56 anos de Nolan | Dentro do Inception no Nolanverso

Críticas Gerais

Uma pergunta que todos já receberam em algum momento da vida é, certamente, sobre qual é seu filme favorito. Pode trocar ‘filme’ por música, por banda, por cor, por comida, por qualquer coisa, inclusive por diretor. Em alguns casos, algumas pessoas respondem de prontidão tais indagações. No meu caso é um pouco diferente - creio que não sou o único. Fico extremamente em dúvida a cada vez que me apaixono por novos cineastas.

 

Há alguns meses, fiz um artigo com um ranking de todos os filmes do Tarantinoverso que já deu um nó na cabeça. Afirmo aqui que o mais fácil mesmo é listar alguns diretores, mas sem rankeá-los, porque aí a coisa complica sempre. Só não posso negar uma coisa: que é divertido, isso é. Então aqui vai mais um artigo com ranking do pior para o melhor da filmografia de diretores. Dessa vez, o aniversariante do dia (30/07), Christopher Nolan, até porque o homem voltou com tudo com o novo “A Odisseia”.

Se me perguntassem qual era meu diretor favorito quando estava apaixonado por “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas” (e, consequentemente, dando meus primeiros passos na descoberta de uma nova safra de filmes fora do mundinho DC/Marvel, já que, até então, eu só era um mini adorador de super-heróis dos anos 2000 - comentei sobre isso aqui), cravaria que meu diretor favorito era o Christopher Nolan. Por um tempinho ficava entre Nolan e Sam Raimi. Mas a presença do Nolan era mais forte, pois lembro bem quando “A Origem” foi lançado, crescendo em mim a minha vontade de zerar a filmografia do diretor e acompanhar o seu trabalho futuramente a cada novo lançamento.

Quanto Christopher Nolan, vencedor do Oscar, ganhou com “Oppenheimer”?

Com o tempo, fui conhecendo suas referências, fui desencanando de seus maneirismos, fui questionando suas repetições, fui criando outros gostos, enfim, desenvolvendo uma crítica mais particular. Até que comecei a apreciar certas obras do diretor, mas não venerar tudo que ele lançava. Até então, normal. A ordem natural das coisas é essa mesmo. O ponto é que parte disso acabou, inclusive, prejudicando minha experiência com alguns lançamentos dos anos 2010. Talvez por esperar demais do meu primeiro diretor favorito, talvez por desenvolver novos gostos, por gostar de outro tipo de fotografia, por rejeitar um pouco o tal do neorrealismo, não importa o motivo. Nolan acabou me decepcionando algumas vezes. Não consigo embarcar completamente em “Interestelar”, “Dunkirk” ou “Tenet”, por exemplo. Principalmente este último, na verdade. Minha confiança no cineasta havia se esgotado um pouco - questão meramente particular (não estou discutindo a qualidade técnica das obras aqui). Portanto, meu gosto do Nolan estava muito mais para “Amnésia” e “Insônia” do que esses mais novos.

Christopher Nolan on Restoring Kubrick's '2001: A Space Odyssey'

Até que chegou o ano de 2023, e com ele o tal “Barbenheimer”. Que época linda! Naquele período, só quem viveu sabe o grande evento que foi e o quão incrível foi o fato dele ter dado muito certo. De lá para cá, alguns lançamentos em dupla tentaram refazer o fenômeno. Mas sinto informar que vai demorar um tempo até isso acontecer de novo. Foi mágico ver a pré-estreia de “Barbie” na quarta vestido de camiseta rosa, e a estreia de “Oppenheimer” na quinta de casaco preto. O próprio clima estava mais favorável para embarcar naquela experiência. Isto posto, embarquei. E, definitivamente, acabei adorando “Oppenheimer”. Automaticamente, ficou entre meus favoritos do diretor. E toda aquela decepção estava dando espaço para uma nova empolgação, deixando-me com vontade de revisitar algumas obras e reconsiderar alguns pontos.

Barbenheimer': estreia de 'Barbie' e 'Oppenheimer' rende memes e disputa  milionária nos cinemas

Pensando nisso, já fiz e refiz esse ranking algumas vezes nos últimos anos, como faço com diversos diretores. E agora, então, com “A Odisseia”, foi preciso reconsiderar novamente certos detalhes. Seguirei no mesmo formato de outros rankings que faço no Peliplat (como o já mencionado Tarantinoverso, live-actions com animações, princesas da Disney, besteirois Teenage Dirtbag, dentre outros).

 

13º - Tenet (Tenet, 2020)

Nolan é muito matemático, e isso me incomoda bastante (com todo respeito à galera das exatas aí). Ao longo do tempo, fui pegando uma certa rusga dessa suposta soberba e audácia de desafiar a física e a própria proto-convenção de ficção-científica em seus roteiros. Essa falha na tentativa de “filmes que não são feitos para entender, mas para sentir” que sempre me incomodou, pois o problema não está em você querer fazer algo sensitivo demais. Até porque podemos citar uma penca de filmes da carreira do Lynch que são bem mais felizes na proposta. O problema mesmo está em implorar para que as pessoas entendam, vestindo a máscara que é uma viagem sensitiva. Não é.

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E é desse modo que vejo “Tenet”. A ação e, inevitavelmente, a empolgação a partir disso proporcionam alguns momentos eufóricos. Mas quando o filme quer explicar demais, acaba se perdendo em sua própria jornada. Isto faz com que não criemos vínculos com seus personagens. De todos os protagonistas de Nolan, John David Washington é o que mais sofre pela superficialidade de seu roteiro. Mesmo com todas as brincadeiras envolventes de idas e vindas do tempo, essa ausência de peso em um protagonista - somada à uma construção horripilante de um vilão qualquer de Kenneth Branagh - acaba influenciando negativamente no saldo total. Tecnicamente, acho um espetáculo, porém isso acaba não significando nada. Sem substância alguma. O próprio “Memento” (primeiro grande filme do Nolan) acaba fazendo essa (des)construção reversa de roteiro consideravelmente melhor. É uma pena, pois o elenco é muito bom.

→ 2 morcegos de 10 🦇🦇

 

12º - Dunkirk (Dunkirk, 2017)

O filme de guerra do Nolan claramente não segue alguns padrões clássicos desse subgênero. Isso por si só já é um diferencial, é claro. Sejam fatores dramáticos tradicionais ou narrativos mesmo, “Dunkirk” opta por um outro caminho: um ‘jeitão bem Nolan de ser’, com idas e vindas no tempo e no espaço, apresentações de personagens que a princípio não estão tão envolvidos com a história principal até que tudo se interliga no final, dentre outros maneirismos. Definitivamente, o melhor elemento deste longa é sua montagem, pois a cada novo capítulo compreendemos ainda mais o todo daquela situação em torno do ataque da praia de Dunkirk, sem deixar de perder o interesse do público.

Crítica | Dunkirk - Plano Crítico

Particularmente, o meu problema com o filme está justamente nesses maneirismos. Àquela altura, Nolan já havia nos mostrado tudo aquilo de ‘inovador’ que o filme apresenta (comentarei em breve sobre eles). A questão diferente neste caso estava no espetáculo em torno daquilo. Trata-se de um filme de guerra que exige muito da ação, do som, dos próprios efeitos visuais, sejam eles práticos ou não (afinal, o Nolan é desses que explode de verdade as coisas né…). Portanto, no quesito espetáculo o filme não deixa a desejar. Entretanto, em termos de substância, ao final da experiência acaba sendo apenas mais um filme da Segunda Guerra Mundial.

→ 3 morcegos de 10 🦇🦇🦇

 

11º - O Grande Truque (The Prestige, 2006)

Este filme tem uma particularidade para mim: o plot twist dele é, realmente, muito interessante, porém mesmo da primeira vez que o vi, acabei não me surpreendendo tanto. Talvez seja pela tentativa forçada de imersão nas ilusões (muito inspirada em diversos momentos, porém tendenciosas demais em outros), ou seja pela própria jogada do “sósia” do Hugh Jackman (isso aqui sempre me pegou, eles podiam dar uma ajeitada melhor naquela maquiagem, e não só mudar um pouquinho o nariz - tira todo o papo de realismo que o Nolan tanto insiste) e a sugestão de espelhamento entre os personagens. Sempre gostei da ideia do duplo em diversos filmes, porém aqui a construção de algumas coisas simplesmente ficam só no charme.

Crítica | O Grande Truque (The Prestige, 2006) - Plano Crítico

É como se mais uma vez o grande truque fosse realmente a ‘sacada’, e não a construção para isso. Muitos twists acabam nos surpreendendo só com isso, mas em algumas ocasiões isso não basta. Como se apenas o aplauso - o tal prestígio - importasse, após um belo truque de mágica. Os segredos dos bastidores não importam. E já li e ouvi tantas abordagens de críticas sobre esse filme exaltando exatamente este ponto como fator principal positivo do longa. Entretanto, particularmente não consigo embarcar tanto, pois cai por terra a ideia do ‘processo’ por se tratar de um filme recheado de cordas para tudo que é lado, evidenciando seus pontos fracos. Apesar disso, lembro o quão sensacional era ver o Batman e o Wolverine dividindo uma rivalidade (talvez revisitar esse não tenha sido uma boa ideia, na minha memória era mais legal).

→ 4 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇

 

10º - Insônia (Insomnia, 2002)

Aproveito o momento ‘Al F**ing Pacino is in da house’ para fazer um convite de dois dos meus textos mais especiais aqui no Peliplat. O primeiro é sobre a maravilhosa filmografia do ator nos anos 70 (só pedrada boa) e o segundo é sobre a famosa cena do “Attica!” no clássico “Um Dia de Cão”. Esses textos são meus xodós. Voltando ao Nolan, aqui novamente temos um excelente elenco. Al Pacino e Robin Williams apresentam uma química muito interessante nesta briga de policial e criminoso. Certamente, Nolan está aqui trazendo referências/migalhas de “Heat”, um filme que obviamente é um dos favoritos do diretor (“The Dark Knight” está aí para provar).

Insônia (2002) - IMDb

Só que estamos falando de Nolan, então além do quê thriller policial temos uma boa dose de suspense psicológico aqui. E é essa parte que me fascina, e devo admitir que é um dos roteiros que mais gosto de seus filmes. A curiosidade é que não se trata de um roteiro de sua autoria - na realidade é, inclusive, um remake de um filme norueguês. Apesar de não ser uma obra original do cineasta, podemos encontrar muito de sua veia autoral nesta produção. O principal fator que contempla tal afirmação está na dualidade entre o que é real e o que não é, dado o estado pouco confiável do protagonista de Pacino. Por sofrer com a insônia, não podemos confiar exatamente em suas palavras, até porque nem o próprio confia. E é nesta dualidade dentro de uma investigação policial que reside uma das histórias mais interessantes de sua filmografia.

→ 5 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇

 

9º - Interestelar (Interstellar, 2014)

Esse é bem polêmico, né? Existem as pessoas que amam e existem as pessoas que abominam. Eu, sinceramente, sempre achei… legal. Nada de extraordinário, mas também muito longe de ser uma monstruosidade. Entendo a repulsa com o estereótipo do cara que escuta Coldplay e Imagine Dragons, que fica falando de startup toda hora, e que seu filme favorito é o “Interestelar” (eu sei, eu critico direto isso). Mas tirando a pose de pseudo-cult-intelectual e o preconceito bobo de lado, aqui temos um dos filmes mais badalados do diretor, não por acaso. Nolan está muito mais redondo aqui matematicamente falando. E esta ‘matemática’ dele eu consigo aturar. Eu, inclusive, gosto de aturar.

Interestelar | Coluna Claquete

Parte disto consiste na beleza do espetáculo visual e na performance cativante de Matthew McConaughey. Além disso, goste ou não, Nolan criou uma identidade muito firme e inspirada naquela dimensão dos livros, somada à magistral trilha de Hans Zimmer (aliás, boa parte da grandiosidade em suas obras se deve às trilhas, e Zimmer fez parte disso por muito tempo - depois veio Ludwig Göransson), e isso é fantástico e merece ser exaltado. Sem contar que tudo isso é fruto de uma filosofia de trabalho que marcaria ainda mais a carreira do diretor: a grandiosidade. Tudo precisa ser épico. O elenco continua recheado de estrelas (Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Casey Affleck, John Lithgow, Matt Damon, até o novato franzino Chalamet está aqui), além disso o grande destaque está no elaborado design de produção, criando uma atmosfera muitas vezes claustrofóbica dentro da vasta solidão no espaço, além da própria trilha já mencionada. Um bom blockbuster.

→ 6 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

8º - Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012)

De antemão preciso dizer: eu adoro esse filme. Muita gente, desde seu lançamento, acaba o criticando por justamente ser muito inferior ao seu antecessor. Eu nunca achei o “Ressurge” no mesmo nível do “Cavaleiro das Trevas” de fato, mas também nunca entendi esse hate absurdo. Apesar de ser um filme que guardo com carinho, principalmente devido à minha experiência no cinema (foi um dos momentos que eu mais fiquei arrepiado no cinema - eu fui um moleque vidrado e apaixonado nesse Batman, foi super especial ver ele voltando), é inegável a falta de consistência na criação de antagonistas (e de personagens femininas) por parte do cineasta.

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) | MUBI

Aqui, Chris Nolan assina o roteiro ao lado de seu irmão e grande companheiro de equipe, Jonathan Nolan. Certamente, Bane (Tom Hardy) dispõe de muita presença e ameaça durante boa parte do filme. Hardy apresentava uma missão difícil de tentar manter o sarrafo deixado pelo saudoso Heath Ledger com seu Coringa. Contudo, a diminuição de sua relevância moldada pela reviravolta “marcante” de Miranda Tate (Marion Cotillard) faz com que todo o peso da queda do homem-morcego - imortalizado por Christian Bale - seja ridicularizada com alguns minutos sofríveis no ápice da batalha final. Isto acaba sendo o ponto de maior fraqueza do filme. Apesar disso, acaba servindo como uma ótima e decente conclusão épica da trilogia clássica-moderna ‘Batman do Nolan’, da qual serviu como guia para muitos blockbusters de sua época.

→ 6 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

7º - Batman Begins (Batman Begins, 2005)

A partir daqui entramos em um patamar que gosto bastante. Já comentei um pouco sobre minha relação com “Batman Begins” no texto sobre memórias afetivas aqui no Peliplat. É um DVD muito especial que guardo com muito carinho. Mas falando especificamente do filme, foi o primeiro do Nolan que vi. Como mencionei no início do texto, àquela altura no meio dos anos 2000, um filme de super-herói como o “Begins” foi encarado como um grande divisor de águas, tanto de crítica quanto de público. A crítica começou a prestar mais atenção em filmes desse subgênero, e o próprio público que - convenhamos - estava acostumado com uma sequência de amostras ruins (principalmente do morcegão), começou a ficar mais exigente. Agora o sarrafo era o “Begins” do Nolan. Tudo mudou a partir dali.

20 anos de 'Batman Begins': onde estão o elenco e a equipe do filme -  Estadão

O mundo conheceu ainda mais o potencial para blockbuster de Christopher Nolan, adaptando uma história que por muitos anos estava sendo motivo de chacota. Apesar da iconografia presente no Batman de Tim Burton e Michael Keaton, é inegável que sua imagem ficou manchada com os dois filmes do Joel Schumacher, “Batman Eternamente” (esse com algum esforço e alguns ajustes seria um baita filme legal do personagem) e “Batman & Robin” (esse nunca teve salvação mesmo). A opção de um tom sombrio, realista e policial acaba nutrindo uma discussão diferenciada em torno da figura de um justiceiro mascarado, implementando embates interessantes sobre vingança e justiça entre Bruce e Rachel (Katie Holmes). Para além das questões morais, ainda temos espaço para a grande origem por trás deste misterioso Bruce Wayne de Bale, antagonizando com um excelente Ra’s al Ghul de Liam Neeson. Destaque para Michael Caine em toda a trilogia. Pouco se fala sobre o arco melancólico que esse personagem construiu.

→ 7 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

6º - Seguinte (Following, 1998)

O primeiro filme de Christopher Nolan é, sem dúvidas, um dos melhores dele. Muitos, inclusive, até esquecem (ou ignoram) sua existência, contando a partir de “Memento”. Faz sentido por uma ótica, já que “Following” foi realizado de forma independente. Mas antes de pirar o cabeção do Guy Pearce, Nolan pirou o cabeção de seu parceiro presente em seus primeiros curtas, o ator britânico Jeremy Theobald. Acompanhamos - em preto e branco - o protagonista seguindo pessoas nas ruas de Londres, até começar a se envolver com algumas figuras perigosas e misteriosas que o levam à um espiral inevitável de caos e condenação.

Watch Following | Netflix

Certamente, se eu fosse indicar um filme do Nolan para alguém, seria esse. Primeiro por ser o seu mais desconhecido, segundo que encontramos aqui muitos elementos que seriam figurinhas carimbadas na filmografia do diretor. E é muito interessante já perceber isso no seu debut. Uma delas é a própria questão do tempo não-linear. De todos os longas do cineasta que abordam essa estética, “Following” só perde para o 4º lugar da lista. Aqui, ficamos intrigados com a indiferença inicial do protagonista somada ao pouco que sabemos sobre ele. Muito disso se deve à sugestão que Nolan propõe ao acrescentar algumas informações em tela, sem necessariamente ficar falando e explicando para gente o tempo inteiro, como alguns objetos guardados no quarto do protagonista. Detalhe que aqui temos uma porta com um adesivo do símbolo do Batman. Claramente, Nolan amou adaptar o cavaleiro de Gotham no cinema, o cara já dava sinais.

→ 7 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

5º - A Odisseia (The Odyssey, 2026)

O mais novo filme de Christopher Nolan já está nos cinemas, e com ele mais uma penca de discussões inerentes às decisões criativas do diretor. Independente de questões de adaptações, anacronismos e IMAX, esse não é o primeiro filme do Nolan que carrega polêmicas como essas. Mas, apenas pensando no filme em si: dentro de quase 3 horas. Nolan alcança um outro patamar como realizador. Particularmente, um dos maiores méritos que seu antecessor "Oppenheimer" possuía era justamente o design e mixagem do som. Aqui, Nolan conseguiu superar este critério. O som (junto com a fotografia - porém mais o som) é a grande qualidade do filme. Tudo fica ainda mais épico e imersivo, tudo fica mais amplo, tenso, quase semelhante à um ataque de pânico, e essa sensação desconfortável se deve ao excelente trabalho sonoro.

A Odisseia (2026) - IMDb

Quanto às atuações, seguem protocolares como na maioria dos filmes de Nolan. São muitas estrelas e todas estão em sua devida dose (com exceção de Tom Holland que fica um pouco abaixo da maioria). Por sua vez, a montagem continua seguindo o estilo Nolan de ser, no mesmo padrão desde seus primeiros filmes - o que acaba exaltando suas qualidades de autor, porém com requintes de fadiga na repetição. O diferencial é que boa parte das sequências de ação apresenta um tempo estendido, dando espaço para embarcarmos nessa tal odisseia. Dito isto, um dos melhores do ano, certamente. Merece ser visto no cinema (a experiência se torna bem mais imersiva) - mesmo em cinemas casuais, sem a “tecnologia necessária para assistir esse filme”. Isso tudo é conversa. O filme vale a pena sim ser visto no cinema, independente de onde for.

→ 8 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

4º - Amnésia (Memento, 2000)

Agora sim, o primeiro grande filme de Christopher Nolan para o mundo. O filme que fez o grande público conhecê-lo. Estrelado por Guy Pearce e Carrie-Anne Moss, “Memento” é considerado por muitos um dos melhores filmes do diretor justamente por condensar com maestria conceitos sobre não-linearidade e paranoia. Não há dúvidas que se trata de uma das histórias mais interessantes dentro de sua filmografia. Mais uma contribuição com seu irmão, Jonathan, além de apresentar um texto inventivo e intrigante, é válido apontar que o grande diferencial está em sua montagem, emulando o que está passando pela cabeça do protagonista. À medida que a metragem rola, o público divide a confusão com o personagem de Pearce, tentando entender e encaixar as pontas soltas apresentadas aos poucos pela câmera sugestiva do cineasta. Aqui temos o Nolan matemático de uma forma bem-vinda. Isto é, a história por si só já se faz extremamente inovadora e original, portanto o filme soa muito mais convidativo do que outros superestimados de sua filmografia.

Alguém esqueceu que Memento não é tão antigo e decidiu fazer um remake do  filme - Jovem Nerd

Outro fator diferencial é o fato do filme melhorar a cada visita. Muitos filmes do Nolan podem soar um pouco cansativos para parte do público por apresentarem as tais explicações características do autor. Porém aqui tudo é encantador. Você fica querendo montar esse quebra-cabeça junto aos personagens o tempo todo, mesmo sabendo do que já vai acontecer. Um detalhe interessante também é a inovação no âmbito das famosas versões alternativas das quais muitos filmes compartilham. Nesse caso - apenas como título de curiosidade - existe uma versão ‘cronológica’ do filme. Isto é, o filme original se passa de trás para frente no tempo, como se o protagonista estivesse sempre tentando relembrar o que aconteceu por conta de seu distúrbio de memória, já nessa outra versão podemos acompanhar como tudo realmente aconteceu.

→ 9 morcegos de 10 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇

 

3º - Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)

Não tem muito o que falar sobre este. Todo mundo já falou sobre. Considerado por muitos como o melhor filme de super-herói de todos os tempos, “O Cavaleiro das Trevas” é um dos mais revolucionários dentro da filmografia do diretor. ‘Revolucionário’ por conseguir elevar o nível que ele mesmo impôs três anos antes. Por muito tempo, os filmes de super-herói não eram levados tão a sério, com diversos exemplares ruins nos anos 90. Agora, já nos anos 2000, estávamos vivendo uma grande época de ouro com “Homem-Aranha” de Sam Raimi, “X-Men” de Bryan Singer e o próprio “Batman Begins” do Nolan. Porém, chegou 2008 e com ele as imagens promocionais, os trailers, os pôsteres. Eu lembro bem disso, estava lá empolgado com tudo isso. Lembro muito bem do site oficial de divulgação do filme, abrindo com um wallpaper lindo do Batman contemplando Gotham City. Este filme de fato gerou muito barulho na época de seu lançamento, e ficou eternizado por uma performance em específico.

Domingo Maior hoje exibe segundo 'Batman' da trilogia de Cristopher Nolan -  Jornal O Globo

Heath Ledger, antes de infelizmente nos deixar, imortalizou o seu nome na história do Cinema com a performance antológica do seu icônico Coringa. Anos depois, Joaquin Phoenix garantiria o segundo Oscar de uma atuação deste personagem, com outra atuação magnífica. E seja lá qual for a sua preferência, é inevitável não lembrar a atuação de Ledger nessas listas de melhores performances de todos os tempos. Um Oscar póstumo inesquecível. Ledger estava possuído aqui - no bom sentido. Todos os seus tiques, a sua voz, a sua movimentação corporal, tudo se encontra amedrontador, ainda mais dentro desta ambientação absurda de suspense policial que Nolan imprime. Como já mencionado, uma clara homenagem para o clássico de Michael Mann, “Fogo Contra Fogo”. Um grande filme de ação, um dos maiores blockbusters dos anos 2000. Marcante ao extremo.

→ 10 morcegos de 10 e uma carta do Coringa 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🤡

 

2º - Oppenheimer (Oppenheimer, 2023)

Como mencionei no início do texto, estava descrente com os últimos lançamentos do diretor. Não que eu tivesse detestado aqueles filmes. Aliás, apenas para enfatizar aqui: este ranking é muito mais uma troca sobre minhas experiências com os filmes do que uma definição se eles são bons ou não. Eu, definitivamente, gosto do cinema de Nolan e alguns desses filmes eu realmente considero um “filmaço”. A única exceção é, claramente, o “Tenet”. Esse não me desce mesmo. Agora, os outros eu consigo listar diversos pontos positivos, uns mais outros menos. Então, dentro desse contexto, estava com um pé atrás para “Oppenheimer”. Até que depois de viver aquele momento único em julho de 2023, com os cinemas lotados, minha esperança com Nolan reacendeu.

Oppenheimer: Atuação 'quase desumana' de Cillian Murphy mudou a trilha  sonora; entenda - Rolling Stone Brasil

Tenho a sensação de que Nolan estava muito maduro e seguro nessa cinebiografia, sabendo exatamente onde encaixar tudo, em seu devido lugar. Mais uma vez, a montagem aqui se torna um personagem importante na proposta que o filme impõe. Contudo, vai além disso. Nolan opta pela mudança de cores dentro do jogo temporal, delimitando gradativamente o embate entre Robert Downey Jr. e Cillian Murphy, além de confiar plenamente na atuação magistral de seus atores, deixando a câmera acompanhar as expressões penetrantes do protagonista. Sem contar da grande espetacularização em torno do medo secular da bomba atômica. Nolan dramatiza um dos momentos mais terríveis da sociedade moderna, traçando diversos paralelos com o mundo atual e os impactos das grandes decisões impostas pelos poderosos da elite. Um dos filmes mais emblemáticos dos últimos anos!

→ 10 morcegos de 10 e uma bomba atômica 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇💣

 

1º - A Origem (Inception, 2010)

Meu filme favorito do Nolan já foi trocado algumas vezes. Por muito tempo era “O Cavaleiro das Trevas”, por tudo que ele representou para mim lá atrás. Também posso afirmar que quando vi “Oppenheimer”, saí com a sensação de já ser o meu favorito, de cara. Mas não posso deixar de comentar, “Inception” sempre esteve ali. Fora os do Batman, é o filme que mais revi do Nolan, é a trilha sonora do Hans Zimmer que mais ouvi na vida, é um dos finais que mais admiro, é meu favorito - não tem como não ser. O próprio conceito de utilizar da percepção irreal dos sonhos a entrada para estratégias de assalto já deixa o público cativado por si só. Somado à isso, temos uma performance cativante de todo elenco em torno do protagonista interpretado por Leonardo DiCaprio. Nem sinto que o diferencial deste filme seja as atuações, já que todas acabam sendo bem protocolares aqui, mas funcionam muito bem para a proposta.

Leonardo DiCaprio também não entendeu o fim de A Origem - Rolling Stone  Brasil

Aqui temos um Nolan ousando nos efeitos visuais de uma maneira que não havia realizado antes. Foi a partir daqui que a grandiosidade começou a bater na porta. Apesar disto, “A Origem” ainda soa como um filme bem intimista psicologicamente, conversando com resquícios de trauma e ética. É um dos filmes mais satisfatórios dentro de sua filmografia, pois sabe ser blockbuster de ação e assalto quando quer ser, sabe ser contemplativo quando quer refletir sobre perda de família e memória, sabe ser divertido por nos entreter com os conceitos dentro dos sonhos (tudo bem que existem muitas explicações, mas elas nesse caso específico não me incomodam), resumindo: sabe ser completo, e não soberbo ou supostamente grandioso demais. “A Origem” é um filme na medida, ousando em alguns conceitos mas ainda com os pés firmados em um campo do qual Nolan sempre dominou bem, o do desconforto.

→ 10 morcegos de 10 e um sonho dentro de um sonho dentro de outro sonho 🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇🦇💤

 

Eis aqui o meu ranking, portanto. Christopher Nolan está fazendo 56 anos e voltou aos cinemas com seu 13º filme, o épico “A Odisseia”. Certamente, Nolan ainda tem muita lenha para queimar, e dada a experiência com seu novo filme, voltei a ficar ainda mais empolgado com os próximos passos do diretor mais badalado de Hollywood dos últimos anos. Parabéns, Nolan! E obrigado por fazer parte das fagulhas iniciais que me fizeram procurar ainda mais sobre cinema. Nolan estava lá quando eu não manjava quase nada, e meu amor pelo seu Batman com certeza me impulsionou a procurar outras coisas. Foi muito importante e continua sendo um diretor do qual respeito bastante!

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