A maior lição de vida que aprendi com o cinema: NÃO SEJA VOCÊ MESMO
Aspectos SocioculturaisPeraí, o cinema me ensinou a não ser eu mesmo? A renunciar a minha identidade e ignorar aquilo que faz de mim quem eu sou? E isso seria algo bom, digno de ser defendido, aqui nesse texto?
Não exatamente. Na verdade, a grande lição que emana dessa tela gigante e brilhante que frequentemente me emociona é a de que é muito bom que eu possa ESCOLHER não ser eu mesmo, por uma, duas ou três horinhas.

Explico: durante a duração de um filme, nos deparamos com a sedução tentadora de deixarmos para trás a nossa própria vida, com seus problemas e dilemas corriqueiros, e habitarmos um mundo completamente diferente, ainda que ele possa ser praticamente o mesmo mundo no qual vivemos, dependendo do tipo de história que assistimos. Mas o diretor de um filme sempre irá nos conduzir por uma experiência particularmente única ao filme em si, permitindo (em maior ou menor grau, caso seja mais ou menos habilidoso) que sejamos transportados para outro plano de existência.
Um dos aspectos mais atraentes dessa troca momentânea de vidas é a natureza escapista dessa ilusão maravilhosa que o cinema nos proporciona. Falo por mim, mas creio que o pensamento se aplica a todos nós, quando digo que filmes podem se tornar um alívio delicioso para o dia-a-dia mundano que nos aprisiona nos piores lados da realidade: o tédio, o sofrimento, o estresse e outras emoções incômodas. No cinema, através da atenção plena, podemos nos livrar disso tudo e perseguir objetivos diferentes e intrigantes, viver momentos inesquecíveis e fantásticos, materializar os nossos sonhos ou medos e conquistá-los como nem sempre fazemos, fora dali.

Claro que essa ideia não é nova. No livro O cinema ou o homem imaginário, de 1958, o autor Edgar Morin já defendia aquilo que ele considerava a alma dessa forma de arte audiovisual: a constituição de um mundo imaginário que vem se transformar no lugar por excelência de manifestação dos desejos, sonhos e mitos do homem. E o ingrediente principal desse efeito quase mágico que permeia o cinema seria o fenômeno da identificação, ou seja, a nossa capacidade de se projetar naquilo que é projetado na tela. De compreender o que ocorre ali, e, principalmente, de sentir aquilo que os personagens sentem.
Agora, vale voltar à minha defesa inicial — o abandono do EU — e dizer que, na verdade, o cinema não nos obriga a deixar de ser quem somos para que partilhemos das suas dádivas imaginativas. Quando assistimos a um filme, ainda somos convidados a contribuir com a nossa bagagem cultural, memórias ou mesmo o nosso jeito de enxergar o mundo. Afinal, uma das coisas mais belas da arte é que ela jamais ocorre no vácuo, já que ela só é percebida como arte porque existe alguém para percebê-la, em primeiro lugar. E no cinema não é diferente: um filme é bom, quando ele se encontra com essa coisa maravilhosa que é a individualidade daquele que o assiste, e se torna compatível com ela, sendo capaz de a confortar, desafiar, contestar ou distrair.

Mas eu acho que esse desprendimento de nós mesmos ocorre num nível mais etéreo mesmo, com a nossa personalidade flutuando livre do nosso corpo, da nossa vida exterior e dos nossos boletos… e se permitindo existir nesse estado mais lúdico, ainda que o corpo permaneça ali sentado na cadeira do cinema, pronto para receber os estímulos psicológicos de um filme e os manifestar fisicamente: chorando, rindo, se excitando ou se arrepiando.
Até aqui, é possível que você se sinta tentado a apontar uma certa contradição nessa discussão toda: o cinema me ensinou a não ser eu mesmo, sendo eu mesmo? A me deixar levar por um filme, mas também a trazer comigo os meus gostos, vontades e anseios? Claro que a coisa é meio confusa mesmo, mas eu sinto que a resposta a esses questionamentos reside justamente na natureza ambígua do cinema, já que ele pode ser e não ser muitas coisas, ao mesmo tempo. O cinema é, simultaneamente, verdadeiro e mentiroso, genuíno e manipulador, artístico e comercial, bom e ruim. Ele pode representar a realidade da forma mais verossímil possível e, ainda assim, ser ficcional. Ou então criar universos exagerados, repletos de fantasias inacreditáveis… e tirar disso alguma verdade profunda e inquestionável sobre a nossa existência. Ou seja, o cinema é essencialmente contraditório, e justamente por isso, através dele, podemos ser contraditórios também. Podemos viver várias vidas, sem abrir mão da nossa própria — inclusive durante a duração do filme.

Dito isso, pode parecer que esse texto defende apenas aquele tipo de filme escapista, que nos alivia da vida real, promovendo um entretenimento passageiro mas não muito pertinente. Nesse sentido, o NÃO SEJA VOCÊ MESMO do título do artigo renderia um benefício unicamente pessoal, fruto dessa procura individualista por distração ou prazer próprio. Mas existe outro tipo de cinema que também se beneficia desse desprendimento do eu, que é o dito “cinema de arte”, mais socialmente consciente, preocupado com temas relevantes, etc. Serei direto: odeio esse tipo de classificação, mas às vezes, ela nos ajuda a organizar melhor a discussão. Assim, irei simplificar um pouco a questão e utilizar essa diferenciação.
Enfim, nesse tipo de cinema, eu acho que existe um resultado ainda mais produtivo que ocorre quando ignoramos a nós mesmos, que é o de exercitarmos a empatia para com vidas completamente diferentes das nossas. Não de um jeito moralista ou superior, mas sim através da entrega por completo a essas vivências tão distintas. Eu não sei como é crescer como uma adolescente que engravidou e precisa recorrer ao sistema de saúde de Nova York para lidar com isso, mas através do cinema, eu consigo compreender melhor essa situação e, portanto, me conectar a pessoas que passaram e passam por isso (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, de 2020).

Da mesma forma, eu não cresci sob um regime teocrático islâmico, com a minha família eternamente em atrito por conta da visão tradicional do meu pai, a discordância da minha irmã e a tarefa impossível da minha mãe, de apaziguar esses lados opostos. Mas através do cinema, eu consigo saber um pouco mais sobre esse tipo de existência (A Semente do Fruto Sagrado, de 2024).
Mesmo aqui no Brasil, eu não sei como reagiria se o meu pai fosse levado embora pela ditadura, para nunca mais voltar, e a minha família tivesse de se reinventar, sob a liderança inabalável da minha mãe, para continuar existindo e resistindo. Mas no cinema, eu posso ter uma pequena amostra desse sentimento (Ainda Estou Aqui, de 2024).

Voltando no tempo, o raciocínio permanece. Eu jamais seria capaz de imaginar a vida de sobrevivência árdua no sertão nordestino (Vidas Secas), a experiência do povo judeu no Holocausto (O Pianista) ou a de um pré-adolescente no Japão arrasado pela bomba atômica (O Túmulo dos Vaga-Lumes). Mas o cinema me permite viver vidas assim, me colocando em seus lugares e me transformando, através desse contato imaginativo com histórias muito reais, para que eu saia dali muito mais atento ao mundo que existe além de mim mesmo.
E essa seria, talvez, a maior lição que o cinema vem me ensinando desde que me apaixonei por ele: a de que eu não existo sozinho no mundo. O meu ponto de vista não é definitivo e a forma como eu vivo não deveria ditar como eu enxergo esse mundo que é bem mais plural do que a limitação do meu olhar costuma acreditar que ele seja. Quando eu digo que o cinema me ensina a NÃO SER EU MESMO, é porque ele pode muito bem oferecer um alívio para o fardo de SER EU MESMO — através da fuga deliciosa que a ficção é capaz de nos proporcionar — mas também provocar um confronto à inevitabilidade egocêntrica de SER EU MESMO.

E esse confronto é muito necessário, já que ele me relembra que há muito mais formas de viver do que a minha, e quando eu permito que filmes me revelem essas vidas paralelas, aquilo que eu recebo em troca vai além da satisfação pessoal e do escapismo divertido. Com o cinema, eu aprendo a ser alguém melhor e muito mais apto a conviver em sociedade. A ser tolerante, respeitar a diversidade cultural inerente à raça humana e existir como parte de um todo, ao invés de me voltar só para mim. E eu acho que esse é o lado mais valioso dessa lição que aprendi e aprendo constantemente, quando o cinema me motiva a deixar de ser quem eu sou, apenas por algumas horinhas. ;)





















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