Assisti F:1 O FILME em uma cadeira D-BOX e preciso falar sobre isso!

Críticas Gerais

Após alguma resistência, eu finalmente cedi a um artificio de salas de cinema que nunca foi muito minha cara: o D-BOX, cadeira especial da rede Cinemark de simulação de movimento. Sempre achei que esse tipo de tecnologia estaria mais ligado a uma experiência de parque de diversões do que uma obra cinematográfica. Eu admito, houve um pouco de pedantismo aqui, quase como quando Martin Scorsese se referia a filmes da Marvel como atrações de parque de diversão, e não cinema propriamente dito. Enfim, acabei embarcando nessa aventura no último final de semana, para revisitar F1: O Filme com minha esposa - longa que já havia conferido no formato IMAX, mas sem grande entusiasmo.

 

Na minha concepção inicial, imaginei que a tal da D-Box seria um grande artifício básico: uma tremedeira e uma vibração aleatória, algo literalmente de um simulador de shopping. Preciso admitir e reconhecer meu gigantesco equívoco, já que a experiência foi simplesmente espetacular, ainda mais para um filme como F1, que literalmente ficou mais aproveitável graças ao recurso extra.

 

O dispositivo é literalmente em uma cadeira separada das demais, localizadas no centro da sala. A experiência só começa de fato durante o filme, após os trailers e comerciais de praxe, onde é possível ajustar a intensidade dos movimentos (usei a máxima). Logo nos minutos iniciais, que abrem com uma tomada serena de ondas do mar interrompidas por imagens de arquivo de um carro de Fórmula 1, já pude sentir que isso era algo muito divertido. Porque não é de fato uma vibração e sacudida aleatória como imaginei, mas uma técnica bem calculada e inteligente de como elevar os sentidos: a cadeira obviamente treme e sacode na intensidade e movimento dos carros e veículos, de maneira muito precisa e impactante, mas também me impressionei com a capacidade da cadeira de acompanhar um movimento de câmera, uma batida da trilha sonora ou até algo mais trivial, como um zíper se fechando.

 

Algum profissional literalmente deve gastar horas programando o sistema de movimento da cadeira, e ainda deve assistir ao filme inúmeras vezes para escolher os melhores pontos de vibração, e a forma como esse dispositivo vai operar. É uma imersão que um óculos 3D nunca me deu, e que uma sala IMAX poucas vezes me ofereceu nessa capacidade (excluindo aí alguns dos filmes de Christopher Nolan), e ajuda tremendamente o fato de que o D-Box parece perfeitamente alinhado para o estilo de direção realista e prática de Joseph Kosinski, que havia feito algo similar com o bem-sucedido Top Gun: Maverick há alguns anos.

 

Arquiteto transformado em cineasta há alguns anos, Joseph Kosinski vem trazendo um olhar preciso e elegante para todos os seus trabalhos: TRON: O Legado, Oblivion, Homens de Coragem, Spiderhead e o próprio Top Gun: Maverick são filmes que, mesmo com suas respectivas limitações de roteiro, oferecem experiências visuais deslumbrantes, e desde que debutou como diretor em Hollywood há 10 anos atrás, vem se especializando na arte de contar histórias. Kosinski tem uma admirável colaboração com o diretor de fotografia Claudio Miranda, e os dois atingem alguns dos maiores picos de suas carreiras com F1.

 

 

O motivo de a D-Box ter funcionado tanto com este filme em especial, é a visão de Kosinski. Mantendo a mesma métrica que desenvolveu ao lado de Tom Cruise em Top Gun: Maverick, a ideia central de F1 é inserir o espectador no centro da experiência, literalmente fazendo-o se sentir no assento de um carro de Fórmula 1, adotando a perspectiva de câmera em primeira pessoa e, talvez o mais impactante, as câmeras acopladas em veículos reais. É um sistema altamente complexo e que realmente valoriza o orçamento alto da produção, e que prioriza os efeitos práticos aos de computação gráfica - não que F1 ou outros filmes de Kosinski nunca tenham usado CGI, mas a combinação das duas tecnologias é crucial para o resultado final.

 

E é realmente uma experiência de cinema. Seja pela tela grande, ou o IMAX ou até a tecnologia do D-Box que se tornou minha mais recente paixão, a união de tecnologia e visão do diretor estão a todo vapor em F1. Eu até relevei o trabalho de roteiro mediano de Ehren Kruger, que dessa vez não contou com o apoio de Christopher McQuarrie (que refinou o roteiro de Maverick) e acabou trazendo algo mais clichê e formulaico, então é um daqueles casos onde a forma de fato vai ser mais valiosa do que o conteúdo. É a clássica jornada de um piloto veterano (Brad Pitt, no auge do carisma) que acaba entrando em conflito com um mais jovem (a revelação Damson Idris), de uma geração mais recente, e o embate acaba se refletindo em discussões verbais, mas com o grande destaque se tornando as corridas; é a máxima onde emoções e sentimentos são traduzidos através de grandes cenas de ação, que se sobressaem sobre qualquer intriga pessoal ou, no pior caso, um romance absolutamente descartável entre Pitt e uma engenheira vivida por Kerry Condon.

 

Não poderia deixar de mencionar também o outro elemento que foi exacerbado pela experiência imersiva, e o filme todo num geral, que foi o trabalho sonoro. O som dos motores, pneus, carros e ferramentas são absurdamente bem desenhados e mixados, no sentido em que a sala literalmente tremia (e a cadeira mais ainda) durante as mega elaboradas sequências de corrida. Ao lado dos efeitos sonoros, há também a excelente trilha sonora de Hans Zimmer, uma das joias da cartelas do produtor Jerry Bruckheimer, que oferece mais uma impecável mistura de orquestra, eletrônico e techno; bem acompanhado também de canções pop bem escolhidas.

 

F1: O Filme não é exatamente um grande filme, mas é mais um exemplo onde a experiência eleva o conteúdo completamente. Também destaco o quanto gostei da cadeira de simulação de movimento, e me arrependo de não ter assistido a uma variedade de outros títulos nesses últimos anos. Gravidade, Dunkirk e o recente Twisters são alguns dos filmes que eu desesperadamente gostaria de ter conferido no formato. Mas, de qualquer forma, agora ficarei de olhos bem abertos para mais experiências assim. Em tempos onde o cinema precisa se reinventar, talvez um pouco de “parque de diversão” não seja uma má ideia.

Comentários 1

R
Rafael Valfogo1 de outubro de 2025
Arrasou!

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