A Noiva da Ferrovia
SuspenseJohn não tinha uma boa noite de sono havia mais de três semanas. Desde aquele fatídico dia, quando decidiu ignorar os alertas e se aventurou por uma das trilhas mais perigosas do estado de São Paulo, ele acordava todas as madrugadas, de súbito, com o mesmo sussurro seco e obstinado no ouvido:
— Aceito.
Nesta última vez, assim que a fraca voz feminina penetrou seu canal auditivo, John deu um pulo desajeitado na cama, que fez suas costelas doerem. A dor aguda, seguida pela repentina falta de ar, deu-lhe a sensação de que talvez estivesse prestes a morrer. Seu desconforto era tanto que, por alguns segundos, desejou que isso fosse verdade. Mas suas pupilas logo se acostumaram ao breu que envolvia o quarto, e as silhuetas dos objetos que o rodeavam foram, aos poucos, tomando forma.
O grande problema é que, além da privação de sono, que passara a fazer parte de sua rotina, uma das silhuetas no escuro não era a de uma cadeira ou escrivaninha, mas a de uma pessoa, que permanecia ereta ao seu lado. Naquela noite, pela primeira vez, a figura saiu de sua posição de vigilância e curvou-se próxima ao corpo de John, acariciando suavemente seu tórax. Enquanto esse movimento inesperado acontecia, John mal conseguia se mover. Sua respiração restringiu-se, como se, por instinto, quisesse se esconder da entidade, contendo o próprio fôlego para que seu corpo fosse dado como ausente. Mas de nada adiantava. Os dedos frios e pegajosos da entidade acariciavam-no com a suavidade de uma borboleta, produzindo-lhe um arrepio desconfortável que irradiava por toda a extensão de sua espinha, enquanto finas e geladas gotas de suor irrompiam de sua têmpora. O carinho seguiu em movimento perpétuo até as primeiras horas da manhã, quando John finalmente conseguiu pregar os olhos. Depois de meros cinco minutos de sono, o despertador ressoou estridente em seu ouvido.
Três semanas antes
John revirava os bolsos inferiores de sua mochila cargueira, enquanto seu cão, Elvis, farejava todos os movimentos do tutor. Assim que John encontrou o pacote de biscoitos que procurava, jogou-o para longe, levando o cão a sair em disparada. John, então, debruçou-se sobre um grande mapa. Eram seis horas da manhã de uma quarta-feira nublada e pouco convidativa, e a única barraquinha de comércio das redondezas, na entrada da Vila de Paranapiacaba, ainda estava fechada. Concentrado, ele traçou um percurso com uma caneta Bic em uma área que parecia tomada por vegetação. Alguns minutos depois, as luzes externas do comércio se acenderam, e um senhor sonolento e muito enrugado começou a organizar as placas de produtos da roça em frente à sua humilde loja. Ele estranhou a presença de John e seu cachorro e logo se aproximou, cumprimentando-o:
— Dia…
John saiu do transe e respondeu educadamente:
— Bom dia.
O comerciante percebeu o sotaque de John e logo emendou:
— Gringo? Fala português?
John riu, como se tivesse de responder a essa pergunta com mais frequência do que gostaria.
— Falo, sim… dois anos em Brasil já.
O senhor tomou a liberdade de se aproximar mais um pouco, olhando para o mapa e dando continuidade à conversa. Corrigiu-o:
— “No Brasil”, o senhor quis dizer.
John assentiu, sem contra-argumentar ou dar mais abertura ao interlocutor. O comerciante balançou a cabeça negativamente ao perceber o percurso que John pretendia seguir:
— Travessia do Funicular, é? Se eu fosse o senhor, não pegava esse caminho doido aí, não.
Com ar um tanto arrogante e impaciente, John retrucou:
— Com todo respeito ao senhor… eu sei o que estou fazendo.
O comerciante encarou John de soslaio, alternando seu olhar entre o rosto do aventureiro e o mapa que ele tinha nas mãos. Abriu um sorriso discreto e malicioso.
— Se o gringo falou… tá falado, né? Mas vê se toma cuidado, seu moço. Já vi homem maior que o senhor se perder aí nessa mata.
John assobiou alto, interrompendo o comerciante. Elvis veio correndo em direção a ele, que prontamente se levantou, dobrou o mapa e ajeitou a mochila nas costas, afastando-se a passos largos e respondendo ao comerciante uma última frase em voz alta, para que este não tivesse chance de prolongar a conversa:
— Experiência vem antes do tamanho, amigo!
Sem insistir, o comerciante começou a voltar para sua loja de produtos da roça, mas, inquieto, acabou interrompendo o passo e virou-se para um último conselho, que gritou de forma audível para que chegasse aos ouvidos de John antes que pudesse adentrar a mata densa da Serra do Mar:
— Ô gringo! Vê se toma cuidado com a noiva da ferrovia, viu? Se o senhor olhar ela no olho… é a última coisa que o senhor vai ver nesse plano. Tá ouvindo?!
John ignorou o alerta e seguiu mata adentro. Elvis correu junto dele, mantendo-se sempre alguns passos à frente do tutor.
O aventureiro, de fato, não era um amador. Logo no primeiro quilômetro de caminhada, desenrolou um amontoado de couro que estava amarrado rente à mochila, revelando um enorme facão. Com investidas certeiras, foi abrindo caminho e retirando a vegetação que insistia em repelir o forasteiro, que rumava adiante, sem hesitação ou passos frágeis. O corpo de John, imponente em estatura e massa, não deixava dúvidas de que aquela não era sua primeira experiência em um terreno hostil. Avançava rápido e sem pausas, quase na mesma velocidade de seu pequeno companheiro canino.
Passadas algumas horas de uma caminhada que seria considerada intensa e desafiadora até pelos trilheiros mais experientes, John finalmente chegou a um trecho relativamente tranquilo. Elvis saiu em disparada e John, por sua vez, escolheu este momento para desacelerar o passo e caminhar sobre um solo que, embora acidentado, definitivamente era fruto de intervenção humana. Ele sabia, então, que estava prestes a chegar a uma das partes mais desafiadoras de seu trajeto: a ponte da Grota Funda — um esqueleto enferrujado suspenso sobre o vazio, cujas vigas, corroídas pela ação do tempo, jaziam esquecidas havia anos.
A estrutura era remanescente de uma era em que locomotivas cortavam a Serra do Mar levando café e carvão até o porto de Santos. Construída em meados do século XIX, trechos da ferrovia permaneceram intactos ao longo de todos esses anos e, atualmente, eram destino de turistas e aventureiros interessados em percursos desafiadores e particularmente complicados — muito embora as autoridades de Santo André, município que abriga a Vila de Paranapiacaba, realizassem inúmeras campanhas contrárias à exploração turística daquele trecho. Isso porque a imprevisibilidade das pontes da trilha, sobretudo a Grota Funda, oferecia riscos significativos para quem insistisse em atravessá-las, como a queda livre de mais de 60 metros que havia no percurso entre uma extremidade e outra.
John se aproximou do túnel que antecedia a ponte. Elvis já havia alcançado o outro lado e chamava insistentemente pelo tutor. Seus latidos ecoavam, mas o breu intenso tornava difícil para John localizá-lo. Assim que entrou, a temperatura despencou para algo próximo a um inverno glacial. Seu primeiro impulso foi revirar a grande mochila em busca de um moletom que o aquecesse.
O latido de Elvis cessou por alguns instantes, e uma estranha sensação de estar sendo observado tomou conta de John. Ele aproveitou para sacar uma pequena lanterna e, sob o fraco feixe de luz, observou os arredores. Não encontrou nada além da estrutura circular enferrujada que sustentava o túnel e dos trilhos corroídos da estrada de ferro abandonada.
Decidiu prosseguir em direção ao seu destino. Em determinado momento, um súbito calafrio percorreu sua espinha. Parou, prendendo a respiração, e aguçou a audição em busca de algum ruído que justificasse o desconforto que o dominava. Foi então que ouviu passos sobre os cascalhos que cobriam o chão. Apontou a lanterna com urgência para os lados, mas não havia ninguém além dele no túnel.
O alerta foi suficiente para que John começasse a correr em direção à ponte, onde Elvis o aguardava. Sentiu um grande peso sair de suas costas ao conseguir se aproximar da luz do dia e precisou de alguns momentos para recuperar o fôlego, que vacilava pela primeira vez depois de quase 8 km percorridos.
Alguns metros à frente, finalmente avistou a ponte da Grota Funda, um fantasma de tempos passados, cuja frágil estrutura dava a John, paradoxalmente, uma intensa vontade de percorrê-la. Ele sabia que, para isso, a primeira coisa que teria de fazer seria prender seu cachorro junto ao corpo, para que pudessem fazer a travessia em segurança juntos. Em viagens passadas, isto nunca havia sido um problema. Por Elvis ser um vira-lata de pequeno porte, devidamente adestrado e habituado ao estilo de vida do tutor, este procedimento não costumava durar mais que alguns poucos minutos. Mas dessa vez foi diferente.
Toda vez que John se curvava em direção a Elvis, era recebido com um rosnado hostil. O tutor pôs em prática algumas táticas antigas de adestramento para tentar domá-lo, mas de nada adiantou. O cachorro estava inquieto e visivelmente incomodado com o percurso que teriam de rumar logo adiante. Ríspido e arisco, ele latia próximo ao rosto de John e ameaçava mordê-lo pela primeira vez desde que havia sido adotado.
Frustrado, John tirou da mochila duas cumbucas, nas quais depositou um pouco de água e comida.
— Bom, o papai já volta… promete que vai ficar aqui e se comportar?
Elvis substituiu o rosnado por um choro de súplica ao tutor. John balançou os cordões de suporte que sustentariam Elvis em seu corpo.
— …a menos que você tenha mudado de ideia. Vai comigo?
Ainda chorando e olhando fixamente para o tutor, Elvis começou a recuar seu pequeno corpo, recusando a mera possibilidade de acompanhá-lo.
John deu de ombros e seguiu adiante. O plano era cruzar a ponte e continuar a trilha até o litoral, mas, neste caso, conformou-se em poder, pelo menos, atravessar o percurso mais desafiador da trilha. Com um impressionante domínio de seus movimentos, John avançou pelos densos trilhos de ferro, tomando um cuidado especial com as toras de madeira, que tinham um aspecto realmente precário e pareciam ser os elementos mais frágeis e traiçoeiros daquele caminho. Enquanto caminhava, John admirava o penhasco logo abaixo de si, cheio de árvores e com um córrego que lhe parecia um discreto filete de água corrente devido à distância entre ele e o solo. Eram quase 10h da manhã, mas o dia nublado dava ao aventureiro a impressão de que a noite estava próxima. Em certos momentos, teve de interromper a caminhada por conta de uma densa neblina que se formou sobre a ponte. Mas, dadas todas as dificuldades, ele estava feliz e satisfeito por ter a chance de riscar mais um desafio de sua lista pessoal.
A neblina dissipou-se quase ao mesmo tempo da chegada de John ao outro lado. Ele respirou fundo e observou a paisagem a seu redor, reflexivo. Mas seu momento de contemplação logo foi interrompido pelo latido nervoso e distante de Elvis. Ao virar-se para tentar avistar o cão do outro lado, John viu, logo na entrada do túnel, a figura de uma mulher vestida de branco, ereta, que parecia olhar fixamente para ele. Elvis latia sem parar, ora ameaçando atacá-la, ora recuando o pequeno corpo em reflexo de defesa. John estranhou e gritou:
— Ei! Quem é?
A mulher continuou observando-o, estática. Depois de um breve momento, virou as costas e começou a andar em direção ao túnel. Elvis, por impulso, foi correndo atrás dela. John desesperou-se:
— Elvis, não! Volta!
Imediatamente, John começou a voltar pela ponte. Por mais que seu equilíbrio e destreza estivessem a seu favor, o desespero fez com que se descuidasse em mais de um ponto crítico. Em uma das últimas cavidades, ele pisou em falso em um pedaço podre de madeira e torceu o pé. Mesmo com a dor súbita do que poderia ser o rompimento de um ligamento, ele continuou a passos firmes em direção ao túnel.
— Elvis!
A essa altura, o latido do cachorro ecoava pelo corredor do túnel, mas parecia distante e inalcançável.
John chegou ao outro lado mancando, mas não titubeou nem por um segundo. Sacou a lanterna e adentrou o túnel em breu à procura de seu cachorro.
— …Elvis?
O latido do cão havia cessado. Ele ouvia um choro bem baixinho, mas o eco tornava impossível identificar a direção do som. O fraco feixe de luz cobria um perímetro limitado, e até então não havia sido possível identificar nada além de cascalhos e restos de lixo deixados para trás por turistas. Um pouco mais adiante, finalmente encontrou Elvis virado de costas, tremendo, com o rabo entre as pernas. John cochichou:
— Elvis… vem aqui, garoto!
Mal ele terminou de falar, o cão saiu correndo em disparada para trás do tutor. O reflexo de John fez com que ele virasse bruscamente. Em vez dos cascalhos habituais, o feixe de luz revelou uma figura feminina a pouquíssimos centímetros dele. Estava imóvel e ereta, com um vestido de noiva branco e longo, que brilhou ao encontro da luz.
John deu um grito e pulou para trás, torcendo o pé pela segunda vez. Mesmo com a dor lancinante dominando seus membros inferiores, ele continuou apontando a luz em direção à mulher, que fixou um olhar profundo nos olhos dele. Os demais traços de seu rosto estavam todos desfigurados: espinhos saíam de suas bochechas, o nariz era inexistente e, em seu lugar, havia apenas as cavidades que um dia foram o canal olfativo. Sangue vermelho vivo escorria de todas essas cavidades e, mesmo nesse estado, ela exibia um sorriso leve e sereno.
Sem se mover, John pôde ouvir, pela primeira vez, o sussurro obstinado da noiva da ferrovia:
— Aceito.
Ele desmaiou logo em seguida, mergulhando no breu de sua própria consciência.
John acordou assustado e inquieto. Seu grito de horror assustou Damião, o senhor da loja de artigos da roça, que veio correndo socorrer o aventureiro ferido.
— Calma, gringo! Tá tudo bem, o senhor tá seguro. Respira e se acalma… toma esse chá, toma.
Damião levou uma caneca às mãos de John, que ainda estava ofegante e visivelmente abalado. Aos poucos, o aventureiro foi recuperando o fôlego e percebeu estar numa cama de um quarto simples, porém quente e confortável. Seu tornozelo doía, mas o comerciante havia feito um curativo improvisado que aliviara sua dor. Damião sentou-se ao lado da cama, balançando a cabeça negativamente, reflexivo.
— O senhor olhou pra ela, né?
Desorientado, John assentiu pela primeira vez.
— O que era aquilo?
— Eu disse pro senhor… é a noiva da ferrovia.
John engoliu seco enquanto Damião pensava em como se expressar.
— O senhor é de onde mesmo?
— País de Gales…
Damião fechou os olhos e esboçou um sorriso melancólico.
— É, ela deve ter confundido o senhor com o noivo… agora, só Deus sabe.
Indignado, John perguntou:
— “Só Deus sabe” o quê? O que é que você quis dizer com isso?
— Essa moça, coitada… o espírito dela vaga aqui por Paranapiacaba sabe lá Deus há quanto tempo. Diz a lenda que o noivo não apareceu no dia do casamento. Ele era um engenheiro inglês que acabou se acidentando lá no trecho da Grota Funda, enquanto supervisionava o trabalho dos operários. Foi uma morte feia… quando ela chegou lá e deu de cara com o homem morto, a pobre coitada não aguentou a dor e pulou da ponte. E agora, ela vaga por aí como quem esqueceu o que procurava.
O coração de John batia com força, e um calafrio desconfortável percorreu-lhe a espinha. Ele se aproximou do comerciante e agarrou seus dois braços bruscamente:
— Isso é uma loucura! Não é possível. Como eu faço para afastar essa coisa?!
Damião se desvencilhou das mãos fortes de John. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.
— Nisso eu não vou poder ajudar… acho que só o tempo vai dizer. Mas, se eu fosse o senhor, saía dessa cidade antes do anoitecer.
John olhou para o relógio e viu que eram quase 17h. Mancou desajeitado pelo pequeno quarto, recolheu seus pertences e saiu rápido da casa de Damião, que ficava nos fundos da loja de produtos da roça. Assobiou alto para que Elvis viesse ao seu encontro, mas seu pequeno companheiro canino não apareceu. Assobiou de novo e gritou seu nome. Nada.
Damião veio andando atrás dele e John, descontrolado, puxou-o pelo colarinho:
— Cadê meu cachorro?!
— Quê isso! Não sei de cachorro nenhum, o senhor tava sozinho quando eu te achei jogado na estrada!
— Estrada? Eu estava no túnel. Meu cachorro… Elvis…
Cambaleando, John correu para a frente do comércio de Damião e encarou a imensidão de mata fechada da Serra do Mar, na qual se aventurara horas mais cedo. Sua respiração estava pesada e ele olhou em volta, gritando pelo nome de Elvis. Já começava a escurecer, e ele sabia que precisava sair logo dali. Hesitou por alguns instantes, depois olhou para o relógio, preocupado. Acabou entrando em sua caminhonete e foi embora, sem falar com Damião novamente.
Três semanas depois
As olheiras de John eram profundas. Todos os amigos que haviam cruzado com ele ao longo das últimas semanas demonstraram preocupação com seu estado mental e humor arredio. Sabiam que o cachorro de John havia sido deixado para trás durante a última trilha, e que, embora ele não falasse sobre o assunto, provavelmente acontecera alguma tragédia que tirara a vida de Elvis.
Neste momento, John estava estático, dentro de sua caminhonete, no mesmo ponto onde, três semanas antes, iniciara a trilha que o levara ao encontro da entidade que lhe acompanhava todas as noites desde então. Essa parte, inclusive, também foi omitida por John quando questionado por seus amigos. Só ele sabia o que andava acontecendo. Só ele era atormentado pelo espírito da mulher que via, em John, a figura do noivo que perdera a vida na ponte da Grota Funda anos atrás.
No primeiro dia, John foi embora de Paranapiacaba com um sentimento horrível de que havia abandonado seu melhor amigo. Sentia-se a pior pessoa do mundo. Sabia, também, que, mesmo que quisesse, jamais seria capaz de ir atrás de Elvis com o tornozelo torcido. Por isso, mesmo com um gosto amargo impregnado na boca e uma sensação de ânsia que o acompanhava vinte e quatro horas por dia, todos os dias, ele fez o que precisava fazer: passou por especialistas, fez sessões de fisioterapia e prometeu a si mesmo que voltaria para buscar seu cachorro.
Antes de sair da caminhonete naquela manhã, três semanas depois do incidente, tinha total consciência dos riscos que assumiria voltando ao local onde tudo começou. Mas nada poderia ser tão degradante quanto as noites de sono perdidas, os sustos constantes e a companhia insistente da noiva da ferrovia, que o seguia onde quer que fosse.
Em todos aqueles dias, John não deixou de enxergar a noiva por um momento sequer. Ela instalou-se em seu campo periférico de visão, sempre à espreita, aguardando o momento em que seu sono chegasse. E, quando ele finalmente cedia à exaustão e pregava os olhos, aquele sussurro gélido o fazia despertar na mesma hora:
— Aceito.
E toda vez que arregalava os olhos, lá estava ela, com os olhos colados nos dele, o sorriso melancólico nos lábios deformados, o sangue gotejando por perto e um aroma de crisântemos que invadia as narinas de John, revirando-lhe o estômago e fazendo com que vomitasse todo e qualquer alimento consumido naquele dia.
Mesmo ali, no carro, ele ainda via, pelo canto do olho, a silhueta branca da noiva da ferrovia, habitando o banco do passageiro, imóvel e em silêncio.
Ele saiu, então, e caminhou em direção à mata. Com o auxílio do facão e do mapa, fez o mesmo percurso realizado semanas antes. Um pouco mais devagar, devido aos ferimentos dos quais ainda se recuperava, mas com a mesma força obstinada da primeira viagem. Seu olhar vago sugeria um comportamento quase robótico, como se soubesse exatamente o que o aguardava.
Ao chegar ao túnel, não recorreu à lanterna. Apenas caminhou, decidido, em direção ao breu silencioso.
Chegando do outro lado, ouviu um gemido contente, que logo reconheceu. Era Elvis. Mas nem aquilo o despertou do transe de exaustão ao qual se entregara. Avistou o pequeno cão, que brincava entre os densos trilhos e madeiras podres da ponte da Grota Funda. Ao vê-lo, Elvis não saiu do lugar, mas começou a latir insistentemente, como se pedisse ao dono para buscá-lo. John abriu um sorriso melancólico e seus olhos marejaram. Ele continuou seu caminho em direção à ponte. Poucos passos depois, foi abraçado por uma densa neblina e, finalmente, rendeu-se à queda.
Lá embaixo, as águas do riacho, antes vistas como meros filetes, agora banhavam o corpo debilitado de John. Enquanto o sangue inundava seus pulmões, seu olhar encontrou o da noiva da ferrovia, que naquele momento estava a poucos centímetros de seu rosto. Ela o encarava com o mesmo sorriso brando nos lábios deformados, como se esperasse uma resposta. Mesmo com grande dificuldade, John ainda foi capaz de sussurrar uma última palavra antes de morrer:
— Aceito.




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