O cinema de reprises

Indústria

Na semana passada, eu tive uma experiência cinematográfica nova. Fui ver o relançamento da versão de 2005 de “Orgulho e Preconceito” na sala de cinema. Um filme que eu nunca tinha visto completo ou lido o livro, esse que é um dos favoritos da minha namorada, e que agora eu pude ter a experiência de assistir pela primeira vez na tela grande. E eu gostei demais do filme. É uma história clássica que eu estava devendo conhecer há muito tempo, que eu só tinha visto partes na época do colégio, com uma professora passando em aula. Mesmo sendo um romance que, a princípio, poderia parecer “água com açúcar”, o filme me deixou intrigado por querer saber o que iria acontecer a cada cena, com uma tensão crescente, principalmente no último ato. Valeu a pena esperar para ver no cinema, e me deixou com vontade até mesmo de ler o livro. Com isso, pensei em escrever sobre como estamos vendo tantas reprises de clássicos como ele chegando aos cinemas, proporcionando para tanta gente experiências novas como essa.

Só em 2025, além desse filme, eu também revi “Star Wars III”, “Interestelar” e “Harry Potter 4” (até escrevi sobre Harry no meu primeiro texto aqui do Peliplat), e poderia ter ido ver outros, como a comemoração dos 50 anos de “Tubarão”. Indo mais além com a memória, tenho recordações boas de relançamentos nos cinemas em anos anteriores, já tendo visto “Taxi Driver”, “Blade Runner”, os dois primeiros “Mad Max”… e várias outras lembranças de sessões que acabei deixando passar.

Em um texto de alguns meses atrás aqui do Peliplat, Dalenogare destaca que, até o final de 2025, os cinemas iriam receber cerca de dois relançamentos por semana, e divide os principais atrativos dessa prática entre nostalgia e dimensões tecnológicas. O que era comum no século XX (principalmente em uma época antes do home video) e teve um crescimento, anos atrás, com sessões pontuais de clássicos por parte dos exibidores, hoje está na regra e no dia a dia das sessões, fazendo parte das programações o tempo todo. Na maioria dos casos, as distribuidoras têm usado a premissa de datas comemorativas dos filmes, com marcos de 5 anos sendo motivo grande de relançamentos. Harry Potter, por exemplo, leva muita gente para as salas a cada comemoração de 20 anos, proporcionando experiências únicas que alguns nunca tiveram e que outros relembram o que viveram há muito tempo. E podemos destacar aqui um fato recente engraçado, com a animação “Madagascar” anunciando a comemoração dos seus 20 anos para janeiro de 2026, com 21 anos, parecendo que a distribuidora esqueceu e está correndo atrás. Ainda sobre 2026, já me coloco como primeiro da fila para o relançamento ainda não anunciado de “007: Cassino Royale”, que também completará 20 anos este ano.

O que está por trás disso é, em grande parte, um baixo custo de lançamento para as distribuidoras (muitas vezes, até mesmo sem os pôsteres do filme na entrada da sala, o que se destaca para quem olha com atenção), unindo-se à atratividade da qualidade técnica e exclusiva da tela grande. O cinema proporciona uma experiência diferente de se ver um filme em casa, com a atenção do espectador isolada na tela, sem poder pausar, assistindo em grupo com desconhecidos que comungam dos mesmos sentimentos naquelas duas horas. Isso é algo que, por enquanto, ver em casa parece não superar na cabeça de quem volta para esses relançamentos, e se torna um diferencial em um mercado em que os serviços de streaming estão dominando as novidades dessa indústria.

Certamente, o andamento do futuro próximo do cinema passa por cada vez mais clássicos sendo relançados. Ainda mais, focando em novas experiências imersivas. Eu nunca fui naquelas cadeiras de cinema 4D D-BOX que apareceram de uns anos para cá, mas já ouvi relatos de experiências que falam que, se for mais popularizado, é uma nova linguagem que traz uma evolução ao ato de assistir a um filme. Lucas Nascimento até publicou um texto aqui no Peliplat sobre isso, quando foi ver “F1: O Filme”. Ele diz que a experiência vai além de uma potencial percepção inicial de parecer mais um “parque de diversões” do que ver um filme no cinema, e que se destaca muito positivamente, pontuando que algum profissional programou os movimentos daquelas cadeiras durante horas junto à exibição do filme, dando destaque ao trabalho que tem por trás do que pode ser definido como uma inovação dessa arte. Além disso, “Matrix”, por exemplo, teve relançamentos recentes em sessões nos EUA com uma experiência imersiva única, que se popularizou por vídeos curtos nas redes sociais. Na experiência, a exibição se utiliza dos cantos da sala, extra-tela, causando uma imersão intencional e nunca antes vista, utilizando-se de aspectos tecnológicos de realidade aumentada. Veremos mais disso, com certeza, trazendo a experiência mais para perto de uma simulação imersiva.

O cinema é uma mídia muito nova perante outros tipos de arte, e abrir margem para novas tecnologias como essas faz parte da sua evolução. Com isso, o futuro do cinema passa por aí, trazendo a vantagem de se ir ao cinema para ter experiências que não se pode ter em casa. E a construção desse futuro passa por olhar para o passado, revisitando os clássicos e sempre se retroalimentando. Por isso, os clássicos do cinema e suas reprises não desaparecerão, e certamente farão cade vez mais parte do dia a dia dos cinemas. Alguns lançamentos de hoje, inclusive, se tornarão esses clássicos. Assim como, a cada ano, muitas pessoas descobrem clássicos da literatura e os leem pela primeira vez, o cinema também proporciona isso e, o que era o privilégio de gerações passadas por terem visto no lançamento nos cinemas (comparável às raras primeiras edições colecionáveis de livros) agora está se tornando mais democratizado. E eu fico feliz por ter tido isso com “Orgulho e Preconceito”!

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