Lawrence da Arábia - A Odisseia do cinema

Críticas Gerais

Tendo experienciando a mais nova adaptação de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, decidi criar vergonha na cara e assitir a Lawrence da Arábia, o clássico que definiu a maneira como enxergamos o épico no cinema, um filme tão grandioso por natureza, que seus únicos destinos possíveis eram a falha miserável - tal qual Portal do Paraíso, The Sorcerer, Cleopatra, Megalopolis - ou a glória histórica.

A obra prima de David Lean é tudo que eu imaginava, e ao mesmo tempo completamente diferente do que eu tinha preconcebido em minha cabeça. É um filme que em 4 horas exibe o poder que a linguagem cinematográfica possui de maneira talvez jamais replicada. Existe uma teoria cinematográfica famosa na cinefilia brasileira que afirma que todo filme depois de Vertigo é influenciado de certa forma pela obra; bom, trazendo esse conceito para a obra em discussão, eu creio que é possível afirmar que todo grande filme depois de Lawrence da Arábia tem um pouco da obra em si, principalmente na tentativa de alcançar sua magnitude e de talvez o superá-lo - algo que eu acredito que não tenha acontecido ainda.

E é nesse sentido em que faço a comparação com a Odisseia, tanto a versão cinematográfica do Nolan, quanto o poema de Homero.

Lawrence da Arábia é o mythos cinematográfico (mais ou menos)

Lawrence da Arábia é a representação de como o cinema evolui o conceito de “mythos”. Mas antes de entrar nos porquês disso, precisamos entender o que “mythos” significa.

A palavra grega “mythos” dá origem a palavra mito, e significa uma narrativa que busca dar sentido ao universo, explicando e dando ordem à vida humana através de histórias protagonizadas por deuses e figuras heróicas, que continham a presença do sobrenatural e forças cósmicas. Eram histórias que buscavam organizar a existência da vida ao tentar compreender forças além da compreensão humana. Essas histórias eram de caráter oral, passado de pessoa para pessoa, e de geração à geração; através de cantos, poemas e rituais, pessoas se juntavam para ouvir e contar - ou melhor, cantar - essas histórias, e a partir de certo ponto dá origem e passam a ser encenadas no teatro, séculos depois chegamos à Lawrence da Arábia em 1962.

Quando Lawrence da Arábia é lançado, o conceito de “mythos” já não regia o mundo há vários séculos, mas ainda se fazia se presente na ficção, ora até hoje se faz, afinal, o conceito é fundamental à ficção. Nesse sentido, a obra de Lean não é nenhum pouco original, porque até mesmo a idéia de se fazer uma análise sobre a natureza e criação de tais mitos já se tinha explorado nas artes anteriormente; o que dá a Lawrence da Arábia o seu caráter mitológico único é a maneira como esse o faz, se apropriando da linguagem cinematográfica para fazer uma obra que se utiliza do “mythos” contendo a grandeza das narrativas de outrora.

Não se é possível fazer uma história mitológica sem ser afetado pelos paradigmas de seu tempo. Dando um exemplo, A Ilíada e A Odisseia de Homero são inadaptáveis se não passarem por um processo de contextualização - isso sem considerar a marca autoral de quem está às adaptando -, afinal, são histórias que servem para refletir os costumes e crenças de dois determinados tempos, o tempo em que se originaram, e o tempo que as adapta. Eu estou reiterando isso para justamente analisar a presença do mito contida em Lawrence da Arábia que, devido as marcas de seu tempo, se afasta do que concebemos como mitológico; um possível ponto de contenção presente na minha afirmação é a suposta ausência do poder cósmico, divino ou sobrenatural na obra; da forma que eu enxergo essa força está presente no filme sim, ela se faz material na motivação de Lawrence, na crença das personagens, e nas ações representadas pela obra, o divino é responsável por todas as ações aqui retratadas, mesmo que se faça presente apenas na mente das personagens, nunca tomando forma. Uma das maneiras que o divino se mostra é na falta de poder das personagens, que constantemente fazem ações que demonstram não possuir impacto algum, não importa o quão grandiosas - como atravessar a bigorna do deserto, feito que eleva Lawrence a uma figura ala Odisseu -, afinal, a história deles já está escrita, suas ações possuem um único destino que eles podem apenas postergar, mas que chegará inevitavelmente, algo que a penúltima cena do filme diz com todas as letras, onde vemos aqueles com poder negociando friamente os espólios da guerra que acabamos de assistir por quase 4 horas, com direito a um momento em que mostra a maneira como o mito é explorado na politicagem, o utilizando como um meio de garantir poder.

Parte do que me fascina tanto nessa obra é sua natureza talvez contraditória, o filme se divide entre a criação do mito de Lawrence, e a análise dessa criação. Dessa forma, é possível afirmar que Lawrence da Arábia é um filme que se divide entre o “mythos" e o “logos”, entre o mitológico e o racional, e essa divisão é representada na maneira em como o protagonista se enxerga e é enxergado; seu conflito é mental, Lawrence se vê como um homem simples e ao mesmo tempo um mito destinado a grandeza, ele se ama e se odeia, possui duas nações que vê como casa e não pertence a nenhuma delas. 

Se eu que o amo, o temo. Como ele deve temer a si mesmo, que se odeia?

Lawrence da Arábia é a melhor representação do mitológico no cinema pois demonstra a impossibilidade de esse existir em seu tempo sem a racionalidade provinda do “logos”.

Comparações com Homero

Da mesma forma que A Ilíada e A Odisseia, Lawrence da Arábia é uma história baseada em um evento real; as duas narrativas se passam em guerras que de fato aconteceram e às usam como tela para o seus respectivos mitos.

A comparação surge a partir do que elas significam para o mundo. Os poemas de Homero servem como base para inúmeras obras de arte, e por natureza é constantemente adaptado. Qualquer obra que retrate o anseio de retornar a casa evoca um diálogo com Homero devido a grandeza de seu poema. Já Lawrence da Arábia, tem consigo o feito de definir perfeitamente a jornada do herói no cinema, não o criou, mas serve como um molde que hoje conhecemos a exaustão, e assim como é com A Odisseia, toda vez que essa narrativa é utilizada, se é criado inevitavelmente uma conversa com o filme de Lean.

O que eu quero dizer é que Lawrence da Arábia é um filme da magnitude de A Odisseia e outros clássicos da história da arte, é um filme que está na companhia de Hamlet, A Santa Ceia e, como eu venho dizendo, as obras de Homero. Eu acredito que seja um filme que vai, através de seu legado, sobreviver séculos e ser discutido como um dos exemplos do suprassumo que a arte é capaz de produzir.

Sua relação com o cinema

Depois que terminei de assistir Lawrence da Arábia eu fiquei buscando na minha mente obras cinematográficas que dialogassem com o filme sob um mesmo nível de qualidade e tamanho; o primeiro filme que me veio a mente foi Cidadão Kane, a grande obra de estreia de Orson Welles, ao meu ver é a companhia perfeita para este filme, afinal, são dois filmes que investigam o seu protagonista que, mesmo os acompanhando da ascensão a queda, sabemos pouco sobre; durante as duas obras buscamos desvendar essas figuras enquanto ponderamos sobre o que as leva à cena de abertura de ambos os filmes. Em um sentido Lawrence da Arábia é uma continuação do legado de Cidadão Kane, uma evolução natural de sua proposta, narrativa e cinematográfica, é um mesmo conceito trabalhado por dois gênios diferentes.

Outra obra que me veio a mente foi Rastros de Ódio de John Ford, mas em particular por causa da cena final; o plano magistral de John Wayne à porta incapaz de entrar a casa de seus familiares representa muito Lawrence e conversa bastante com a cena final de Lean, são planos que condenam suas personagens a perambular pela terra sem lar, figuras que, por culpa própria, não possuem mais espaço na sociedade. Enquanto Ford escolhe trazer essa sensação ao se afastar de Ethan, o protagonista de seu filme; Lean nos traz para perto e evoca sua cena inicial através da imagem, se ao início do filme presenciamos a morte material do protagonista, ao final vemos a espiritual.

Um extra que não vou entrar em tantos detalhes porque preciso o reassistir, é o filme Z: A Cidade Perdida de James Gray, um filme que ao meu ver é uma espécie de Lawrence da Arábia do cinema contemporâneo. A grande diferença entre os dois é a maneira como enxergam seu protagonista, algo que mais uma vez é bem representado pela maneira como as obras se encerram; David Lean condena Lawrence, e Gray celebra Percy através de uma aparente tragédia; um perambula o mundo sem lar, o outro se torna um com a floresta.

E o Nolan?

Esse texto não existiria sem o Nolan; depois de assistir seu mais novo filme eu me encontro fascinado com os poemas de Homero - obras que não visito há muito tempo, desde a minha infância quando às li em uma adaptação de quadrinhos -, o que me levou a Lawrence da Arábia.

O interessante da adaptação do Nolan é que ela é uma leitura de A Odisseia afetada pela obra de Lean. O Odisseu de Nolan está mais próximo a Lawrence do que está do herói de Homero; a cena em que isso se faz mais claro para mim é quando o vemos confessar suas lamentações à Penélope, algo que depois de assistir Lawrence da Arábia se transforma em uma rima cinematográfica com a famosa cena da faca. A diferença entre as duas é a apresentação, enquanto Nolan explica os sentimentos de seu protagonista, Lean às expõe na imagem, mas o sentimento contido nelas é o mesmo.

O Odisseu de Nolan é afetado pelo contraste entre o “mythos” e o “logos”, não porque é necessário racionalizar tudo, afinal, muito do que está presente no filme advém do mitológico, seus deuses podem não se mostrar materialmente e residir apenas na mente das personagens, mas a ira deles é real e punitiva; a racionalização existe porque é a norma do cinema comercial contemporâneo, mas essa inclinação ao mitológico na obra de Nolan - o diretor mais representativo dessa racionalização - talvez mostra que existe um caminho para voltarmos ao cinema mais lúdico, mais receptivo a magia.

A mitologia presente na obra de Nolan é da mesma ordem de Lawrence da Arábia, acho que a diferença é que Lean compreende que não há necessidade em explicá-la.

Conclusão 

É um dos melhores filmes que eu já vi na minha vida, e como eu disse parágrafos antes, acredito que seja uma obra que vai para além do cinema em seu legado. É um filme que está para as artes tal qual A Odisseia ou Hamlet estão.

 

 

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor