Harry Potter e as Crianças Assustadas
Críticas GeraisPensei um pouco para escolher o tema deste meu primeiro artigo por aqui. Gostei do desafio proposto no mês de Halloween, e acabei recaindo sobre o que também pode ser uma premissa aterrorizante: a procrastinação. Datando, então, este texto, estou entregando no dia 31 de outubro, último dia do desafio “Não É Terror, Mas Me Dá Medo”.
Resolvi, então, escolher um filme para falar com base em um interesse recente e bem nostálgico pelo qual eu estou passando: Harry Potter. Tenho voltado a ler os livros de uns meses para cá e achei bem pertinente trazer essa discussão aqui justamente com essa saga. Ainda mais pertinente por saber que esse filme específico está fazendo 20 anos e voltando para as salas de cinema em algumas semanas. Acredito, inclusive, que o mundo está se direcionando para um hiperfoco em Harry Potter, com imagens de bastidores para a nova série de TV e crianças de todo o mundo continuando a conhecer esse universo. Lembro-me, inclusive, de um vídeo que vi esses dias da booktuber Tatiana Feltrin em que ela comenta que os livros contemporâneos que, certamente, vão se tornar clássicos eternos são, muito provavelmente, os de Harry Potter.
Eu fui uma criança muito fã de Harry, e lembro como eu estava empolgado, em 2005, para ver O Cálice de Fogo no cinema. Eu tinha 8 anos, e lembro também que fiquei morrendo de medo, na época, por saber que a classificação do filme era para maiores de 10 anos… todos os outros até então eram Livres… o que será que tinha de diferente nesse? E eu ainda não tinha lido esse livro, apesar de que já lia os livros da série com o meu pai. Talvez eu tivesse começado o 4 quando fui ver, não lembro direito.
Mas, sim… tinha algo de diferente nesse. A cena mais macabra e pesada da série até então (e talvez de toda a saga). O retorno de Lord Voldemort, envolvendo um ritual sinistro de magia negra executado por Rabicho, e o primeiro encontro direto com um personagem morrendo na tela. Lembro que fechei os olhos quando vi, e demorei para revisitar essa entrada na franquia. Eu não era uma criança que gostava de terror.
E é engraçado perceber como aqui existe uma nostalgia bem específica de quem foi criança nos anos 2000. Conversando com um amigo e falando que eu estava pensando em escrever este texto, ele me relatou que, justamente por causa dessa cena, a mãe dele o proibiu de ver Harry Potter, e ele ficou sem assistir até o próximo filme da saga lançar. Entra muito aqui uma noção de adaptabilidade do público com o tom da série até então, a magia infantil trazida por Chris Columbus nos dois primeiros (que já havia sido desafiada por Alfonso Cuarón em O Prisioneiro de Azkaban), e a falta de consequências sérias para os personagens que acompanhamos. Assim, para aqueles que não estavam em dia com os livros, a morte de Cedrico naquela cena do cemitério foi impactante demais. Soma-se a isso o conservadorismo de parte do público sendo contra Harry desde o início dos livros, pelo tema de bruxaria, que acaba sendo alimentado por uma cena assim. Claro, sem que essas pessoas fossem a fundo nos temas e ensinamentos trazidos pela história que, de fato, são bem cristãos e virtuosos.
Não tem, porém, como falar em detalhes sobre essa cena do retorno de Voldemort sem citar a atuação memorável de Ralph Fiennes. O ator inglês incorporou o vilão com uma graça inesquecível, trazendo tons aristocráticos e de desprezo, junto a um trabalho impecável de maquiagem, que, tirando o seu nariz e dando nuances de cobra, causaram medo em todas as crianças que estavam ali assistindo.
O medo nessa cena também vem muito da ambientação liderada pelo diretor Mike Newell. A direção do quarto filme, comparada com o resto da franquia, acaba sendo bem subestimada. Por muitos anos, eu subestimei também, mas hoje vejo que, junto ao terceiro, esses dois filmes no meio da saga acabam trazendo uma identidade tão individual, que acabam fazendo falta quando olhamos para o todo. Newell fez só esse na saga, que é um filme diferente em sua filmografia, assim como Cuarón no terceiro. David Yates, diretor da maioria dos filmes da franquia, entra no próximo, e unifica muitos elementos visuais da série, o que faz sentido como olhamos para os oito filmes como um só produto, mas que me fazem sentir falta de uma liberdade visual de cada filme (penso o mesmo sobre a entrada de Christopher McQuairre em Missão: Impossível, ficando também, coincidentemente, do quinto ao oitavo filme).
Uma piada que vejo pela internet quando fala de Harry Potter nas conversas de livros e filmes de fantasia é que Voldemort é um vilão bem incompetente. Um exemplo disso é o fato de ele esperar Harry sempre terminar o ano letivo antes de atacar, se preocupando com a educação do menino, ou o fato de perder justamente para um adolescente todas as vezes. Porém, toda a cena em volta do “Agora, eu posso tocá-lo” proferido por Ralph Fiennes é de causar um incômodo e dar um frio na espinha, principalmente quando estamos acostumados com a leveza dos primeiros anos da saga. E, ainda que esta seja a primeira cena dele em todos os filmes, é justamente a mais memorável. Estou curioso para ver como vão fazer de forma mais interessante e diferente na série da HBO.
Anteriormente, citei que Harry Potter traz valores bem cristãos e virtuosos, o que pode vir como uma surpresa para muita gente, inclusive fãs da saga. Harry Potter, na sua extensão de sete livros, oito filmes, e diversos outros produtos é, necessariamente, sobre como lidar com a morte. E passa esse ensinamento muito bem para as crianças que crescem o acompanhando.
Voldemort quer, acima de tudo, vencer a morte. Isso acaba com ele, e faz com que ele cometa as maiores atrocidades já vistas no mundo e divida sua alma em pedaços. Harry, por outro lado, se acostuma com a morte como uma passagem (como disse Santa Teresinha, “a vida é teu navio, não tua morada”). Ele se sacrifica no último momento, dando a vida pelos seus amigos, e não há forma de amor maior que essa. O cerne da saga como um todo, inclusive, é explicado por Dumbledore em A Pedra Filosofal, que já mostra que o que o salvou quando bebê foi uma “magia antiga” da sua mãe… que deixou uma marca que não podia ser vista… “o amor, Harry, o amor”. Além disso, há duas frases bíblicas que aparecem no último livro da série e que dão base para isso:
“O último inimigo a derrotar será a morte.” (1 Coríntios 15,26)
“Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” (Mateus 6,21)
Vou colocar aqui uma referência de um vídeo muito bom, caso você queira adentrar mais no assunto. É uma análise detalhada de um frei americano que traz, justamente, essa visão sobre a morte e a experiência cristã em Harry Potter: Harry Potter, Death, and the Christian Experience.
Na cena do cemitério, Harry encara novamente o sacrifício da sua mãe, ao conversar com os fantasmas dela e do seu pai, e também vemos um exemplo dessas virtudes, que ensina muito às crianças assustadas que a veem. Harry, em um desespero seguinte a ter perdido um amigo próximo, com medo do desconhecido, se levanta corajosamente, como um bom aluno da Grifinória, para enfrentar o inimigo. Ele levanta e encara o próprio destino, porque sabe que é a coisa certa a fazer.
Um exemplo direto desses ensinamentos são as citações que abrem o sétimo livro (em um estilo que não tínhamos visto na saga nos seis anteriores), e que vale a pena ler e refletir sobre, fechando o ciclo da saga como um todo:






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