o convite. Outros nomes planejados também caíram por terra, até a escalação de Marthe Keller, que sofreu sérios ferimentos no rosto em um acidente de carro durante as filmagens — o que impediu o uso da maquiagem de envelhecimento planejada e obrigou mudanças drásticas no conceito dos personagens.

O filme tem fortes conexões com o cinema e a literatura. Desde sua primeira cena, um dos poucos momentos de "ação" do filme, a governanta da propriedade em Corfu grita o nome de Fedora, que pula nos trilhos e é dilacerada pelo trem. Essa sequência é retomada na metade do filme, permitindo ao público entender o contexto completo: Fedora estaria esperando Michael York — que aparece em uma das cenas mais belas e poéticas de todo o filme, na qual deposita uma rosa sobre a falecida, e com quem ela se comunicava por cartas que nem sequer saíam de sua casa, quanto mais de Corfu. Essa cena referencia ao mesmo tempo a primeira cena do cinema e o final de Anna Karenina: a protagonista se jogando nos trilhos de um trem. O suicídio ecoa diretamente o final trágico do romance de Liev Tolstói, obra que o produtor Barry Detweiler tenta convencer a atriz a estrelar. Ao mesmo tempo, a cena homenageia o nascimento do próprio cinema, remetendo ao histórico e pioneiro filme dos irmãos Lumière, "A chegada de um trem à estação" (L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat), e ainda referencia outro início clássico de Wilder: seu filme mais famoso, "Crepúsculo dos Deuses", apenas trocando a Sunset Boulevard pela estação de trem de Corfu, onde novamente um personagem de William Holden narra a história. Holden trabalhou com Wilder em diversas ocasiões: Crepúsculo dos Deuses (1950), Inferno Número 17 (1953) — pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator — e Sabrina (1954). Anos depois, eles se reencontrariam no drama Fedora (1978).