Basta um dia de cão para o sonho desmoronar

Aspectos Socioculturais

“O sonho acabou!”, já dizia John Lennon em sua música “God”, em um cenário pós-Beatles, caracterizado pelo fim de uma era carregada de promessas e visões de um futuro brilhante que estava por vir, dando espaço à uma época amarga e melancólica, onde a Geração Faça Amor, Não Faça Guerra estava morrendo em solos vietnamitas. É com este cenário que pretendo comentar sobre uma cena icônica do filme “Um Dia de Cão” (1975), de Sidney Lumet. Mas antes, certamente, devo admitir que pensar em uma ‘cena lendária’ é muito intrigante. São tantas que acabam vindo na memória, algumas nos marcaram mais, outras nem tanto, mesmo sabendo do impacto para a cultura pop… difícil escolher apenas uma.

 

No momento em que estava cogitando algumas cenas, havia pensado em uma (a que vou elaborar adiante), porém fiquei receoso pelo fato de não ter sido a mais “lendária” que me passou pela cabeça de cara. No entanto, desde que vi este filme pela primeira vez, muitas falas e sensações ficam ecoando nos meus pensamentos, em especial esta cena. Portanto, não pude escrever sobre outra que não fosse essa. Até porque, recentemente, publiquei um artigo - aqui na Peliplat mesmo - sobre a filmografia inteira de Al Pacino na década de 70 (a quem se interessar, clique aqui), fazendo com que ela estivesse mais fresca para mim. A cena em questão é composta por Pacino dando um show de atuação - e de improviso, também - no meio da rua gritando “Attica! Attica!”. Com isso, vamos para o contexto…

 

Era uma vez… na Nova Hollywood

 

Conforme mencionei no artigo citado, a Nova Hollywood foi um movimento cinematográfico de extrema relevância, partindo do final dos anos 60 e percorrendo praticamente toda a década de 70, até que teve seu “fim” quando o cinema americano começou a dar mais espaço para os chamados blockbusters. Dito isto, entre os maiores exemplares deste movimento, temos diversos clássicos como “Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas” (1967), de Arthur Penn, “A Primeira Noite de Um Homem” (1967), de Mike Nichols, “Perdidos na Noite” (1969), de John Schlesinger,  “Operação França” (1971), de William Friedkin, “A Conversação” (1974), de Francis Ford Coppola,  “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, dentre outros. Este período foi encabeçado por jovens e, até então, desconhecidos cineastas alternativos que buscavam escancarar - com originalidade e controle de sua própria obra - o retrato de uma sociedade indignada com o rumo do país e do mundo, no auge da contracultura. Portanto, a temática de “queda do sonho americano” acaba sendo bem recorrente aqui, devido à uma espécie de ressaca pós-anos 60 e um choque de realidade nos jovens traumatizados pelo Vietnã. Isso acaba se refletindo em personagens anti-heróis obscuros e finais totalmente sem nenhuma esperança, dando um ar melancólico nas obras.

Em meio à toda essa gama de cineastas promissores em início de carreira, havia um experiente diretor responsável pelo clássico absoluto “12 Homens e uma Sentença” (1957), que estava prestes a fazer ótimos filmes na década de 70. Sidney Lumet já vinha de uma parceria muito construtiva com Al Pacino em “Serpico”, de 1973. Logo, o diretor sabia exatamente como conduzir o ator, que estava em ascensão na época de “O Poderoso Chefão”. Com isso, chegamos em 1975 com “Um Dia de Cão”, dirigido por Lumet, estrelado por Pacino e John Cazale, contando a história de Sonny, um jovem veterano do Vietnã, que decide assaltar um banco no Brooklyn, ao lado de seu parceiro Sal. Porém, tudo começa a dar errado a partir do momento em que chamam a atenção da vizinhança e, consequentemente, da mídia, fazendo com que toda a situação vire um circo em plena rede nacional.

De volta aos clássicos: Um dia de Cão, de Sidney Lumet

 

Dog Day Afternoon, um clássico!

Quando pensamos no longa como um todo, encontramos muitas cenas memoráveis, devido à dinâmica frenética da trama. A forma como tudo vai se escalonando é realmente empolgante, principalmente pela quantidade de subtexto e assuntos à frente do seu tempo que o filme aborda. Fato este evidencia a qualidade do roteiro ao sustentar um turbilhão de temáticas em uma história que se passa em - apenas - um dia. É válido lembrar que o filme foi baseado em uma história real. De fato, o tal veterano de guerra Sonny realmente existiu e assaltou um banco em agosto de 1972, com o intuito de pagar a cirurgia de mudança de sexo de sua esposa, uma mulher trans. Tudo isto está no filme! Outro fator a ser levado em consideração é o calor. A cidade de Nova York está totalmente tomada pelas altas temperaturas, o que transmite uma sensação de urgência, impaciência, indignação e opressão. Somada à isto, está a descredibilidade das instituições perante a sociedade.

Dog Day Afternoon (1975) ORIGINAL TRAILER

As pessoas estão revoltadas com a polícia e o sistema como um todo, fazendo com que a frustração grite mais alto, quando aparece um cara comum - à beira de um colapso mental, vítima da promessa mentirosa do sonho americano que nunca se concretizou - realizando tal feito, “vomitando” tudo que está engasgado até então. Portanto, quando Sonny aparece na rua negociando com a polícia, que está cercando todo o prédio, as pessoas reagem como se fossem o público do Coliseu ou de qualquer tipo de apresentação de entretenimento. O público está do lado de Sonny, ao passo que aproveitam para manifestar seus desapontamentos, tanto para polícia quanto para mídia. Alguns querem, com certeza, apenas ver o circo pegar fogo, deixando o caos agir por conta própria. Outros querem aproveitar seus 15 minutos de fama. E muitos querem fazer parte dessa espécie de movimento involuntário que está acontecendo, liderado pelo protagonista.

Sidney Lumet Sacrificed Dog Day Afternoon's Score For The Sake Of The Story

 

A Rebelião de Attica e a cena lendária!

 

É na efervescência popular que entramos na tal cena. Ademais, há dois detalhes importantes na composição do que assistimos em tela: o primeiro é que Al Pacino improvisou bastante aqui, principalmente na citação à Attica, o que deixa sua performance mais humana e a reação do público genuína; o segundo é, justamente, o conhecimento prévio da tal Attica, pois no filme não é comentado verbalmente, mas sim implicitamente. Na cronologia dos fatos, o filme se passa quase um ano após a rebelião do Centro Correcional de Attica, no estado de Nova York. Na ocasião, os prisioneiros realizaram um motim, reivindicando melhores condições de tratamento devido à superlotação do presídio e à situação desumana em que viviam. Dentre os maus tratos, estava o fato de que cerca de 2 mil prisioneiros tinham que se amontoar, literalmente, em uma prisão que havia sido construída para suportar praticamente 1,5 mil pessoas. Além do fato de haver uma nítida segregação racial, com os prisioneiros brancos apresentando condições de moradia e trabalho mais privilegiadas em relação aos negros. Tal rebelião durou quatro dias e, no fim, acabou resultando em aproximadamente 40 mortes, incluindo os reféns. O massacre por parte das tropas policiais e da guarda nacional, encabeçados pelo governo Rockefeller, ficou registrado na história como um momento bastante trágico nos Estados Unidos, fazendo com que a própria Comissão Especial do Estado de Nova York sobre Attica comentasse posteriormente que “com a exceção dos massacres indígenas no fim do século 19, o ataque da polícia estadual que pôs fim ao levante de quatro dias foi o mais sangrento encontro entre americanos desde a Guerra Civil”.

A cena se inicia com Sonny, apresentando uma “bandeira branca” na porta, saindo do banco com uma refém, enquanto conversa com o policial responsável pela operação. Durante a negociação, Sonny observa que todo o perímetro está cercado por inúmeros policiais apontando suas armas para ele naquele momento. Alguns, inclusive, aproximando-se lentamente do assaltante, tentando pegá-lo desprevenido. Sonny rebate o quanto todos aqueles policiais estão sedentos para atirar e acabar com aquilo rapidamente. Aliás, aqui o personagem de Al Pacino solta uma das linhas que, particularmente, mais adoro em seus filmes: “Kiss me, man.. kiss me, when I'm being f*cked, I like to get kissed a lot”. Grande performance! A cena segue com um grupo de policiais chegando cada vez mais perto, com suas armas, fazendo com que Sonny comece a surtar e a gritar “Attica! Attica! Attica! Remember Attica?”. Nisso, o público vai ao delírio, manifestando todo seu apoio ao protagonista, demonstrando o quão fragilizada, quebrada e desiludida a sociedade estava. Até que ponto aquela situação iria chegar? Quem está certo ou quem está errado? Esses conceitos, aqui, ainda existem? Ou, melhor, qual é a motivação de cada lado? O que levou a esse quadro? Muitos questionamentos em um cenário totalmente caótico. A mise-en-scène criada reflete no calor (climático e humano), no engajamento e entusiasmo das pessoas vistas como plateia, no visual de Sonny (cada vez mais com sua roupa surrada e seu cabelo desajeitado, contrastando com o terno abotoado no início), cercado por policiais fardados iguais, como um sistema opressor, onde nada muda e permanece agressivo, encurralando o desajustado.

 

O impacto na sociedade e o fim do sonho…

 

A cena ficou bastante emblemática, sendo muitas vezes referenciada e parodiada em outras produções, como em “Os Embalos de Sábado À Noite” (1977), “Corra Que A Polícia Vem Aí” (1988)  e, até mesmo, em um episódio de “Bob Esponja Calça Quadrada” (1999-hoje). Aquele grito de Al Pacino significava muito na época, e ecoa até os dias de hoje quando pensamos nos rumos retrógrados que nossa sociedade insiste em percorrer. 

 

A década de 60 se iniciou de forma muito promissora, porém terminou de modo completamente melancólico. A Guerra do Vietnã deixou danos irreparáveis, físicos e mentais para todos os envolvidos; o assassinato de Martin Luther King foi uma imensa perda, não só do líder dos direitos civis, mas também da esperança que se tinha em uma sociedade mais justa, livre de segregações; a Rebelião de Stonewall deixou explícito o quanto a comunidade LGBTQIA+ sofria e estava morrendo pelas instituições, sendo impedida de viver livremente por, apenas, existir; o assassinato de Sharon Tate e os inúmeros crimes de Charles Manson escancararam a face obscura de Hollywood, aniquilando o próspero futuro e cheio de vida que California prometia. A Nova Hollywood é marcada por esse cenário: a expansiva sujeira urbana espelhando o vazio existencial interno do ser humano. “Um Dia de Cão” é um ótimo filme para se entender o espírito que pairava na época, além de ser um clássico absoluto com uma primorosa direção de Lumet, associada à uma performance marcante de Pacino, com uma cena lendária e repleta de significados, imortalizada com a repetição de uma (e apenas uma) dolorosa palavra, carregada de memórias incômodas para uma geração sonhadora vivendo um pesadelo.

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Comentários 4

H
Heitor Leal Machado19 de setembro de 2025
Uma das coisas que eu mais gosto da Nova Hollywood dos anos 1970 é como muitas obras dialogam entre si. Elas poderiam habitar facilmente o mesmo universo. Um dia de cão, que é realmente memorável, parece acontecer ao lado de Taxi Driver e Rolling Thunder, por exemplo. Ótimo exemplo!
B
Brie Moreno6 de setembro de 2025
👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
R
Rubi07266 de setembro de 2025
👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
P
Paulo de Camargo Fernandes4 de setembro de 2025
Estou concorrendo também nesse Desafio, mas a sua escolha por uma cena de Al Pacino, em Um Dia de Cão, foi excelente! Muito legal o seu texto!

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