Os melhores filmes que conheci em 2025

Críticas Gerais

Decidi encerrar o meu ano aqui no Peliplat fazendo aquilo que muitas pessoas já fazem, e que, pra mim, é um caminho quase inevitável a cada fim de ciclo: montar uma lista de melhores filmes do ano. Mas, dessa vez, resolvi fazer um pouco diferente. Em vez de elencar os melhores lançamentos de 2025, optei por reunir títulos que já estavam no meu radar há algum tempo, mas que, por razões diversas, acabei assistindo só agora. 

São filmes de épocas, gêneros e tons muito distintos, que não necessariamente conversam entre si, mas que acabaram se revelando algumas das melhores pérolas com as quais me deparei ao longo desses meses. Todos eles foram especiais à sua maneira, porque reacenderam (ou reafirmaram, na verdade) a minha paixão pelo cinema. Paixão esta que nunca esteve realmente apagada, mas que constantemente me lembra por que considero a sétima arte a primeira da minha lista pessoal.

Então, vamos a eles.

Goodbye Dragon Inn (2003)

Em um tempo em que estamos acostumados a conteúdos rápidos, intenções explícitas e diálogos que explicam absolutamente tudo, é um prazer raro encontrar um filme tão bem-sucedido na arte de contar histórias quase sem depender de falas. Um filme que dá espaço para que seus personagens simplesmente existam, caminhem e observem, como se a câmera fosse apenas um objeto inanimado, sem pressa e sem a necessidade de se impor como algo especialmente importante.

“Goodbye Dragon Inn” é exatamente esse tipo de filme. Depois de muito tempo querendo assisti-lo, finalmente encontrei uma versão em 4K perdida nos confins da internet. E, caramba, que experiência incrível. É justamente na simplicidade de seu desenrolar que residem suas maiores qualidades. Trata-se de um exemplar do que chamamos de “slice of life” (trecho de vida), em que não acompanhamos um único protagonista, mas fragmentos de situações nas vidas de pessoas que compartilham o mesmo espaço: um cinema de rua decadente, o Dragon Inn, em sua última sessão.

O que mais me impressionou foi como o filme consegue ser, ao mesmo tempo, uma ode profunda à cinefilia e um retrato melancólico do tempo que passa, sem nunca se tornar pesado ou solene demais. Pelo contrário. Existe ali um humor muito específico, quase pantomímico em alguns momentos, que confere ao filme um lugar de afeto e respeito genuíno pela experiência coletiva de assistir a um filme. Se tiver a oportunidade, minha dica é: pare o que estiver fazendo, desligue o celular e deixe-se levar pelos “fantasmas” que habitam o Dragon Inn.

Queer (2024)

Assisti a “Queer” no cinema sem saber praticamente nada sobre o que me aguardava. E, curiosamente, algumas das minhas melhores experiências cinematográficas de 2025 nasceram exatamente desse tipo de acaso. Sessões nas quais eu não estava planejando entrar, vi que começariam em poucos minutos e simplesmente me enfiei na sala, entregue à minha própria sorte.

No fim das contas, “Queer” foi um dos filmes que mais me encantaram neste ano. Saí da sessão com aquela vontade de comprar outro ingresso e assistir tudo de novo imediatamente, algo que só não fiz porque se tratava de uma sessão especial, já que o filme havia estreado nos cinemas no ano anterior e voltou a ser exibido excepcionalmente naquela noite.

Além da entrega sempre impecável de Daniel Craig, o filme carrega uma estranheza constante e um senso de imprevisibilidade que se mantém do início ao fim. Visualmente, é um filme sedutor, com cenários que parecem deliberadamente artificiais, lembrando a Las Vegas construída em estúdio por Coppola em “O Fundo do Coração” (1981). Mas essa artificialidade não distancia. Ao contrário, intensifica as emoções.

A intensidade dos personagens — seus afetos, obsessões, silêncios e ações nunca totalmente concretizadas — transborda na tela e cria uma experiência quase sufocante, como se estivéssemos observando uma panela de pressão prestes a explodir. Há uma melancolia intrínseca na forma como esses personagens se comunicam e percebem sua própria existência no mundo, e talvez tenha sido justamente isso que fez com que “Queer” grudasse na minha memória e entrasse com tanta naturalidade nesta lista.

Drácula de Bram Stoker (1992)

Sim, eu sei: é quase um absurdo nunca ter assistido a um dos filmes mais reprisados na TNT nos anos 2000. Eu até já havia visto trechos aqui e ali, justamente nessas exibições na televisão, mas lembro que, na adolescência, achei o filme um porre e desisti antes mesmo de a história engrenar de verdade.

Avançamos para 2025 e, logo no início do ano, estreou nos cinemas o “Nosferatu”, de Robert Eggers, filme que eu estava muito ansioso para ver e que merece, inclusive, uma menção honrosa aqui. Achei tudo visualmente belíssimo, com direito a Lily-Rose Depp em um transe histérico que me lembrou bastante Isabelle Adjani em “Possessão”, de Andrzej Zulawski, um espetáculo.

Mas o fato é que, ao sair da sessão com alguns amigos, ouvi de todos algo muito parecido: “é bonito, bem feito, ótimas atuações, mas nada que o Francis Ford Coppola já não tenha feito em ‘Drácula de Bram Stoker’”. Foi aí que me caiu a ficha de que eu realmente nunca tinha visto o filme inteiro. Conhecia os beats da história pelo livro e por adaptações anteriores, como a de Murnau, mas faltava esse encontro. E, caramba, como eu gostei do filme do Coppola.

É claro que ele carrega uma estética muito própria dos anos 90, mas é tão consciente de suas escolhas que não resta outra coisa a fazer além de aplaudir. O figurino, por si só, é um espetáculo à parte, e só depois de assistir descobri que ele foi assinado pela designer japonesa Eiko Ishioka, trabalho que lhe rendeu um Oscar. As cores marcantes, os detalhes que expressam a psicologia de cada personagem e, sobretudo, a icônica armadura de Drácula antes de sua transformação — com linhas que remetem à anatomia de um corpo sem pele e a algo similar a um inseto — saltam da tela e conferem ao filme uma complexidade visual impressionante.

Por essas e outras, “Drácula de Bram Stoker” entrou sem esforço algum na minha lista de melhores do ano.

TÁR (2022)

“TÁR” foi outro filme que permaneceu por muito tempo no meu radar e que só agora, em 2025, finalmente assisti. Além de considerar uma das melhores atuações da carreira de Cate Blanchett — ficando atrás apenas de “Blue Jasmine”, que ocupa o topo absoluto da minha lista pessoal —, fiquei genuinamente impressionado com o nível de detalhamento na construção dessa personagem.

O que inicialmente se apresenta como um drama biográfico revela-se, na verdade, a história de uma personagem completamente fictícia, construída com um grau de verossimilhança impressionante. A minúcia do trabalho dramático, aliada à progressão cuidadosa dos acontecimentos, fez com que eu incluísse “TÁR” na minha lista pessoal de melhores filmes de todos os tempos, talvez ali em algum lugar entre os cem primeiros.

A forma como o filme se desenrola sem pressa, respeitando seu próprio tempo, até culminar em uma conclusão genial, o torna uma obra singular. Já cheguei a cogitar escrever um artigo inteiro aqui no Peliplat dedicado exclusivamente à cena final do filme, que considero uma das mais inventivas e memoráveis que já vi, mas acabei desistindo por achar uma certa crueldade com quem ainda não teve a chance de assistir, mesmo com aviso de spoiler.

Marcas da Violência (2005)

Apesar de sempre ter admirado muito o trabalho do David Cronenberg, confesso que minha atenção esteve por muito tempo mais voltada aos seus filmes de body horror, como “A Mosca” e “Videodrome”, que estão, inclusive, entre meus favoritos de todos os tempos. Por isso, acabei deixando “Marcas da Violência” um pouco de lado.

Assistindo ao filme este ano, percebi que, embora ele não seja um terror propriamente dito e esteja mais próximo de um thriller, sua atmosfera carrega com força várias das melhores qualidades do cinema de Cronenberg. O ritmo, a forma como o filme revela intenções aos poucos e oculta informações de maneira proposital, além da presença perturbadora de Ed Harris como o antagonista Carl Fogarty, fazem com que o horror esteja sempre ali, latente, mesmo quando não é explícito.

A história é excelente e muito bem executada, o que transformou a experiência em uma grata surpresa. Comecei a assistir sem grandes expectativas e terminei convencido de que se tratava de um dos melhores filmes que vi no ano.

Sideways (2004)

“Sideways” é mais um daqueles filmes que eu demorei anos para assistir. Talvez porque, quando foi lançado, eu ainda era criança e ele ficou marcado na minha memória como um “filme antiquado de gente velha”. Hoje, conforme vou envelhecendo, percebo que é justamente esse tipo de filme que mais me interessa.

Descobri, inclusive, que a venda de Merlot sofreu uma queda significativa após o lançamento do filme, muito influenciada pelo desprezo quase militante do personagem Miles pela uva, um detalhe curioso que diz muito sobre o impacto cultural da obra. O filme também despertou em mim uma vontade inesperada de percorrer a Califórnia fazendo a mesma rota dos personagens, mesmo eu nunca tendo tido um grande desejo de visitar os Estados Unidos.

“Sideways” é um filme de conforto, com uma atmosfera ensolarada e um ritmo muito próprio, que parece encapsular a essência de sua época de uma forma delicada e honesta. Justamente por isso, ele envelheceu bem e se tornou uma ótima pedida para os dias de hoje.

Se você ainda não assistiu a algum desses filmes, recomendo fortemente que vá atrás. Mas também te encorajo a fazer um exercício parecido: revisitar mentalmente todos aqueles filmes e séries que você deixou para depois, ou que sente que não deu a devida atenção quando teve chance. Faça uma lista pessoal com eles e tente assisti-los ao longo de 2026. A sensação de “redescoberta” (ou, às vezes, de descoberta tardia) é incrivelmente gratificante.

Com essa sugestão, encerro meu ano por aqui, muito feliz por ter tido a oportunidade de compartilhar com vocês um pouco do meu repertório e das obras que fazem meus olhos brilharem. A todos que leram, comentaram e se sentiram representados pelo que eu trouxe nos meus textos ao longo do ano, deixo meu sincero agradecimento. 

Que 2026 seja um ano de excelentes novas jornadas e descobertas pelo vasto universo do cinema e das séries.

Feliz Ano Novo, Peliplaters! E até logo.

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