A perspectiva enganosa de 500 Dias com Ela

Críticas Gerais

Aconteceu no segundo semestre de 2010: eu namorava uma garota há 3 anos, à distância, e as coisas não estavam indo muito bem… até que a gente terminou e isso me colocou numa espiral de desilusão amorosa que me jogou com força nos braços de um filme que tinha saído um ano antes: 500 Dias Com Ela, dirigido pelo Marc Webb. Depois de assistir, eu fiquei obcecado com essa SUPOSTA história sobre um sonhador romântico trágico que sofre nas mãos de uma mulher tão apaixonante quanto distante e desapegada.

Eu digo suposta história porque 500 Dias Com Ela é um dos filmes mais mal-interpretados das últimas décadas, principalmente por pessoas como o Gustavo Girotto de 2010, que achava que tinha encontrado ali um consolo para sua própria fossa: uma espécie de jornada do herói que atravessava as fases do luto e, finalmente, conseguia virar a página e seguir em frente. 

Naquele momento, era a catarse que eu precisava, mas os anos foram passando e eu fui amadurecendo, até que eu finalmente entendi o quanto o Tom, o protagonista do filme interpretado por Joseph Gordon Levitt, é um personagem completamente cego pela sua própria visão de mundo romantizada — pelos sentimentos que ele mesmo projeta nos outros — e a Summer, a "grande vilã" da história vivida por Zooey Deschanel, é simplesmente alguém normal, que sempre deixou claro o quanto ela estava disposta ou não a se envolver nesse relacionamento.

Mas independentemente dessa inversão de perspectiva que eu descobri com o tempo, eu já admirava muito o filme formalmente (forma = seu estilo narrativo), e eu acho que ele encontra um jeito de contar essa história que é absolutamente delicioso de assistir.

Por exemplo, a trama vai saltando para frente e para trás nesses 500 dias que o Tom vivencia com a Summer, mas a gente nunca se perde nessa linha do tempo, já que o filme usa, de um jeito bem didático, cartelas numeradas que ficam saltando entre os vários momentos desse relacionamento, de um jeito que é assumidamente acessível — o filme não está querendo te mostrar o quanto ele é desafiador, te fazendo se esforçar pra acompanhar o que tá acontecendo — mas esse mecanismo nunca vira algo explicativo demais ou mesmo gratuito, sem propósito.

Pelo contrário, a não-linearidade de 500 Dias Com Ela está sempre ressignificando memórias, brincando com momentos felizes que se repetem de forma triste no futuro, entregando primeiro coisas que acontecem pra depois mostrar porque elas aconteceram, ou se permitindo trazer algumas vinhetas específicas que fogem do estilo principal da narrativa, por serem pequenos recortes documentais que parecem denunciar que essa história é uma espécie de ensaio clínico sobre os comportamentos amorosos de diferentes pessoas.

E algo que reforça isso é a narração grave, desapegada e distante que pontua trechos do filme e que inclusive já alerta, no começo, que essa não é uma história de amor… numa certa intenção de preparar o espectador pra enxergar a narrativa a partir desse olhar analisador.

Claro que o filme ancora os acontecimentos a partir do ponto de vista do Tom, usando a trilha sonora, os movimentos de câmera e a montagem pra enfatizar o jeito como ELE está enxergando tudo isso… e essa escolha pode parecer meio confusa, já que ela cria um senso de identificação e empatia com esse protagonista e isso parece automaticamente vilanizar a Summer.

Mas é justamente por essa dupla camada narrativa e interpretativa que eu acho esse filme tão rico: ele é capaz de, ao mesmo tempo, dizer na sua cara que não é para você endossar os sentimentos do protagonista, e ainda assim, construir todo um estilo narrativo que apoia a visão romantizada que ele tem da situação… e é a união desses dois elementos meio contraditórios que, para mim, simboliza tão bem a ideia principal do filme: a de que um relacionamento não é uma coisa única, absoluta, imutável e monopolizada. Na verdade, ele é formado por duas pessoas que podem não ter a mesma visão sobre aquilo que elas têm vivido juntas e, algumas vezes, nem perceberem essa incompatibilidade de expectativas.

Um ótimo exemplo disso é a cena que sintetiza perfeitamente a diferença entre o Tom e a Summer, quando os dois estão passeando por uma loja de coisas de casa, móveis e decoração… e eles fingem ser um casal que está junto há muito tempo, que tem o seu próprio lar, que janta junto todas as noites.

Só que, para o Tom, isso é muito mais do que só uma brincadeira inocente. Como ficamos sabendo desde o começo da história, ele cresceu ouvindo música deprê, interpretando de um jeito equivocado filmes como A Primeira Noite de Um Homem e fantasiando com essa ideia do amor verdadeiro… então fingir que a Summer é a sua esposa, mesmo por alguns momentos numa loja de departamento, é um jeito de alimentar perigosamente toda essa expectativa dele por uma relação sólida que nunca foi muito cogitada pela Summer.

Inclusive, a Summer percebe o risco do que isso pode significar e reforça para o Tom, naquele momento, que ela não está interessada num relacionamento sério. Ela só está curtindo mesmo. Inclusive, todo o encontro nessa loja de móveis tem uma função prática muito específica: a Summer acabou de se mudar para Los Angeles, e precisa mobiliar o apartamento. Aliás, o filme nem diz isso diretamente para nós, mas esse é mais um detalhe que o Tom parece ignorar e só enxergar o que ele realmente quer ver, ou seja, a conotação de casamento por trás desse passeio dos dois, que é prontamente rejeitada pela Summer quando eles tão deitados na cama (justamente o local mais simbolicamente íntimo desse passeio).

Só que, mesmo ciente do quanto essa afirmação dela sobre a casualidade desse relacionamento o incomoda, o Tom simplesmente engole o choro, joga essa preocupação para frente e vive o momento com a Summer, decidindo ativamente se deixar levar por essa ilusão que ele mesmo criou, já que a Summer meio que tira ele da vida bem desanimada que ele tinha antes. Com ela, ele se sente muito confiante, muito mais motivado a encarar a vida de frente… e honestamente, quem não se enganaria por um tempo para poder se enxergar como o Harrison Ford no reflexo do vidro.

Aqui vale comentar um ponto importante… o filme nunca oferece a versão da Summer de tudo isso. Ele nunca penetra esse exterior que só é apresentado para nós através dos olhos do protagonista masculino. Mesmo que vários trechos do filme e dos diálogos construam a Summer como ela realmente é, essa construção é sempre marginal. Ela está fora do centro dominado pelo Tom e eu entendo que isso é uma decisão proposital da narrativa que pode incomodar muitas pessoas… mas o ela reforça o quanto a Summer é uma personagem que habita essa dualidade: de se mostrar verdadeira através de várias indiretas (não tão indiretas) do filme que o espectador ignora porque o Tom está sempre dominando a narrativa com a sua projeção ilusória de uma Summer idealizada.

Mas isso significa que ele é o vilão da história? Muita gente acha que sim, principalmente porque, quando se percebe esse jogo de perspectivas, o Tom acaba virando um personagem bem chato e irritante: um cara frustrado, inseguro e possessivo que ganha esse lugar de protagonismo na história.

O problema é que algumas pessoas acabam transferindo essa antipatia pelo personagem para o filme, como se o filme fosse também tão chato quanto o protagonista e eu entendo porque isso acontece. A ilusão romântica do estilo narrativo de 500 Dias Com Ela é tão atraente, tão gostosa, tão eficiente… que parece que o filme está realmente acreditando nessa jornada do herói trágica.

Fora isso, tem gente que simplesmente odeia o filme porque foi assistir uma comédia romântica e o casal não fica junto no final… mas aí, eu devo dizer que isso acontece em praticamente todos os meus filmes românticos favoritos, como apontado nesse texto aqui.

Mas enfim, essa ambiguidade de perspectivas de 500 Dias Com Ela é justamente o que torna o filme tão fascinante, para mim. Ele foi capaz de atingir em cheio uma versão de mim mesmo que era muito menos preparada para enxergar todas essas nuances, lá no passado… e mesmo assim, quando eu fui ressignificando tudo isso ao longo dos anos, o filme ficou ainda melhor, justamente porque ele me revelou essa riqueza interpretativa, além do já citado formalismo divertido.

E hoje ele se mantém como esse espelho que é capaz de mostrar, para quem está disposto a perceber, como as pessoas acabam se desentendendo por conta dessa diferença de perspectivas… a partir dessa projeção dos seus próprios desejos no outro.

 

 

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