Silêncio... e o orgulho da fé
Críticas GeraisSilêncio é um filme capaz de despertar dois tipos diferentes e, talvez, igualmente equivocados de reação do público.
Por um lado, poderia-se dizer que o filme faz uma defesa problemática do cristianismo e das missões jesuítas, focadas em exportar a fé católica e evangelizar, à força, povos e culturas consideradas como pagãs pela Igreja. Nesse sentido, a trama que acompanha dois padres portugueses viajando para o Japão e sofrendo perseguição na mão dos japoneses cruéis seria um retrato da desumanidade desses povos, em contraste com a nobreza e o sacríficio dos fiéis cristãos. Por conta disso, muita gente acusou o filme de endossar o imperialismo e a dominação religiosa eurocêntrica dos séculos passados.
Mas, à medida em que a história se desenrola, ficaria evidente que a mensagem na verdade seria "ABANDONEM O CRISTIANISMO", não demonstrem sua fé em público e, literalmente, pisem nos símbolos da sua crença. E claro que isso indignou a galera do outro lado, que passou a emitir alertas para o perigo das ideias subliminares anti-cristãs do filme.

Felizmente para nós, pessoas sensatas que gostam de assistir a filmes refletindo sobre as ideias que eles elaboram sem precisar sair correndo para algum lado extremo… Silêncio foi dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese, um cineasta como poucos, enraizado no catolicismo e profundamente dedicado a examinar as questões da fé através do seu trabalho, muitas vezes abordando esse assunto de frente, como em A Última Tentação de Cristo, outro filme equivocadamente controverso (para mim, é uma meditação fascinante sobre a humanidade de Jesus em conflito com sua divindade).
Silêncio, ao contrário das opiniões polarizadas e divergentes que citei acima, é focado não em derrubar ou legitimar a religião, mas sim em desconstruir a fé, para entender o que a motiva, como ela é recebida em diferentes contextos e como ela pode ser contaminada por algo muito sorrateiro que é o orgulho.
Na trama, a missão principal dos padres Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) é se infiltrar num Japão feudal persecutório e descobrir o paradeiro do Padre Ferreira, o antigo mentor deles, que supostamente teria apostatado e abandonado a fé.
Quem os guia através do território japonês é um cara chamado Kichijiro, e não demora para eles encontrarem uma pequena vila de camponeses cristãos convertidos. Então, enquanto aguardam mais pistas de onde está o padre Ferreira, eles aproveitam para ministrar várias cerimônias para os fiéis da aldeia: santas ceias, perdão dos pecados e por aí em diante.

É nesse contexto que a gente vai habitando a mente do padre Rodrigues… entendendo suas motivações e mesmo as reflexões às vezes contraditórias que ele vai tendo sobre tudo o que está vivenciando. O padre Rodrigues tem um fascínio pela figura de Cristo, só que, aos poucos, a narrativa começa a borrar as linhas entre uma fé legítima num salvador que se sacrificou pela humanidade… e uma espécie de orgulho exagerado de fazer parte dessa fé, de se tornar uma referência moral tão santa quanto o próprio Jesus.
Rodrigues até parece colecionar, ao longo da história, seus próprios atributos messiânicos, como por exemplo a relação que ele vai desenvolvendo com o Kichijiro… um cara que repetidamente trai a confiança de Rodrigues, como se fosse seu próprio Judas particular, apenas para ser perdoado na interação seguinte.
Scorsese, aliás, endossa essa semelhança com Cristo até no visual de Andrew Garfield, que vai deixando a barba e o cabelo crescerem e evocando aquela imagem clássica (e bem influenciada por uma visão européia) de Jesus.
O ápice dessa comparação que o próprio Rodrigues faz consigo mesmo e Cristo é quando ele olha para seu reflexo na água e vê o rosto que ele tanto imagina no lugar do seu próprio. E é a partir do momento em que ele é, finalmente, capturado, que o filme o força de vez a analisar, julgar e desconstruir sua própria fé. Isso acontece porque várias e várias vezes ele é confrontado com uma provação tremenda: ou ele pisa num pequeno símbolo cristão de metal, renunciando assim publicamente a sua fé… ou seus seguidores são queimados, afogados, pendurados de ponta cabeça e sacrificados.
Esse é um dilema extremamente complexo e interessante que permite que o padre Rodrigues — e Scorsese, por extensão — examinem o que realmente constitui um ato de fé, ou o que está por trás de supostas atitudes de heroísmo religioso que são muito comemoradas, até hoje inclusive. Quanto mais o padre Rodrigues rejeita a chance de apostatar e condena seus seguidores ao martírio, mais ele mesmo sente o peso que isso traz para sua alma e sofre com o silêncio de Deus, que não livra os fiéis dessas provações.

E é só quando o padre Ferreira (Liam Neeson) finalmente reaparece que o padre Rodrigues percebe que talvez ele esteja sendo tão irredutível não por uma questão de fé, mas por uma questão de orgulho.
O padre Ferreira questiona se os recém-convertidos japoneses estavam mesmo morrendo em nome de Deus, ou do fragmento da ideia de Deus que eles eram capazes de assimilar. Numa cultura tão diferente e espiritualmente oposta à do cristianismo, como de fato saber se o cristianismo convertido naquele lugar era o mesmo cristianismo praticado na Europa.
Assim, quando esses cristãos se sacrificam por um padre que se recusa a pisar num pedacinho de metal, de certa forma eles estão fazendo isso por uma ideia muito diferente da ideia que o padre Rodrigues tem de Deus, da religião e da fé. Eles estão fazendo isso por ele! Pelo padre Rodrigues, que é a referência tangível que eles conseguem ter de Deus.
E o padre Rodrigues se recusa a quebrar justamente essa imagem dele mesmo que foi construída na mente de seu rebanho: ele é quem não pode apostatar, quem tem de se manter moralmente elevado, tanto é que ele suplica para que seus fiéis pisem do símbolo, para se salvarem, mas ele mesmo não é capaz de fazer isso por eles… ainda.
Eventualmente, o padre Ferreira convence o padre Rodrigues a pisar no símbolo de metal e assim, salvar a vida das pessoas que estavam penduradas de ponta cabeça, mesmo que isso custe tudo que ele sempre acreditou sobre si mesmo.
A partir disso, Rodrigues é aparentemente convertido para o budismo, recebe um novo nome e vive o resto de seus dias numa introspecção pesada… e penso que esse é o trecho que levou muita gente a enxergar que a mensagem final do filme é a do abandono da fé.

Só que o que realmente fica no ar quando você pensa um pouco mais além do que está na superfície… é a questão central do que, de fato, que foi sacrificado ali. Teria sido mesmo a fé do padre Rodrigues, ou o orgulho que ele tinha dessa fé. Ele estava mesmo defendendo o que ele acreditava ou o que as pessoas ao seu redor (e ele mesmo) achavam que ele acreditava.
Saindo um pouco da ótica teológica e partindo para um olhar simplesmente humano… o que valeria mais: a vida das pessoas que estão sofrendo ali ou um pedaço frio de metal inanimado, incapaz de sentir qualquer coisa? Onde Deus realmente habita? Nos seres humanos ou nos objetos?
Não existem respostas diretas para tudo isso, mas existe uma intenção de quebrar o pensamento bidimensional — o dogma preto e branco — não para dizer “a doutrina não importa, as leis não importam” mas para entender porque que elas existem, o que está por trás dos símbolos de fé e como eles deveriam ser exatamente isso: símbolos… que servem aos atos, às atitudes, e não o contrário.
Rodrigues finalmente percebe isso quando tem a oportunidade, muitos anos depois, de perdoar mais uma vez o Kichijiro… e dessa vez ele faz isso com muito mais consciência do ato em si. Antes, ele o odiava, mas perdoava porque precisava se mostrar mais santo que ele. Mas agora ele simplesmente se enxerga no mesmo nível, já que ele também apostatou, e os dois são basicamente iguais.
O último plano do filme mostra Rodrigues sendo cremado segundo os costumes japoneses, mas a câmera mergulha dentro da urna para mostrar que sua mão segura um pequeno crucifixo… e esse movimento de câmera é perfeito em simbolizar que, talvez no seu íntimo, o padre permaneceu entregue a Deus… e eu acho que essa seria uma das ideias principais da história: no fim de tudo, só Deus mesmo seria capaz de julgar o interior de uma pessoa e o que ela realmente acredita.

Mas isso é uma interpretação, e a grande beleza é que o filme abre espaço para diversas versões. Por isso que a arte é tão bacana, tão democrática e tão essencial para construir um pensamento multifacetado. E na mão de grandes cineastas, histórias assim conseguem aproveitar ao máximo a linguagem do cinema para justamente evocar essas grandes reflexões.
Por tudo isso, para mim, Silêncio é um filme fascinante que se coloca como esse espaço de discussão e faz isso de um jeito profundamente belo.









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