Como não viajar com LSD
Não-ficçãoNa casa dos meus vinte e poucos anos, apesar de sempre ter sido uma pessoa quase moralista em relação ao uso de drogas, eu era bem curioso com psicotrópicos. Descobri que um primo meu tinha o contato de quem vendia LSD. Ele me passou e eu resolvi experimentar. Só que eu sempre fiquei meio com o cu na mão de passar vergonha, né? Até porque eu já tinha ouvido relatos de um amigo de um amigo meu que, quando foi usar LSD para ver Divertida Mente no cinema, acabou se cagando inteiro.
Então decidi que a minha primeira vez seria sozinho em casa, isolado do mundo, só assistindo a coisas.
Eu tomei e, durante meia hora, fiquei em negação, jurando que não ia bater. Inclusive, hoje em dia eu gosto de dizer que o LSD é dividido em duas partes: a parte do "acho que não vai bater" e a parte do "ih, eu acho que já tá passando", sendo que essa segunda costuma durar umas seis horas.
Lá pelos quarenta minutos comecei a sentir os efeitos, como se o som demorasse mais para se dissipar no ar. Também comecei a perder um pouco a sensação de profundidade das imagens que eu estava vendo. Enquanto estava trancado no meu quarto, ouvia os carros passando na rua e, a cada curva que faziam, escutava o eco até onde o som terminava.Foi quando comecei a pensar no que faria nas próximas horas. Na época eu estava assistindo a Evangelion e precisava ver The End of Evangelion. Pensei: "Ah, por que não?". Fui lá e dei play.
No começo veio aquela sensação gostosa de familiaridade. Acho que isso ajuda muito quando você está chapado: assistir a alguma coisa que já tem uma abertura ou uma estrutura que você conhece, porque o LSD amplifica o que você está sentindo. Se você está confortável, vai sentir um conforto ainda maior.
Só que aí começou a parte pesada de Evangelion. Chegou num ponto em que um dos Evas de Produção em Massa joga a Lança de Longinus na cabeça da Asuka enquanto ela está pilotando o robô, e o anime resolve imprimir a dor dela através do som e Nossa, que agonia eu senti. Pensei: "Talvez seja melhor deixar isso para um momento em que eu esteja um pouco mais lúcido e consiga acompanhar melhor".
Então pulei para a próxima coisa que eu tinha para ver, que era Darling in the Franxx.

Hoje em dia é um anime com o qual eu tenho zero conexão, mas, com certeza, uma das experiências mais viscerais da minha vida foi assistir àquele episódio. Olhando em retrospecto, e já no dia seguinte também, percebi que o episódio não tinha nada demais. Era só desenvolvimento de personagem, o plot mais reciclado de novela das sete possível. Mas, como o LSD amplificava tudo o que eu ouvia e sentia, teve uma parte em que o personagem gordinho falava sobre como tinha bulimia e que só passava por aquilo porque queria ficar mais magro para a garota de quem gostava. Eu estava quase chorando no chão do quarto enquanto ele contava aquilo.
Passada essa primeira experiência, decidi que talvez ainda não estivesse pronto para usar em público. Mesmo assim, algum tempo depois acabei indo ao Noitão do Centro Cultural São Paulo, no Cine Phenomena.
Na verdade, foi o noitão mais enganoso da minha vida, porque eram só dois filmes de Halloween que iam passar em sequência: The Rocky Horror Picture Show e O Corvo. Fui lá, tomei o LSD e começou The Rocky Horror Picture Show. Aquilo é uma coisa elétrica, enérgica, uma maravilha sonora baseada em pianos elétricos marcantes e riffs de guitarra que são praticamente felicidade em forma de som. Acho que nunca fui tão feliz durante uma hora e quarenta de filme quanto quando vi Rocky Horror no CCSP chapado de LSD. Só que aí vieram as contrapartidas.
Logo depois, o que eles iam passar? O Corvo. Um filme tenso, depressivo, para baixo, uma merda de clima. E, para piorar, como eu comentei, aquilo não era bem um noitão, era uma sessão dupla. Os filmes começaram por volta da meia-noite e terminaram antes de o metrô abrir. Então tive que ficar lá, chapado, no frio e na garoa paulistana, esperando o metrô abrir sem poder sair do Centro Cultural São Paulo. Para a minha sorte, eu estava bem agasalhado e passei uma hora e meia abraçando a própria blusa para tentar me esquentar.

Eu já tinha usado duas vezes. Uma vez em casa, outra no cinema, e ambas tinham sido em ambientes fechados. Eis que surgiu o convite para passar o fim do ano numa casa de praia.
Como eu estava só entre amigos, imaginei que não ia ter dor de cabeça nenhuma. Já tinha percebido que, usando LSD, eu era uma pessoa controlada. Não ia passar vergonha nem cagar nas calças. Então aceitei o convite e levei o doce. Estava todo mundo bebendo, fumando, comendo. Inclusive, o menino que trouxe a gente de São Paulo de carro não estava bebendo, mas fumava que nem um filho da puta. Cortei meu quarto de LSD, que era a dose que eu costumava tomar, e meti na língua. O motorista viu e perguntou:
— Ô, o que é isso aí?
Eu respondi:
— LSD.
E ele:
— Ah, então me dá um.
Ele falou com uma naturalidade tão grande que eu pensei que o cara era o próprio Mr. Drogas. Fui lá e dei outro quarto para ele.
Meia hora depois já começou a bater em mim. Cheguei nele e perguntei:
— Ô, fulano, você tá de boa?
E ele respondeu:
— Cara... pra mim, de boaça.
Eu falei:
— É que você deve ter costume de tomar. Então um quarto foi pouco.
Aí ele manda:
— Não. É a primeira vez que eu tô tomando.
Eu só pensei:
— Caralho, mano...
O detalhe importante é que a gente estava numa casa perto da praia, mas o plano era esse menino levar a gente de carro até a areia.
Mais meia hora se passou. Ele falou que estava um oitavo de boa, e eu já estava tri-louco. Chegou a hora de ir Entramos no carro: eu, um amigo meu, a filha dele com uma bebê e o motorista. Ele levou a gente até a praia e nos deixou lá. Eu, completamente doido, ainda perguntei:
— E aí, tá de boa para voltar depois?
Na minha cabeça, ele balançou a cabeça confirmando. A praia ficava a uns dez minutos da casa. Passaram dez, vinte, trinta minutos... uma hora. E a gente começou a se perguntar:
— Ué, caralho... cadê o pessoal?
Mandamos mensagem para quem tinha ficado na casa perguntando pelo fulano. A resposta foi que ele não estava lá.
Ligamos para ele. Atendeu murmurando, sem falar coisa com coisa. Aí bateu o desespero. A gente precisava voltar para casa, mas não sabia o caminho, não sabia o endereço e não tinha sinal de porra nenhuma. A única opção foi esperar. Do nada, umas duas horas depois, chegou uma mensagem:
— Olha, o fulano tá aqui... mas ele não consegue sair do carro.
Na hora eu só lembrei do próprio Shinji, de Evangelion, em crise, se recusando a sair de dentro do robô. Conseguiram tirar ele do carro, deram água e, por algum motivo que só existe na cabeça de alguém completamente chapado, ele cismou que ia buscar o resto da galera na praia.
Uma parte resolveu pegar Uber e outra foi de carro com ele. A galera do Uber chegou em dez minutos e a do carro demorou uns trinta e cinco. Quando ele desceu, o homem estava transformado, suando igual um condenado e contou para a gente a saga inacreditável que tinha sido aquela volta de dez minutos. Quando percebeu que não sabia o caminho e que não ia conseguir encontrar a casa de praia, a lógica dele foi simplesmente voltar para São Paulo e na cabeça dele, fazia todo sentido. Ele já estava dirigindo pela avenida em direção à estrada quando teve um estalo, percebeu a merda que estava fazendo e resolveu voltar. No começo todo mundo ficou puto e mais comigo por ter dado o doce para ele. Mas meia hora depois a gente já estava pulando no mar e quebrando onda, igual a qualquer morador do estado de São Paulo quando vai à praia.
A lição que eu tiro de disso é que viajar é legal, mas você precisa saber para onde esta viajando antes.







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