5 filmes românticos para te destruir :')

Críticas Gerais

Por que os filmes mais marcantes do cinema, se tratando de amor, são sempre meio insatisfatórios? Não no sentido de serem incompletos, mas de serem sobre nos sentirmos incompletos, com diversas circunstâncias da vida atropelando as expectativas, abreviando ou interrompendo conexões profundas e exigindo que passemos mais tempo convivendo com memórias do que com os eventos que criaram essas memórias.

 

O cinéfilo em mim diria que boas histórias sempre são sobre conflitos, e quanto menos esses conflitos forem resolvidos, mais essas histórias permanecerão eternamente vivas em nossa mente, como um parêntese que se abriu e reluta muito em se fechar, definitivamente. De qualquer forma, a verdade é que existe o cinema arrasa-quarteirões (vulgo, filmes blockbuster), e existe o cinema arrasa-corações… e nessa última categoria, eu resolvi listar os meus filmes românticos favoritos, numa lista que pode funcionar melhor se você já tiver familiaridade com esses títulos. Mas se não tiver, talvez o formato solto e inconclusivo das ideias que vou levantar sobre cada um te estimule a ficar pensando neles, assim como esse parêntese aberto que citei acima.

 

As Pontes de Madison (1995)

Alguns filmes conseguem existir inteiramente numa única imagem, e quando Francesca (Meryl Streep) aperta aquela maçaneta do carro, no final, não é só o céu ao seu redor que chora uma chuva torrencial… mas todos nós choramos com ela e Robert (Clint Eastwood). 

 

As Pontes de Madison é capaz de te remover de tudo aquilo que te prende à rotina e te elevar de tal forma que sua vida inteira passa diante da sua mente enquanto, simultaneamente, o tempo pára num estado de suspensão mágico e poderoso. Clint e Meryl transbordam conexão, erotismo e delicadeza nessa belíssima obra, que toma o seu tempo preparando todo um desabrochar que ocorre com Francesca — de dona de casa aprisionada pela rotina familiar no modo automático a alguém que redescobre a si mesma: sua vaidade, suas vontades, seu interesse pela vida. E isso não necessariamente se deve à presença de um homem que invade, do jeito mais delicado possível, a sua existência… mas sim porque Robert simplesmente age como um facilitador desse processo. Uma ponte (para ecoar o título do filme) entre Francesca e a sua própria identidade.

 

Enquanto isso, o Robert Kincaid de Clint também passa por uma transformação semelhante, embora mais metalinguística, ao desconstruir sua imagem de cowboy durão, tão consolidada no imaginário dos faroestes, e abraçar — sem um pingo de cinismo — o sentimentalismo acessível que permearia muitos dos seus filmes depois desse. Robert é atencioso, sabe escutar, sabe tomar a dianteira mas também frear os seus impulsos até que Francesca esteja confortável… e sabe até se afastar, aceitando a decisão discutivelmente racional de sua amante em não destruir a vida ao seu redor para satisfazer os seus desejos pessoais — evocando a essência do melodrama, vale dizer.

 

O que me traz de volta à maçaneta do carro. Mesmo que ela nunca seja acionada, e aquela porta permaneça fechada… Francesca sempre terá consigo a memória que motivou esse gesto não concretizado. E que lugar melhor para eternizar memórias assim do que o cinema e a sua capacidade de materializar aquilo que a vida real nem sempre consegue fazer?

 

Encontros e Desencontros (2003)

Encontros e Desencontros continua sendo a mais bela poesia sobre duas almas solitárias numa cidade estranha, se aconchegando na companhia uma da outra — alheios a coisas como a idade, condição financeira, nível de sucesso profissional ou aparência física. 

 

Aliás, eu sempre me surpreendo como o filme é engraçado, com Bill Murray trazendo um nível de comédia brilhante que vai do físico ao sutil, algumas vezes se entregando ao pastelão (na cena da mulher que é enviada ao seu quarto como “entretenimento”), e outras vezes usando apenas os seus olhos pra salientar uma piada ("…make it Suntory Time" "CORTA!"). Dito isso, esse humor transborda uma melancolia inquestionável, fazendo com que o filme seja uma de duas coisas, dependendo do seu estado de espírito ao assistir: ou é o filme engraçado mais triste do mundo, ou o filme triste mais engraçado que já existiu.

 

E que mantém a tradição do parêntese aberto, quando Bob sussurra para Charlotte algo que apenas ela consegue ouvir e que provoca o mesmo tipo de ambiguidade no rosto novinho de Scarlett Johansson, depois de um filme inteiro com ela sendo um oceano de emoções que se disfarçam numa postura tremendamente contida. Mas nesse desfecho, testemunhamos nela um sorriso que disputa, com as lágrimas, o controle total de sua face. Qual dos dois prevalecerá? Até hoje, eu não faço a menor ideia.

 

E ok, talvez eu esteja esticando a corda ao colocar esse filme na lista, afinal ele pode ser mais um drama (ou dramédia) do que um romance. Mas para mim, existe algo inegavelmente romântico nessa atração que surge espontaneamente aqui, e que não precisa necessariamente se encaixar numa categoria mais obviamente amorosa.

 

Obs. Anna Faris rouba a cena se divertindo ao interpretar o estereótipo da atriz americana loira e superficial (num paralelo engraçado com sua personagem Cindy, em Todo Mundo em Pânico).

 

Amor à Flor da Pele (2000)

Tão restritivas quanto as paredes apertadas do prédio onde vivem o Sr. Chow e a Sra. Chan são as normas sociais que os impedem de concretizar os seus sentimentos um pelo outro.

Mergulhados no verde e vermelho intensos do filme, os dois se esforçam para driblar os rumores de infidelidade de ambos os seus cônjuges, enquanto se recusam a ser como eles… e ainda assim, o amor floresce.

 

Inevitavelmente, o desejo surge, indiferente à impossibilidade de ser exercido… e a companhia que ambos desfrutavam, no início, como algo apenas agradável, se torna essencial. Se torna o segredo mais contagiante do mundo, tão eternizado para esses amantes que não se tocam quanto as ruínas atemporais no Camboja, que escutam esse segredo sendo sussurrado no final da história, prontas para o acolher durante toda a eternidade.

 

Wong Kar-Wai faz um filme bem mais atmosférico do que didático, com o tempo passando sem uma marcação muito definida. Dias vem e vão e a vida parece se entrincheirar nos pequenos detalhes suportáveis da existência: uma conversa, um café, um cigarro (que não é a minha praia, mas como o cinema faz ele ser bonito!). E no centro disso, Tony Leung e Maggie Cheung alcançam o ápice da atuação sutil. Insisto que muito da beleza do filme acontece num modo meio “piscou, perdeu”, porque a narrativa de Amor à Flor da Pele exige uma entrega voluntária a um certo transe hipnótico que emana do filme… mas isso é algo plenamente recompensado, eu garanto! 

 

Antes do Pôr do Sol (2004)

Não é lindo quando Celine diz que se acha meio “quebrada”, por não conseguir seguir em frente como a maioria das pessoas? Cá estamos, num mundo que trata tudo como efêmero e descartável, e a Trilogia do Antes, de Richard Linklater, insiste em dizer que existem conexões tão especiais que elas nunca nos deixam.

 

Pra mim, essa é a essência desses filmes — no primeiro, de um jeito ingênuo e jovial; no segundo, através da atração irresistível que contorna as circunstâncias da vida adulta; e no terceiro, com a crueza e honestidade tortuosa da realidade inevitável, ainda que sobre espaço para um otimismo tardio.

 

Mas nesse segundo, Jesse e Celine são o destino encarnado, capturado numa tarde encantadora onde o tempo parece, simultaneamente, passar voando mas também parar por completo. Lá estão eles, debatendo deliciosamente sobre amor, sexo, Deus, reencarnação e se existe ou não magia nesse mundo… enquanto a magia, ironicamente, se manifesta plenamente nesse encontro de amantes que foram e que ainda serão.

 

E convenhamos, Julie Delpy tocando violão deve ser a melhor cena de preliminares de todo o cinema.

 

La La Land (2016)

Estou bem cansado de fingir que, todas as vezes em que assisto a esse filme, ele não é o melhor filme já feito na história da humanidade. La La Land tem a sua cota generosa de haters, mas como ele fala diretamente comigo! O ritmo enérgico e delicioso que move a trama adiante, as cores vivas que compõem uma Los Angeles quase real que vai se tornando mais fantasiosa, o viés assumido do diretor em debochar, com bom humor, daqueles que debocham do cinema, da arte e do olhar sensível que adoça a vida. 

 

Damien Chazelle entrega, aqui, uma obra muito mais ambiciosa que o seu ótimo filme anterior, Whiplash, porque ela se permite ser engraçada, cafona, sentimental e vibrante — homenageando diversos musicais anteriores mas emergindo como algo próprio ao falar sobre o atrito entre sonho e realidade, entre surrealismo e pragmatismo, entre o caminho hipotético e aquele que, de fato, trilhamos.

 

E ok… a trama escolhida para dizer isso passa por aquela auto-adulação hollywoodiana e até por uma liberdade de abandonar os percalços dos personagens e entregar o sucesso que eles vinham procurando, por mais improvável que isso seja. Mas o filme não é sobre ser atriz ou ser musicista. Ele é sobre como a vida nos leva para direções diferentes, exigindo que deixemos pessoas importantes para trás… mas construindo toda uma homenagem ao quão significativas elas foram, para nós.

 

E isso através de um formalismo apaixonante. Cada cena, cada gesto dos atores. Cada vez em que Ryan Gosling se assusta com algo e faz aquela cara de sério tentando manter a pose, cada vez em que Emma Stone usa os seus imensos olhos azuis para misturar a inocência otimista do sonho com a amargura realista da desilusão, ora rindo de si mesma, ora chorando internamente. Isso sem falar na trilha sonora de Justin Hurwitz, cujas melodias (e letras, o que é um feito e tanto para mim) eu sei de cor do começo ao final do filme…

 

E que final!

 

Aquele delírio momentâneo que tenta materializar toda uma vida que jamais será, porque às vezes a vida é assim mesmo. O final de cinema não é o que acontece, e tudo bem! Mas alguns minutos de imaginação podem nos mostrar a beleza dolorosa do que poderia ter sido, sem apagar a beleza concreta do que é. Quando Mia e Sebastian se olham, depois desse sonho em conjunto, não fica dúvida alguma de que a conexão entre eles foi real, é real, e será pelo resto de suas vidas.

 

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