Circuit Breaker
CrimeO sol de uma manhã recém-nascida iluminava todo o gabinete através das sombras horizontais da persiana. Pela vista da janela, a Ponte do Pina, cartão postal da cidade do Recife, já tinha suas luzes apagadas, mas ainda sem seu trânsito característico.
— Eu tenho certeza de que Tiago Tavares é culpado. — Rebecca falava com uma intensa preocupação, olhando atentamente para o investigador do outro lado da mesa, que parecia anotar mentalmente cada palavra que ela falava. — Tudo começou ontem à noite, em uma reunião online em que eu e ele participamos. Nosso gerente estava apresentando as últimas atualizações do novo protótipo da nossa empresa, o Leviatã.
***
No momento da reunião, na noite anterior, Tiago trocava mensagens com Rebecca. Eles moravam em Recife, mas trabalhavam remotamente, então as futilidades eram faladas por chat da mesma maneira que, em trabalhos presenciais, seriam faladas ao lado de um bebedouro. A Inteligência Artificial do Leviatã era, de fato, revolucionária, mas nada explicava mantê-los ali em uma reunião tão demorada. Lucas, o gerente, falara sem parar pelas últimas duas horas, preocupado com uma auditoria do protótipo que se daria na manhã seguinte. O auditor em questão, Beto Barbosa, era um renomado palestrante, referência no mercado financeiro, que deveria dar o aval sobre tudo o que havia sido prometido com o Leviatã. Ele já tinha o protótipo em mãos e chegara de São Paulo há algumas horas, tendo participado de um evento e com uma conversa marcada presencialmente com Lucas na manhã seguinte.
A reunião atual tratava da estratégia para o pós-resultado da auditoria, que era tão importante de se discutir até o último momento possível. A empresa dependia dos resultados dessa auditoria de forma histórica, com repercussões econômicas de interesse para muitas partes. Políticos falavam disso em entrevistas e havia suspeitas de espionagem industrial, com milhões sendo oferecidos por informações do Leviatã.
E, no meio disso tudo, Tiago era apenas um ambicioso e jovem estagiário que se levava mais a sério do que deveria. E ele planejava, junto com Rebecca, uma analista um pouco mais velha que ele, roubar o protótipo.
Combinaram de se encontrar, após o expediente, em um movimentado bar da Zona Sul da cidade, ao lado do hotel em que Beto Barbosa estava hospedado. Rebecca havia analisado os passos do auditor e concluído que ele iria para lá beber alguma coisa depois de um dia tão cansativo, antes de subir para o hotel. A aposta deles, conforme confirmado por Lucas, era de que ele estaria com um pen drive contendo o Leviatã guardado ali, em um dos bolsos, antes de subir para o hotel.
Tiago chegou com timidez e nervosismo latentes e encontrou Rebecca sentada a uma mesa reservada. A timidez aumentava a cada olhar dela, que o deixava desconfortável e, ao mesmo tempo, instigado a correr riscos. Os dois pediram petiscos e conversaram sobre seu plano, esperando Barbosa aparecer. A ideia era trocar o Leviatã, essa arma tão poderosa, por um pen drive exatamente igual, mas com uma cópia inofensiva, que faria com que a análise de Barbosa fosse negativa, causando prejuízos à sua empresa. Enquanto isso, eles iriam lucrar com a venda do protótipo real para concorrências estrangeiras. Rebecca já tinha um comprador certo.
Uma hora se passou até que Beto Barbosa entrou pela porta do bar. Nada mudou no ambiente, mas o clima para Tiago e Rebecca foi de arrepio na espinha. Eles acompanharam com os olhos enquanto ele se dirigia ao bar. Ele pediu um chopp na maior caneca possível e foi feliz por alguns minutos, na companhia apenas do seu celular.
Barbosa, então, pagou a conta e saiu do bar. Tiago e Rebecca se entreolharam e ela se levantou para seguir Barbosa a uma distância considerável. Tiago ficou sentado e pediu a conta ao garçom.
Tiago seguiu andando até uma rua nos fundos do hotel, onde ele e Rebecca tinham combinado de se encontrar. Sua chegada se passou, na sua cabeça, quase que em câmera lenta. A rua dos fundos do hotel estava escura e mal iluminada por alguns dos postes. Ele viu, primeiro, Rebecca de costas, agachada. Quando ela virou, desesperada ao som dos seus passos, Tiago pôde perceber na frente do quê ela estava agachada. Era o corpo de Beto Barbosa, pálido e sem vida. Rebecca percebeu que ele estava ali, mas pareceu não dar cartaz e voltou sua atenção ao corpo. Ela parecia procurar por algo. Foi então que Tiago percebeu… ela procurava pelo pen drive do Leviatã. Rebecca repetia para si mesma que não estava ali.
— O que aconteceu? — Tiago perguntou, tentando esconder o desespero de estar de frente a um corpo morto, enquanto se abaixava para falar com Rebecca.
— Não sei… eu… eu cheguei aqui e ele já estava assim. — Rebecca respondeu, evitando o olhar de Tiago.
— Certo. Alguém deve ter descoberto que a gente…
— Lucas. — Rebecca retrucou seriamente. O som daquele nome fez Tiago arregalar os olhos. Seria possível que o gerente do projeto do Leviatã tivesse tido a mesma ideia que eles? E, mais do que isso, que tivesse premeditado o plano deles para agir um passo à frente? — Tiago, não podemos deixar ele se safar com isso. As consequências seriam…
— Exatamente o que estávamos tentando fazer. Só que agora estamos do outro lado.
— Não. É bem pior. A gente estava tentando substituir o protótipo. Agora, ele sumiu e esse auditor aqui está morto.
— É bem sério mesmo. O mercado não vai aguentar. — Tiago percebeu na hora o tamanho do buraco em que eles estavam inseridos. — Vai ser pelo menos um Circuit Breaker, na certa. Precisamos encontrá-lo antes do mercado abrir. Tiago mostrou a tela bloqueada do seu celular com o relógio marcando dez horas da noite. Eles teriam doze horas até a Bolsa abrir.
Circuit Breaker se refere a um tipo de “disjuntor” do mercado financeiro. É uma proteção para momentos de alta volatilidade, que é acionada quando a Bolsa oscila com quedas rápidas e volatilidade de 10% com relação ao fechamento do dia anterior. Com isso, todas as operações são paradas por meia hora.
— Isso pode, inclusive, fazer parte do plano dele. Mas, calma, antes disso... — Ao falar, Rebecca olhava para o corpo de Barbosa, encolhido e de lado como se estivesse dormindo. — O que vamos fazer com ele?
— Oi? Nada, né? Podemos chamar a polícia anonimamente.
— As câmeras do hotel nos viram vindo até aqui. — Rebecca falava com um olhar de reprovação. — Se encontrarem um corpo, já era para nós dois. Mas se não tiver nenhum alarde, vamos sair bem.
— O que você está querendo dizer?
— Nós temos que esconder o corpo.
Tiago ficou tenso de vigia do corpo e em todos os minutos que se seguiram, enquanto Rebecca entrava no hotel para roubar sacos de lixo e um carrinho da limpeza, que eles usaram para carregar o corpo de Beto Barbosa até um terreno ao lado. Largaram ele dentro de uma lixeira grande, cobrindo com os sacos e deixando para o caminhão do lixo encontrá-lo. A frieza de Rebecca e a possibilidade de ela pensar em algo como aquilo faziam Tiago se perguntar como tinha se envolvido nisso. Logo ele, com uma carreira brilhante pela frente. Ele tinha aceitado esse roubo com o propósito de fazer dinheiro fácil e de se destacar no mercado, como se pegasse um elevador para subir a escada corporativa. Mas ele não imaginava que ninguém ia morrer no meio dessa história.
— Certo, que horas são agora? — Rebecca perguntou, mantendo a calma.
— Onze e quarenta.
— Ok. Podemos nos dar ao luxo de uns vinte minutos de planejamento
Os próximos minutos foram de uma tempestade de ideias da parte de Tiago e de silêncio de Rebecca. Tiago acabou lembrando de uma colega da sua faculdade, Wanda, que era uma espécie de hacker e que poderia ajudá-los a encontrar o protótipo do Leviatã e impedir Lucas a tempo.
Rebecca concordou em tentar ligar, ao se certificar de que Wanda era confiável. Tiago fez a ligação na hora e se surpreendeu com a confirmação e a abertura tão rápidas da pessoa do outro lado da linha. Ele confirmou com a cabeça que poderiam ir encontrá-la em seu apartamento na Zona Norte. Eles tinham um destino, só precisavam cruzar a cidade.
— Wanda não é o nome verdadeiro dela, é? — Rebecca perguntou.
Tiago disse que não com a cabeça.
O carro de Rebecca estava estacionado no bar em que eles estavam anteriormente, que já contava com os garçons fechando as portas, colocando cadeiras em cima das mesas e quase expulsando os últimos clientes. Eles entraram no carro e ela deu partida.
O caminho da Zona Sul à Zona Norte do Recife, durante a madrugada, é calmo e sem muitas surpresas. Eles passaram por grandes avenidas e viadutos e pontuaram que não tinha trânsito nenhum naquela hora. Mas, como um todo, a viagem foi de silêncio. Chegando perto do endereço que Wanda tinha dado, perceberam a cidade ficando mais antiga e arborizada. Ao estacionarem, Tiago olhou novamente para o celular, que já marcava pouco mais de meia-noite.
Os dois saíram do carro e falaram com o porteiro de um velho prédio que, por sua vez, interfonou para Wanda na hora. Ela liberou a entrada deles. Eles subiram, tocaram a campainha e esperaram ela abrir a porta.
— Boa noite. — Wanda abriu a porta e se dirigiu aos dois, esticando a mão para cumprimentarem. Um após o outro, apertaram a mão dela.
— Wanda, você salvou a gente de uma roubada tão grande. Muito obrigado. — Tiago começou a falar. — Ah, e essa aqui é Rebecca, ela trabalha comigo.
— Encantada. — Rebecca falou com um pouco de deboche na voz.
— É uma satisfação. — Wanda respondeu, percebendo a ironia. — Podem entrar, mas, antes de continuarmos, vamos ter que negociar o pagamento.
Tiago se surpreendeu na hora. Ele pensava que aquilo tudo ia ser um favor, mas entrou apressadamente, seguido de Rebecca. O apartamento era um reflexo da cidade do Recife, com elementos antigos se misturando à tecnologia. Piso de madeira, paredes com pedras aparentes, mas com uma televisão grande com caixas de som ao lado e um ambiente para computador cheio de luzes de neon. A televisão estava ligada em comerciais que pareciam sem fim, e na hora em que eles entraram, um anunciante destacava “Compre já em 12 vezes sem juros”, convencendo o espectador de que era bom se endividar.
Wanda perguntou detalhes sobre o problema deles. Rebecca relutava em revelar e Tiago falava como se não houvesse consequências, contando tudo para ela como que em uma confissão a um padre. Ele só queria se livrar desse assunto todo e dormir tranquilo. Por fim, chegaram a um acordo sobre o preço, que Rebecca que pagaria, e se dirigiram ao computador de Wanda.
Tiago nunca tinha visto nada como aquele computador. Parecia algo saído de um filme de ficção científica, com luzes para todos os lados e botões que ele não fazia ideia de para que serviam. Wanda ligou a máquina, o que fez com que os rostos dos três se iluminassem na mesma hora. A tela de início, bloqueada, pediu login e senha. Wanda, então, abriu uma gaveta ao seu lado e fechou os olhos com uma decepção aparente.
— Eu… não estou com ele.
— Oi? — Rebecca perguntou genuinamente.
— Meu caderno com minhas senhas não está aqui.
— Caderno com senha? Você não sabe a sua senha?
— É uma senha bem segura, difícil de decorar.
— E você anota em caderno? Em que século você acha que estamos? Uma hacker que nem você deveria…
— Vocês se surpreenderiam. Papel é o meio mais seguro de salvar suas senhas. Podem anotar isso aí.
Tiago soltou um risinho, depois de ficar calado durante toda essa discussão.
Wanda se levantou sem falar nada e foi até seu quarto procurar o caderno. Ela voltou sem nada, mas segura do que ia falar.
— Tiago.
— Opa.
— Meu caderno realmente não está aqui, mas eu tenho uma missão para você. Eu sei onde ele está, felizmente.
— Certo.
— Acabei de te mandar um endereço pelo WhatsApp. É aqui do lado, dá para ir andando. Você vai até lá, fala com o dono e pega o meu caderno.
— Entendi. — Tiago falou, com receio. — Qual é o nome dele?
— Você vai entender na hora. Ele deve se apresentar.
— Não dá para, simplesmente, mandar uma mensagem para esse cara?
— Não, com Ele é um pouco mais complexo. Ou mais simples. Você vai ver.
— Eu vou com você. — Rebecca se intrometeu.
— Não, não. — Wanda insistiu. — Tiago precisa ir sozinho. Ele não vai receber o que queremos se você for com ele.
Tiago não estava entendendo nada, mas balançou a cabeça positivamente para Rebecca, que devolveu o aceno. Ele andou até a porta, deixando as duas mulheres no apartamento.
***
— Essa é uma parte da noite que eu não vou saber dizer o que aconteceu. Tiago foi sozinho atrás desse caderno. — Rebecca disse ao investigador.
***
O relógio no celular de Tiago mostrava meia-noite e meia, enquanto ele andava na rua escura, com medo. O prédio do endereço que Wanda mandara ficava a um quarteirão dali, mas a rua escura e deserta trazia tensão e insegurança para ele. Ele chegou ao endereço e viu as grades do prédio abertas, sem portaria. Apenas uma luz no sétimo andar estava acesa, e era justamente o andar do endereço. Não havia porteiro, e ele hesitou por alguns segundos antes de entrar. Quando entrou, procurou por elevadores, mas só viu uma escada, que ele subiu. Chegando ao andar, havia uma única porta, com inscrições aparentes que Tiago não entendeu.
Tiago bateu na porta. Sua insegurança parecia ter ido embora parcialmente. Uma pessoa abriu a porta. Era o Filho do Homem, sorridente, de barba e cabelos longos, que aparentava ter trinta e poucos anos. Tiago sentiu paz e entrou.
Ele convidou Tiago para se sentar, puxando uma cadeira na entrada do apartamento. As chagas nas palmas das mãos estavam aparentes. Então, perguntou o que Tiago queria ali.
— Wanda me mandou aqui. Ela perdeu um caderno. Um caderno com senhas.
— Ah, sim, sim. Wanda, que na verdade é Débora, me conheceu um tempo atrás. O caderno está aqui. — Ele mostrou que o caderno já estava sobre a mesa.
— Quem é você?
— Algo me diz que você já me conhece.
— Você… você mora aqui?
— Eu moro aqui com meu Pai e a Terceira Pessoa. Mas somos um só.
— O que eu estou fazendo aqui?
— Tiago, você escolheu vir aqui. Débora te deu um empurrão, mas você veio com as próprias pernas. Eu vou te mostrar o caminho, te dando este caderno, e parece estar bem claro o que fazer a partir de agora.
— Por favor, eu preciso que o Senhor me explique como se eu tivesse cinco anos.
O Filho do Homem riu.
— Tiago, sempre tem uma saída. Preste atenção à sua volta e perceba. Eu tenho uma história para você. Dois homens subiram ao templo, a orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.
— Eu não quero mais isso. Quero ir para casa, tomar um banho quente, dormir e fingir que nada disso aconteceu.
— Mas, Tiago, aconteceu. Você não tem que abaixar os olhos para o que é ruim. Só encare com coragem e amor.
— E sobre o corpo que encontramos? E Lucas? O que é o certo a fazer?
— Você deve abrir os horizontes da sua mente para o que está acontecendo. Quando for confrontar a verdade, aga com misericórdia.
— Eu tenho que me entregar?
— Você tem que perdoar. Se há uma conversão real acontecendo, uma metanoia, você vai saber o certo a fazer. Você acha que é o protagonista desta história, e eu entendo o que está acontecendo no seu coração. Você entendeu?
— Eu tenho medo do que é certo a fazer.
Quando Tiago deixou o prédio, estava chovendo. Ele se molhou, mas estava confiante e começou a andar de volta ao apartamento de Débora, com o caderno em mãos. Seu celular mostrava que já eram duas da manhã, apesar de a conversa ter parecido ser tão curta. Quando chegou ao prédio de Débora, ele entrou apressado, com o porteiro preocupado com a chuva.
Ao entrar pela porta do apartamento, ele olhou para Débora e os dois se entenderam. Rebecca estava por fora da comunicação visual dos dois.
Tiago entregou o caderno a Débora, que abriu em uma página pelo meio que parecia ter muitas senhas. Ela foi direto para a que precisava e fez login no computador. Alguns minutos depois, ela fez um sinal para eles olharem para a tela.
— Aqui, nessa área do mapa, tem um sinal muito incomum. Muita energia sendo usada por lá, o que faz sentido. A menos que tenham ido para o aeroporto, parece ser o único lugar próximo em que o Leviatã poderia ser usado.
— Onde? — Rebecca perguntou, com agonia.
— Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco.
A segunda viagem de carro de Tiago e Rebecca foi diferente da primeira. Agora, em direção ao campus da Universidade Federal na Zona Oeste, o caminho continuava livre e sem trânsito, mas Tiago tinha mudado sua visão de mundo e parecia observar bem mais, prestando atenção aos moradores de rua que sofriam com a chuva forte.
Eles chegaram ao campus às três da manhã. O ambiente estava deserto e muito escuro, digno de um filme de terror. Eles se dirigiram pela entrada do campus, que não tinha nenhuma cancela, avançaram passando pelo Departamento de Medicina, pela Biblioteca Central, virando no Centro de Artes e Comunicação, passando pelo de Tecnologias e Geociências, até que chegaram ao final do seu destino, a entrada do prédio do Centro de Informática. Eles estacionaram e desceram do carro. A noite estava afogada em um silêncio ensurdecedor.
Eles foram em direção à entrada do prédio, sem nenhum segurança visível.
— Você… você ouviu isso? — Tiago sussurrou para Rebecca, direcionando sua cabeça para um corredor escuro. Ele não esperou a resposta dela e correu nessa direção, saindo de vista.
Rebecca só ouviu uma alta pancada e o som de um corpo caindo no chão.
***
— Esse foi o momento mais tenso da noite. — Ela continuou falando para o investigador. — Tiago Tavares mostrou quem era exatamente nessa hora. Ele ligou o Leviatã em um dos computadores e me deixou presa. Esse homem é um monstro, um monstro!
O investigador percebeu o pânico em sua voz e, por alguns segundos, manteve o rosto sério, até que sorriu para ela. Ela retribuiu o sorriso até que os dois começaram a gargalhar. O homem levantou-se e cruzou a mesa, levantando Rebecca pelos braços. Em seguida, o investigador e Rebecca se beijaram intensamente.
— Você convenceria qualquer um com essa conversa, meu amor. — Aquele que parecia ser um investigador falou para ela. — Eu tenho certeza de que, quando for um policial de verdade no meu lugar, é capaz de te dar um prêmio por essa atuação.
Rebecca riu e concordou, fingindo estar encabulada, enquanto limpava as lágrimas.
— Melhor eu ir me arrumando, porque já está quase na hora. — Rebecca disse isso enquanto olhava seu relógio de pulso. Eram oito e meia da manhã.
Os dois saíram do escritório e se dirigiram a um depósito ao lado. Ali, Tiago se encontrava desacordado, amordaçado e amarrado a uma cadeira.
— Eu fico aqui cuidando dele. Não acho que ele vá a lugar nenhum. — O homem falou.
Rebecca, então, deu um beijo de despedida nele enquanto saía. Ela chamou o elevador e desapareceu pela manhã.
Os olhos de Tiago estavam pesados enquanto ele voltava a sentir cada parte do seu corpo. Ele se sentiu apertado, e então percebeu que estava amarrado a uma cadeira, e não estava respirando direito, foi quando percebeu que estava amordaçado. Ele olhou para os lados e percebeu o cubículo minúsculo em que se encontrava. E, então, ele sentiu a pancada que tinha levado na cabeça algumas horas antes e alguns cortes pelo seu corpo. Ele tentou fazer um barulho. Não deu um minuto para que a porta à sua frente fosse aberta e um homem grande e ameaçador, o companheiro de Rebecca, entrasse.
O homem entrou com uma risada maléfica, e retirou a mordaça de Tiago. Ele falou alguma besteira que Tiago não entendeu direito. Tiago o surpreendeu não perdendo tempo e se jogando contra ele. Os dois lutaram arduamente por alguns minutos, até que o homem vacilou a ponto de Tiago usar parte de sua própria cadeira para desacordá-lo. Tiago se viu só com a roupa do corpo, preso a pedaços de uma cadeira quebrada, mas pegou o celular do homem caído, desbloqueando com o rosto dele. Tiago, então, viu mensagens de Rebecca e entendeu que estava sendo usado por ela. Ele desceu de elevador e estava pronto para pedir um carro de aplicativo, até que a bateria do celular morreu. Ele ficou desesperado por alguns segundos, mas logo depois começou a andar.
O escritório em que Tiago estava preso ficava ao lado da Via Mangue. Ele, então, fez todo o percurso dessa via expressa a pé. Ele se dirigia para um restaurante ao ar livre em que Lucas estaria pronto para se reunir com Beto Barbosa. Ou ele pensava que iria se reunir.
Lucas se surpreendeu com a chegada de Tiago pela rua, mas manteve a calma. Chegando perto da mesa, Tiago ouviu algo estranho vindo da mesa ao lado. Um pai tomava café da manhã com uma criança, enquanto lia notícias em um tablet. A criança olhava para a notícia e apontava para Tiago, gritando “Papai, papai! É ele! O moço da foto”. O pai tentava segurar a criança.
Lucas, então, olha sério para Tiago, preparado para falar sobre isso.
— Tiago, eu vim para cá para tomar café com um auditor de um trabalho nosso. Cheguei aqui para descobrir pela internet que ele está morto e você o matou. Essa é literalmente a maneira que eu menos esperaria te encontrar depois de tudo isso.
Tiago, então, desaba de cansaço e consegue falar:
— Você acha que, se tivesse sido eu, eu estaria aqui, e desse jeito? Eu já teria saído do País.
— As notícias falam que Rebecca que te delatou. Você está sendo procurado. O mercado abre já já, cara.
— Ela estava colocando a culpa em você.
— Como é?
— Para mim. Quando encontramos o corpo de Beto, estávamos procurando rastros seus.
— Eu nunca soube de nada disso. Nem tudo é uma conspiração, Tiago. Eu só quero fazer o meu trabalho e viver tranquilo.
Tiago, então, com toda força que lhe restara, se humilha para Lucas e conta toda a verdade. Ele mostra que está com o celular do namorado de Rebecca e eles começam a bolar um plano. Lucas combina com Tiago que daria para ele um tempo de vantagem, até chamar a polícia, já que estavam ali reunidos em um lugar público.
Rebecca atende seu celular diretamente de seu esconderijo. Ela fica feliz, achando que estava falando com o seu companheiro. Ela ouve a voz dele, percebendo desespero e urgência. Ele diz que está indo encontrar com ela, e ela revela que está em uma casa de praia dos dois, esperando dar a hora de ir para o aeroporto. O voo de Rebecca seria dali a algumas horas, e ela confirma que conseguiria esperar por ele.
Do outro lado da linha, Débora e Tiago se cumprimentam com um olhar.
Rebecca esperava ainda tensa, quando viu um carro se aproximando pela sua janela. A casa de praia era pequena e à beira mar, e ela estava na sala de estar, preparada para fugir. O carro estaciona e Tiago sai dele. Ele abre a porta da casa sem nem bater. Os dois se encaram.
Tiago olha para a hora em um relógio de parede e sorri. Pouco mais de dez da manhã.
— Irônico, não é?
— Como é que você fugiu, estagiário?
— Acho que eu sou abençoado.
— Por que você veio aqui? Se eu fosse você, teria ido atrás de fugir, nem limpar o meu nome necessariamente, mas sobreviver.
— Eu vim aqui para fazer justiça, Rebecca. Você passou a perna em mim, que ganância desnecessária.
— Vai dar uma de bom moço agora, cara? Você que sempre teve uma ambição ridícula, se achando melhor que os outros. Facinho facinho de manipular.
— Eu imagino que você tenha o mesmo comprador que você me falou. Mas vou chutar que a cifra é maior do que você me disse. Aumenta o quê, umas cinco vezes?
— Tiago, Tiago, meu querido, você não sabe de nada.
— Como assim?
— O Leviatã. A maior arma tecnológica que o mundo já viu. O mais próximo de uma consciência real que uma IA pode chegar hoje. E foi construída aqui em Recife. Que poder gigante. Quem diria que ficaríamos tão grandes? Uma IA que, se ativada acabaria com economias e faria todo mundo correr para tirar dinheiro em espécie na mesma hora. Um colapso econômico. E você acha que eu quero vender esse poder? Só para ficar obscenamente rica? Só por isso?
— Você não faria isso.
— E você acha realmente que eu sou uma vilãzinha de filme de super herói revelando cegamente o meu plano? Eu FIZ isso, quinze minutos atrás. Você olhou para o relógio na parede, mas esqueceu de olhar para o seu aplicativo da corretora. Já estamos no meio de um Circuit Breaker. O mundo já está numa loucura.
— Meu Deus…
— Se eu fosse você, eu fugiria para limpar o meu nome. Por mais que você revele alguma coisa sobre mim, não tem mais jeito.
— Não, não, Rebecca. Sempre tem uma saída.
O semblante de Rebecca ficou mais sério. Tiago tira o celular do bolso e mostra que estava gravando tudo, com o celular do namorado dela.
— Tiago, você não seria inocente a esse ponto. Uma humilhação assim para o seu nome. Pense na carreira que você ia ter. Agora, eu vou cair, mas você vai ser preso também.
Nesse momento, sirenes calam os dois, com várias viaturas chegando ao local. Tiago se ajoelha e coloca as mãos para cima, já se preparando. Policiais batem na porta e, sem resposta, arrombam. Eles entram, olham para a cena e algemam Tiago ajoelhado. Rebecca resiste, mas não é o suficiente.
O sol de uma manhã pela metade iluminava o mar enquanto os dois criminosos eram levados pela polícia.




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