O Sublime Grotesco de The Ugly Stepsister

Conhecimento Cinematográfico

As mesmas larvas que devoram a carne apodrecida de um cadáver são aquelas que tecem o mais belo vestido de seda para o baile. Essa imagem assombrada marca o amálgama entre o belo e o feio, o mágico e o macabro, o conto de fadas e o terror que Emilie Blichfeldt constrói em seu longa de estreia: The Ugly Stepsister (2025), adaptação do clássico Cinderela.

Rompendo com a higienização estética e narrativa que a Disney impõe aos seus live-actions, a cineasta norueguesa mergulha no cinema das adaptações de contos de fadas do Leste Europeu dos anos 70 para resgatar a crueza visceral da fábula e confrontar um problema que atravessa gerações: a violência dos padrões de beleza estabelecidos pelo patriarcado, expondo a mutilação física e psíquica exigida das mulheres para que caibam no sapatinho de cristal da aceitação social.

A beleza crua dos cenários naturais — florestas e castelos antigos — e suas atmosferas encantadas, marcadas por cores dessaturadas, iluminação difusa e uso expressivo do efeito bloom, evocam a aura etérea e melancólica de Rusalochka (1976). No horror, remete ao gótico opressor de Panna a Netvor (1979), caracterizado por interiores sombrios, vastos salões decadentes e uma constante sensação de inquietação. Há ainda ecos do erotismo explícito e provocativo de La Bête (1975).

O filme também aposta no anacronismo e no absurdo. Assim como Jacques Demy em Peau d'âne (1970), Blichfeldt entende o conto de fadas como espaço para a estilização extrema. A diferença é que, enquanto Demy levava o belo ao limite até que ele se tornasse incômodo, ela faz o contrário: expõe o grotesco até que ele revele uma beleza inesperada. Como dito pelas bruxas na abertura de Macbeth, de Shakespeare:

o belo é podre, e o podre, belo sabe ser.

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