Os Indesejados
Críticas GeraisNo começo, havia dois irmãos.
Seus nomes eram Myttos e Habb, e ao contrário do que uma mãe poderia ansiar de sua prole, o amor não era seu elo. Apenas o ódio movia os espíritos de Myttos e Habb, que não se suportavam desde o momento em que ambos nasceram; ou talvez até antes, quando compartilhavam do mesmo útero. Dada angústia entre as duas criaturas, a mãe morreu durante o parto, deixando-os com a avó.
Durante o crescimento dos irmãos, a situação não apresentava sinais de mudança. Quando Myttos foi bem sucedido em plantar sua primeira semente de feijão no quintal da família, lá veio Habb para arrancar sua raiz e queimar o solo para impedir novas tentativas. De forma similar, quando Habb se orgulhava de suas caçadas, Myttos queimava os animais mortos e oferecia-os como sacrifício aos deuses superiores. Um ciclo sem fim de vingança, violência e uma categoria de maldade que não era aquela típica de dois garotos em fase adolescente. Era simplesmente maligno.
Cheia de pesar no coração e parasitas na mente, a avó recorreu a um ultimato perturbador. Farta do conflito mortal e mesquinho entre seus descendentes, ela fez um pedido a os deuses, invocando poderes superiores: suplicou para que seus netos tivessem controle de todo o poder do Universo, mas que fossem incapazes de usufruir de suas riquezas.
Quase que instantaneamente, Habb e Myttos foram atingidos pela oração da avó. Perderam a Humanidade biológica, que espiritual nunca existiu, e transformaram-se em criaturas místicas conhecidas como Gênios. Eram capazes de fazer literalmente qualquer coisa: moldar a matéria, manipular o tempo e alterar o Universo à própria vontade. Melhor dizendo, não às suas vontades próprias. Como Gênios, ficariam aprisionados em receptáculos físicos: uma lâmpada e um baú. Só poderiam usar seus poderes se libertados por humanos, que se tornariam seus mestres por um período limitado de tempo. A magia só poderia ser usada para servir os desejos pessoais de seus respectivos mestres.
Em sua última interação conhecida com os netos, a avó levou cada receptáculo para um canto do mundo, separando-os. Até que alguém os encontraria, em momento de grande necessidade.
Do contrário, ficariam trancados em suas prisões pela eternidade…
1867
Os olhos de Vicente Alamos abriram assustados quando a marola do oceano tocou seu rosto. Estava apoiado na praia de uma ilha minúscula, sendo seguido por destroços da madeira de seu navio. Nunca se considerou um Primeiro Imediato competente, mas fazia seu melhor. Agora, era o único sobrevivente de uma violenta tempestade de raios, que atacou sua tripulação de forma repentina. Sua perna sangrara incessantemente, mas o esforço o levou para fora da água.
Buscava por itens de auxilio ao mesmo tempo em que tentava manter sua consciência acesa. A dor perfurava seus músculos, provavelmente perfurado por uma das ripas de madeira destroçadas. Usava as mãos para escavar a areia e se locomover, agora preocupando-se com o sol ardente. Entre as madeiras, havia algo que o Capitão o proibira de inspecionar: um baú pequeno, trancado por chave. O impacto havia danificado sua fechadura, que agora poderia ser aberta. Levado por seu instinto, Vicente a abriu, mas ficou decepcionado ao nada encontrar lá dentro.
Após alguns segundos, sentiu uma pontada na cabeça, uma gigante crise de enxaqueca. Pensou que era a Morte vindo buscar-lhe afinal, e agonizou. Aceitou seu destino, rezou uma prece com a voz interior e fechou os olhos. Foi despertado alguns segundos depois por um homem usando túnicas reluzentes e brilhantes, que lhe acenou com a mão.
“Olá, Mestre. Meu nome é Habb, e estou aqui para servi-lo para o que bem desejar”, disse a figura carismática e sorridente. Vicente ficou confuso, certo de que já habitava o plano seguinte.
“Quem é você, estranho?”, disse com a voz fraquejada.
“Você me libertou da minha prisão celestial, aquela pequena caixinha de madeira ali. É o tipo de elemento com força capaz de aprisionar um Gênio, que é o que sou agora. Como recompensa instruída a mim pelos poderes divinos, sou instruído a lhe oferecer três desejos”, reforçou Habb.
“Três desejos? O que eu quiser?”, indagou Vicente com uma ponta de esperança.
“O que o senhor quiser, Mestre. Não é do meu feitio fazer sugestões, mas posso lhe recomendar uma habitação melhor? Não me parece que está na mais confortável das condições”, disse o Gênio, fazendo menção ao sol escaldante que parecia piorar.
“Tudo bem. Quero sair daqui. Desejo que me tire desse pedaço de terra desgraçado”, disse o homem desesperado.
Habb respondeu com um simples aceno de cabeça, e subitamente os dois não estavam mais naquela praia. Apenas os destroços ficaram entre o mar, indo e voltando com a marola.
Vicente e o estranho Gênio agora estavam em um campo, próximo a um porto. Havia indícios de civilização ao redor agora, comprovando que não estavam mais na ilha deserta. Vicente, o Mestre, seguia impressionado e agora um pouco confuso, notando também que o baú de madeira agora estava em suas mãos.
“Como isso é possível? Estávamos lá, e agora estamos aqui! Isso é inacreditável, Gênio”, disse ele animado. Habb apenas acenou com a cabeça, mas algo parecia distraí-lo.
“Meu Mestre ainda tem mais dois desejos para serem atendidos. E ele deve se apressar, pois não estarei aqui, ao seu lado, para sempre”, disse ele.
Habb explicou algumas regras básicas para seu novo Mestre. Disse que seria impossível desejar que vivesse para sempre, pois era uma violação das leis naturais impostas a um homem mortal. Contrariando paradoxos, também estava proibido de dobrar ou aumentar seu números de desejos. Seriam três, e três apenas. Por último, da mesma forma que não se daria mais vida, também não a tiraria; Vicente jamais poderia desejar a morte de seu semelhante.
“Eu jamais faria isso de qualquer forma”, disse ele, a qual Habb apenas sorriu de forma maliciosa. Naturalmente, o Gênio agia há alguns anos seguindo sua própria conduta, perseguindo seus próprios interesses e missão divina. Ele começou a indagar Vicente sobre as circunstâncias que levaram ao encontro dos dois.
“A rajada elétrica que atingiu sua embarcação não foi provocada pela Natureza, Mestre. Dezenas de seus amigos e companheiros morreram, seu capitão agora perece nas profundezas do Atlântico, seu trabalho jamais completo. Não foi Deus o responsável pela sua desgraça, meu Mestre. Eu posso lhe mostrar o caminho, te dar satisfação e justiça”, disse Habb de forma levemente sinistra, a qual provocou um efeito determinante em Vicente.
“Eu quero saber”, disparou.
“Você precisa desejar…”, respondeu Habb.
“Eu desejo saber quem atacou meu navio e matou meus companheiros”, respondeu.
“Seu desejo é uma ordem, Mestre”. E assim, Habb novamente os transportou no espaço.
Agora, estavam em uma velha e decrépita torre de observação. Uma sala vazia com muitos objetos bagunçados; mapas, instrumentos e artigos de natureza valiosa. Vicente ficou confuso.
“Não entendo como isso responde meu comando, Gênio. É algum tipo de truque?”, indagou. Habb prontamente negou e ofereceu esclarecimentos: “A sua embarcação foi atacada pelo homem que habita esses aposentos, meu Mestre. E ele não atacou por força bruta militar ou sabotagem náutica. Meu Mestre sabe muito bem, estava no oceano no momento da tragédia. O sujeito responsável pelo ataque utilizou dos mesmos métodos que os seus: interferência sobrenatural, promovida por meu semelhante”, explicou.
“Seu semelhante? Outro Gênio, você diz? Achei que fosse o único”, disse Vicente com uma certa indignação.
“Sim, meu Mestre. Na verdade, meu irmão: Myttos. Fomos forçados a essa condição há séculos atrás. Todo esse tempo, ele vem tentando me destruir. Encontrou o baú que trancafia minhas habilidades no navio de seu capitão, e tentou extingui-lo da existência. É curioso que isso tenha feito meu caminho cruzar com o seu, meu Mestre”, disse Habb com certa malícia no olhar.
“Não posso desejar que você ataque esse outro Gênio? Usar sua magia contra a dele? Eu imagino que esse homem seria muito mais poderoso com ajuda divina”, insistiu, mas Habb parecia descrente: “Uma das muitas regras que tenho em minha concepção é a incapacidade de usar meus dons diretamente contra meu semelhante. É simplesmente impossível, meu Mestre. E o senhor também não pode fazer esse desejo”, explicou.
“O que pode fazer, claro, é provocar uma cadeia de eventos que levaria à destruição de nossos inimigos em comum”, provocou. Vicente começou a andar ao redor da sala, verificando com cuidado os objetos espalhados ali. Havia uma caixa de moedas de ouro, que ele deduziu ter sido o primeiro desejo de seu misterioso agressor.
“De que forma poderia fazer isso? Não acabou de me dizer que é impossível sua magia ser usada contra a dele?”, indagou. Habb logo respondeu que acreditava que “destruir o seu receptáculo, que na circunstância atual é uma velha lâmpada de óleo, poderia dar fim a seu santuário e fonte de poder”. É algo que ambos vêm tentando executar desde o início dos tempos.
Vicente então pediu orientação a Habb. Disse para explicar-lhe como proceder, como não desperdiçar seu desejo em apenas uma vingança pessoal, mas foi convencido de que um segundo Gênio também precisaria ser destruído. Sua companhia mística banhou-o com o conhecimento, deixando claro que suas magias deixavam rastros ocultos que apenas ambos poderiam encontrar. Myttos havia encontrado-o primeiro, mas agora liberto, Habb saberia o que fazer.
“Minha habilidade, ou maldição como alguns preferem chamar, está diretamente conectada à de meu irmão. É como uma onda que reverbera no oceano, mas só eu sou capaz de ouvir. Não é difícil descobrir onde ele está, se a frequência é forte e ativa. E sabemos que está ativo, já que usou um dos desejos para atacar seu barco. Deseje, meu amo. Deseje que eu encontre o maligno Myttos e destrua seu Mestre. Execute sua vingança, e eu terei a minha justiça!”, clamou o Gênio.
O marujo resgatado então fez seu desejo final, clamando que sua companhia mística armasse um confronto entre ele e seus inimigos.
Não acabou bem para nenhum deles, já que Myttos também preparava uma emboscada similar.
Assim, ambos os Gênios acabariam voltando a seus respectivos receptáculos por mais algumas centenas de anos, até serem encontrados novamente…
1944
As bombas voam pelos ares da França, tomada por exércitos sanguinários e conflitos monstruosos. Metralhadoras, tanques e gritos clementes ecoam por uma paisagem que outrora foi idílica e encantadora. Não há vestígios de nada assim no período em questão, muito menos no interior de um bunker abandonado e que chacoalha a cada explosão abafada.
Escancaram-se as portas de aço de uma sala privativa, onde o General Ardmore busca por refúgio. Está ofegante e com medo, mas também movido por uma ira emotiva, quase se manifestando através de lágrimas. Tira seu coldre, as pistolas e até o rifle de longo alcance das costas. Da cintura, ele apanha algo menor, e aparentemente inofensivo: uma lâmpada de óleo, a qual sente um prazer específico em jogá-la com força na parede.
“Gênio mentiroso! Você é uma praga na minha vida!”, vociferou Ardmore enquanto alinhava seus armamentos em uma mesa. “Me garantiu a vitória sobre os inimigos, e agora parece que só meu fim se aproxima. Maldito seja!”, continuou, enquanto as luzes piscavam.
A lâmpada permaneceu intacta, mesmo com a pancada bruta na parede de pedra. Evitando qualquer vestígio de aparição fantasmagórica, Myttos já estava ali ao lado do artefato; trajando vestes impecáveis de natureza oriental, ele fita calmamente o desespero de seu novo mestre humano.
“Meu Mestre. Devo lembrar-lhe do caminho que já percorreu até aqui? Das conquistas gloriosas que realizou ao longo desses últimos meses? Dificilmente o faria tão rápido por conta própria. O humilde mecânico de um oficial britânico que, como num passe de mágica, é catapultado para as posições do alto escalão do exército. Jamais desejaria contraria a sabedoria de meu amo supremo, mas não posso ignorar o fato de que está melhor agora do que estava antes de nossos caminhos se cruzarem naquele museu, há tanto tempo atrás”, disse Myttos em toda sua sabedoria.
Ardmore não se acovardou: “Não está totalmente errado, Gênio. Sim, é verdade que foi bastante útil na minha ascensão. Mas de que adianta essa gigantesca escalada, se no final vamos ser completamente destruídos? Você me prometeu autonomia completa!”, gritou o General.
“Meu Mestre ainda tem um desejo para realizar. Não se lembra?”, indagou Myttos.
“Sim. E depois disso, como você mesmo me disse quando nos conhecemos, você acabará voltando de volta pra sua lâmpada. E acabaria o meu privilégio de lhe libertar e ter mais desejos. É um tiro final, sem retorno”, afirmou Ardmore com rancor na voz e um par de olhos cerrados.
“Justamente por isso, meu Mestre, escolha seu último desejo com muito cuidado. Pode ser essencial para garantir o que quer. Todo o poder supremo que parece habitar sua mente e seu coração”, respondeu.
“Primeiro, eu preciso saber. E isso não conta como um desejo, sua cobra traiçoeira, é uma mera dúvida. Como diabos o inimigo conseguiu um exército tão forte e indestrutível da noite para o dia? Não me parece uma progressão natural e realista, entende?”, sugeriu.
Myttos entendeu completamente a linha de raciocínio. “Agora meu Mestre está pensando com clareza. Está perto da verdade. Assim como você, o inimigo está de posse de uma criatura como eu. Um Gênio, que acontece de ser meu irmão”, disse ele, com pesar na última palavra.
“Seu irmão? Então ele tem os mesmos poderes que você. Certamente é mais forte, dado o estado atual das minhas tropas”, balbuciava Ardmore até ser interrompido por sua companhia mística: “Nunca mais forte, meu Mestre. Se acertar na sua escolha de desejo, verá que não falharei contigo. Verá que eu, Myttos, sou a força mais poderosa que já habitou este mundo”, prometeu.
Ardmore pensou por um minuto, levemente amedrontado pela voz mais grave e determinada do Gênio. O relógio seguia correndo, enquanto as paredes do bunker tremiam com as explosões abafadas, que iam se tornando mais próximas. Desespero levou a realização no rosto do General.
“Eu quero o poder que os cientistas estão criando no deserto. Todo aquele investimento bilionário em desenvolvimento atômico, tão devagar. Eu quero isso agora, Gênio. Quero a bomba atômica em cima deles!”, disse o militar, agora quase psicótico.
“Jogar uma arma de tamanha destruição não vai aniquilar somente o inimigo, Mestre. Vai levar essa instalação inteira junto”, alertou.
“De forma alguma! Essas bases foram construídas para aguentar tempestades inteira. Certamente estarei protegido. E como você mesmo disse… O outro lado também tem um igual a você. Isso vai ser capaz de destruí-lo?”.
Myttos foi pego em um raro momento de dúvida. Naturalmente, estivera tentando destruir seu irmão desde que era capaz de lembrar-se. Viveu cada segundo de sua vida inesgotável perseguindo esse objetivo. Se seu poder seria capaz de destruir um igual, era algo ainda inconclusivo. Porém, Myttos tinha suas teorias.
“Sempre acreditei que se destruir o receptáculo onde o Gênio é aprisionado, ele deixaria de existir. Não haveria uma maneira física de aprisioná-lo, e assim seria acabado. Já foi comprovado que matando apenas seu Mestre, o Gênio é simplesmente trancafiado de volta”, explicou.
Ardmore sorriu, com ganância nos olhos.
“Você havia dito que eu não poderia desejar mais desejos. Mas parece que existe uma forma de conseguir mais poder, não é mesmo? Eu poderia usar meu desejo final para destruir o inimigo, e assim o outro igual a você voltaria para a lâmpada também. Eu recupero a lâmpada e tenho acesso a mais poder!”, conspirou o general, socando os punhos.
Ainda que carregando sua própria visão assassina que partilhou ao irmão desde o início dos tempos, nem Myttos foi capaz de compadecer com a fúria homicida de seu Mestre. No entanto, seu contrato era sagrado, e ele sabia que existia ao menos uma chance de destruir Habb.
“Deseje então, meu amo”, disse Myttos.
O General Ardmore então preparou sua grande proclamação, ansioso em libertar uma nuvem de cogumelo atômica por cima de seus inimigos…
2053
Muito tempo se passou desde que a primeira bomba atômica voou pelos ares, sob cortesia do desejo imprudente do General Ardmore. Nesse espaço, a dinâmica entre os irmãos Habb e Myttos permaneceu-se intacta: os dois seguiram usando de seus poderes e habilidades para influenciar seus respectivos mestres a destruir um ao outro. Apesar da engenhosidade empregada por ambos os lados, as consequências mostraram-se apenas na forma de morte para todos os outros, ironicamente, sem os irmãos Gênios entre os corpos.
Guerras, destruição e mais catástrofes seguiram-se por consequência da mão invisível dos Gênios. Indiretamente, ajudaram a Humanidade a se destruir por completo, acelerando uma extinção que, muitos filósofos poderiam atestar, iria acabar se concretizando por vias naturais da mesma forma. Se não estavam eles mesmo agindo como a mão da destruição, forneciam as ferramentas para o processo: quando o Homem parou de se matar, os desejos influenciaram na criação de instrumentos para lutar, matar e guerrear por eles; armas de destruição em massa evoluíram para códigos de computador, que invariavelmente acabaram revelando-se com fator ainda mais destrutivo; principalmente quando assumiram o controle das mesmas ogivas.
Milênios após a transformação dos irmãos, não havia mais Homem ou Mulher algum para libertá-los de suas prisões. Quase que em um instinto, a lâmpada e o baú libertaram Habb e Myttos. Distantes um do outro, ainda possuíam seu grande poder, mas que só seria utilizado pela mão humana. Mas de que adiantaria o Universo nas mãos, sem a palavra para autorizar sua libertação?
Os dois peregrinaram de forma solitária por dias. Incapazes de morrer, ficar doentes ou sentir fome, eles só andavam, atraídos pela presença um do outro. Ao seu redor, nada além de um cenário completamente desolado e sem vida; a Terra se transformara em uma casca árida e deprimente, um verdadeiro desperdício de espaço na vastidão do Universo.
Por fim, encontraram-se.
Nas ruínas de um grande centro comercial que um dia movimentou milhões de uma moeda que naquele período não era mais nada, Habb e Myttos sentaram-se para conversar; pela primeira vez em literalmente milênios, e agora sem o intermédio de qualquer humano que ditassem suas ações; era esse o gosto do livre arbítrio.
Sem tempo ou qualquer outro obstáculo pelo caminho, os irmãos mergulharam em reminiscências sobre suas ações. Destacaram a variedade de seus mestres humanos ao longo dos séculos. Os desejo irreverentes, a cobiça, a paixão e tudo o que levou o mundo àquele estado. Naturalmente, ainda se odiavam, e o motivo enfim parecia se revelar: Habb culpava Myttos pela morte de sua mãe durante o nascimento. Myttos, por sua vez, depositava essa mesma culpa em Habb.
Mas ao longo dos anos, a mesma verdade parecia pairar sobre a mente dos dois Gênios: a mãe havia morrido porque ela não queria viver na condição que lhe foi imposta. Não tinha o desejo de ter filhos, e acabou escolhendo a inexistência do que uma sobrevivência indesejada. Ironicamente, sua decisão acabaria selando não apenas o destino de Habb e Myttos, mas de toda a população do planeta Terra, que pereceria gerações no futuro como consequência desse embate místico.
Foi necessário uma infinitude de desejos, mortes e destruição em massa - além de toda a extinção da raça humana -, mas pela primeira vez na História, os dois irmãos encontraram a paz.
Não haveria mestre algum a servir, a não ser a si mesmos.




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