Dia Após Dia
Aspectos SocioculturaisPreciso deixar claro, de antemão, que o tema proposto é um dos mais intrigantes dos últimos meses. Demorei a escrever pensando cuidadosamente sobre isso. Já que refletir sobre qual foi a cena que me fez ficar apaixonado pelo Cinema me parece uma missão quase impossível. Foram tantas, continuo assistindo e descobrindo muitas inclusive, e me apaixonando ainda mais. Mas qual seria a primeira? A que define isso… Eu não sei especificar a ordem cronológica dos filmes que vi, ainda mais na infância (época em que já me encantei de cara com a sétima arte), onde assistia uns cinco filmes por dia (fora os desenhos). Mas uma coisa é certa: desde que bati o olho no desafio, vieram-me as lembranças dos filmes de super-herói.
Não vou negar minhas origens. Certamente eu me apaixonei por filmes por conta dos super-herois, pois foram os primeiros que assisti diversas vezes e tentava zerar todos desde cedo. Por conta disso, para mim sempre foi um tanto quanto natural amar Cinema, pois os filmes de herói foram fáceis de zerar, ainda mais naquele começo de anos 2000. Fazia parte do cotidiano. Depois disso vieram os filmes de fantasia, aventura, ação, ficção científica, e quando me dei conta de que “nossa, talvez eu goste realmente disso” já era apaixonado há muito tempo.

Levando isso em consideração, poderia muito bem citar “Batman Begins”, pois - afinal - o meu herói favorito de todos sempre foi o Batman. Eu sempre amei tudo da DC. Cresci com as séries animadas do universo do Bruce Timm (nessa época nem sabia sobre nada, mas já prestava atenção nos nomes dos créditos, e fazia minhas próprias relações). Então, estava sempre revendo a série do Batman, a do Superman, consequentemente a da Liga da Justiça, depois o Sem Limites. Neste sentido, “Batman Begins” foi um dos filmes que mais revi neste início. No entanto, em paralelo, existia a Marvel também, com seus desenhos e filmes, como X-Men. E no meio do caminho havia uma aranha.
A aranha e o morcego sempre andaram juntas ali na minha infância. Principalmente os filmes. Não à toa, vejo Tobey Maguire e Christian Bale como figuras paternas. Personalidades problemáticas? Sim, é claro. Mas faz parte do jogo… Brincadeiras à parte, a trilogia do Homem Aranha, de Sam Raimi, definitivamente moldou inicialmente meu paladar cinéfilo. E uma cena em específico sempre me fez sentir coisas, das quais na infância não as compreendia. Hoje tento compreender, e assumo aqui como uma das que mais permeiam minha mente há anos. Peter Parker volta para seu apartamento, depois de um dia cansativo e estressante, e está sozinho. Senta na cama e começa a olhar para o nada. Um olhar vazio, perdido, derrotado, entregue. “Como seria possível um dos heróis mais irados que existe estar tão triste assim?”, pensava Little Andy.
A cena em questão é de “Homem-Aranha 2”, também conhecido como o melhor da trilogia. Embora eu tenha um carinho gigantesco pelo primeiro, a parte 2 acaba elevando ainda mais todos os níveis técnicos e artísticos de seu antecessor. Antes de chegar na cena em si, é válido relembrar a forma como Peter é retratado durante todo o longa. Nosso protagonista está do jeitinho que os fãs de Homem-Aranha gostam: pobre, sem mulher, devendo o aluguel, demitido, com dificuldade nos estudos, tendo que conciliar tudo isso com seu alter-ego amigão da vizinhança.
Peter encontra Mary Jane nos outdoors pela cidade inteira tendo que conviver com a dor de não ter a sua amada, é demitido do emprego de entregador de pizza, não consegue um bom preço pelas fotos no Clarim Diário, está com notas ruins e faltas constantes na faculdade, sua relação com seu melhor amigo Harry Osborn está cada vez pior por conta da morte de seu pai Norman no primeiro filme, tem que esconder de sua tia May a verdade sobre a noite da qual Tio Ben faleceu, enquanto tia May ajuda o sobrinho com o pouco que sobrou de suas economias para passar a semana (em uma cena extremamente tocante - destaque total para Rosemary Harris nesse filme), até que chega em seu apartamento e é cobrado pelo aluguel atrasado, com o proprietário pegando as tais economias como um adiantamento. Sem contar que esse dia é justamente seu aniversário. Peter está totalmente desolado, tudo está dando errado, sendo que a cidade toda o ama. Mas a que custo?

Ninguém sabe que ele é o Homem-Aranha, e ninguém pode saber. E mesmo tendo esse amor, o que isso trouxe? O Homem-Aranha pode até estar vivendo, mas e o homem por trás da máscara? Peter, então, senta em sua cama e fica parado por um tempo, enquanto escutamos apenas o som da música do apartamento do proprietário, ao lado. Não é preciso outra trilha, não é preciso diálogo expositivo. Basta o silêncio de Peter em contraste ao som do lado de fora. Como se ele estivesse sendo o único que estava parado, o único que não conseguia progredir. Basta Raimi enquadrar Peter no seu cubículo de apartamento como forma de representar o quanto está encurralado pela própria maldição, sua sina, seu fardo. Ao fim do dia, Peter está sozinho, perdido, e precisa descansar, pois amanhã é outro dia. É uma cena curtíssima, mas importantíssima.
Além disso, podemos ficar aqui por muito tempo debatendo sobre a forma perfeita da qual este filme aborda a depressão, crise de identidade e crise existencial. Peter está perdendo seus poderes, como se estivesse perdendo uma parte de si, havendo uma falta de comunicação entre o Aranha e o Parker. E é claro que, quando eu era criança, não compreendia tudo isso. Mas, sem dúvidas, esse aqui é um dos que mais reassisti em toda a minha vida. Tenho as falas decoradas, os sons, a trilha. Ah, essa trilha maravilhosa do Danny Elfman… Enfim, voltando.
Quando eu era criança, eu era fascinado nas cenas em que o Homem-Aranha está em ação, é claro. Mas eram os ecos dos dilemas de Peter que ficaram comigo. Algo ali, do qual não entendia por completo, despertava-me uma curiosidade ainda maior. Por que eu estava sentindo tudo isso? Mesmo sem entender? O sentimento de vazio, de amargor, de melancolia, sempre ficaram ali explícitos. Sempre achei essa cena linda, pois não precisa ser dito “estou muito cansado disso tudo”. Pois entendemos tudo. Apenas com o silêncio e a imagem.

“Uma donzela alta e esguia sozinha no campo, o vestuário dela era verde brilhante e seu cabelo era como o brilho do sol. Dia após dia ele olhava para ela…”, dizia o poema que Peter tentava decorar para declamar para Mary Jane, seguindo o conselho de Otto Octavius. O poema era sobre uma mulher, o poema era sobre Mary Jane. Mas no fundo não era apenas sobre ela. Era sobre a busca da paz incessante pelo Peter. Para Peter, Mary Jane era a paz. Era sua fortaleza. Sempre encarei o “dia após dia” como um mantra diário para encarar a vida, apesar dos problemas. Dia após dia precisamos lidar com a dor, com a depressão, com a tristeza. Para Peter sempre foi assim, ainda mais nesse filme. Cada dia era uma luta cruel. Homem-Aranha triunfava. Peter não.
Por fim, esta é apenas uma parcela de um filme maravilhoso. Existem outros pontos relevantes para compor toda a grandeza do longa. Mas foi nessa cena, da qual não entendia em sua totalidade quando vi pela primeira vez, que algo em mim me despertou. Algo sobre uma paixão longeva. Algo em mim dizia que eu admirava muito mais o Peter, o menino comum, do que o Homem-Aranha, o herói. Esse filme forma caráter e merece sempre ser revisitado. “Homem-Aranha 2” fez parte do início nesta minha longa jornada cinéfila.






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