A Morte (e o Olhar) do Demônio

Narrativa

No início de The Evil Dead (1981), há um momento que funciona como a tese de todo o filme: uma brincadeira entre os namorados Linda (Betsy Baker) e Ash (Bruce Campbell), onde o rapaz finge estar de olhos fechados, apenas para abri-los no instante em que ela desvia o olhar. Esse jogo aparentemente inocente sintetiza a lógica e o sentimento insidioso que Sam Raimi constrói ao longo do filme. O mal está sempre à espreita, sempre observando, esperando apenas um segundo de guarda baixa para, então, pegá-lo desprevenido. E a ferramenta central para construir essa tensão não é outra senão a própria câmera.

Raimi trabalha a câmera subjetiva como uma extensão da mitologia do filme. Ela age como os próprios demônios kandarianos que, antes de possuírem corpos humanos, possuem objetos e espaços. Assim, frequentemente assumimos o ponto de vista seja de um relógio de parede ou da sinistra entrada do porão. O filme nos transforma em voyeurs do macabro, compartilhando o olhar de uma entidade que estuda suas presas.

Esse voyeurismo narrativo brinca deliberadamente com nossas expectativas. Por boa parte do longa, sequer sabemos quem ou se haverá uma final girl (ou boy). Todos parecem igualmente vulneráveis sob a mira desse olhar demoníaco, que observa cada personagem com a mesma crueldade, como se se divertisse adiando a escolha de sua vítima.

As atuações beiram propositalmente o melodramático, com algumas cenas sendo encenadas como verdadeiros palcos para a performance do horror. O exemplo perfeito é o momento em que Cheryl (Ellen Sandweiss) entra em desespero sob os faróis do carro após descobrir que a ponte foi destruída e não há mais uma saída. Ali, aquelas luzes duras funcionam como grandes holofotes voltados para a personagem — ou como os próprios olhos do demônio brilhando na escuridão enquanto se deleita com o espetáculo do sofrimento, intensificado pela trilha robusta e agressiva de Joseph LoDuca.

Quando Ash finalmente é escolhido como alvo principal, o filme parece entrar em perfeita sintonia com o prazer sádico dos demônios, se divertindo cada vez mais com o tormento do protagonista. A cena em que uma câmera filmadora é apontada diretamente para seu rosto ensanguentado e aterrorizado e começa a sangrar adquire uma metalinguagem cruel: a câmera dentro do filme reflete a câmera de Sam Raimi, ambas registram a destruição emocional do personagem. Os demônios não querem apenas matar Ash, querem observá-lo, humilhá-lo e torturá-lo. Destruir as pessoas que ele mais ama, e fazê-lo as destruir também, apenas pelo prazer de consumir, lenta e completamente, a desintegração desse tímido, amedrontado e hesitante loverboy.

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