Lemos e não julgamos

Críticas Gerais

            Acredito que todos nós temos filmes que consideramos como guilty pleasure, filmes que amamos odiar ou que odiamos amar. Normalmente são filmes que fogem, de certa forma, do ‘perfil’ de gosto cinematográfico que construímos, seja para os outros, seja para nós mesmos. É difícil se dedicar anos para ter uma reputação e personalidade para ela ser quebrada por um filme. Essa perspectiva extrema ignora a complexidade humana que pode ter múltiplos gostos e facetas, sem a necessidade de um excluir o outro. Contudo, alguns gostos podem ser mais difíceis de aceitar do que outros pelo fato de nos recusarmos a entrar em contato com alguns assuntos.

           Imagino que muitas pessoas aqui pensarão em clássicos estereótipos como a pessoa dos filmes cults, estrangeiros e desconhecidos, mas que tem um fraco por comédias românticas clichês, por exemplo. Porém, quero acreditar aqui que você, estimado leitor, é adepto da trend do TikTok vemos e não julgamos para me abrir sobre o meu guilty pleasure: eu gosto de extreme horror. Sabe aquela imagem do iceberg dos filmes de terror que chegou a circular por um tempo? Então, durante determinado momento da minha vida meu hobby era ir assistindo um por um, descendo por essa lista. Se você me julgar, na verdade, eu vou entender perfeitamente – até porque eu mesma me julgo por isso –, mas peço que fique mais um pouquinho aqui comigo para eu poder me explicar – no máximo você terá mais argumentos para poder me julgar.

           Gostar é uma palavra complicada. Eu sinto prazer quando vejo esse tipo de filme? Não, inclusive, muitas vezes eu saio mal desses filmes, não só psicologicamente, mas também fisicamente, com o estômago embrulhado e por vezes o prenúncio de uma crise de ansiedade. Mas, mesmo assim, não consigo evitar de procurar por eles. Para tentar entender um pouco dessa minha atração, fui tentar lembrar quando que tudo isso começou.

           Eu sempre fui uma pessoa muito medrosa: não conseguia ver filmes de terror de jeito nenhum. Lembro de uma vez quando eu era pequena – algo em torno dos 10 anos ou até um pouco menos – e fui ao cinema com meus avós assistir alguma animação infantil, da qual nem me lembro hoje; mas, o que eu me lembro com clareza são os pôsteres que estavam no corredor dos outros filmes em cartaz. Na verdade, um pôster especificamente: Jogos Mortais (2004). A mera imagem dos membros decepados foram o suficiente para me dar pesadelos por dias. Lembro na época, também, que, por mais que um filme mais antigo, ainda estava em alta falar sobre Chucky: o boneco assassino (1988). Eu assisti esse filme? Não, mas lembro dos meus amigos falando sobre ele e isso também foi o suficiente para me deixar apavorada. E não precisava ser um terror para me deixar com medo. Uma lembrança também marcante foi de um final de semana em que estava na casa dos meus padrinhos e, em determinado momento, minha madrasta e minha madrinha foram assistir um filme no quarto. Pedi para assistir com elas e elas falaram que tudo bem, mas que eu acharia chato, porque era um filme aleatório de adulto, que o filho da minha madrinha tinha alugado – ainda era época das locadoras de filmes. O filme em questão? O Amigo oculto (2005). Esse filme me deixou sem dormir não só por dias, mas semanas.

           Quando foi então – e por que – que alguém tão medrosa como eu começou a assistir filmes de terror e acabou caindo nas alfurjas do gore? Eu construí uma narrativa que fez um certo sentido lógico para mim depois que juntei os pedaços; não sei se de fato é isso que aconteceu, mas para mim faz sentido. Tudo começou em 2020. O que estava acontecendo nesse ano? Sim, a pandemia do coronavírus. Estávamos confinados em casa, tentando lidar com um mix de sensações. Tínhamos por um lado o medo e as aflições do que aconteceria, como seríamos afetados, se adoeceríamos, e, por outro, um certo desespero e tédio do confinamento. Somado a esse tédio, eu também estava lidando com alguns episódios depressivos como uma clássica representante da geração millenial. Acredito assim, que, para tentar lidar com esse universo de sentimentos surgiu em mim a vontade de lutar contra o torpor para sentir coisas, sentir uma adrenalina – fora a ideia típica dos pequenos autoflagelos nosso de cada dia. Uma das formas que encontrei – sob o pretexto da curiosidade – foi: e se eu fosse assistisse coisas que antes eu tinha medo para ver qual a real, se de fato eram algo tão assustador assim?

           Comecei então com um desses clássicos que mencionei: Chucky. Qual foi a minha surpresa, então, ao descobrir que o filme era extremamente tolo e, por vezes, cômico? Fiquei inconformada que passei grande parte da minha infância e adolescência com medo de algo tão bobo. Foi aí que coloquei como meta ir assistindo todos esses grandes terrores que assombraram meu imaginário por anos. Começando por clássicos como Halloween (1978), O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Sexta-feira 13 (1980), senti que já estava pronta para um passo a mais e parti para filmes como O Grito (2004), O Chamado (2002), Invocação do Mal (2013) e Atividade Paranormal (2007). A essa altura do campeonato, eu já estava me acostumando aos tipos de narrativas e aos recursos utilizados, sendo necessário me esforçar cada vez mais para encontrar filmes que me fizessem sentir ‘algo’. Aí que começa o problema. Estando nesse mundo dos filmes de terror e procurando referências e indicações, acabei entrando em contato com a famosa imagem do iceberg que mencionei no início e, como uma entusiasta de listas, eu obviamente decidi fazer dessa minha mais nova meta. Grande parte das primeiras duas camadas eram filmes como esses que já mencionei. Fui dando prosseguimento e assisti diversos filmes que tinham uma pegada similar a esses que já tinha assistido, mas também alguns mais ‘conceituados’ no universo cult que tinham uma abordagem diferente, mas achei extremamente interessante, principalmente pelo viés da crítica, como Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), Anticristo (2009), A Casa que Jack Construiu (2018) e Mártires (2008). Dando prosseguimento à lista, contudo, fui entrando em contato com outros tipos de filmes, filmes de caráter mais ‘duvidoso’ segundo alguns. Finalmente cheguei aos clássicos do gore e do exploitation como A Centopeia Humana (2009), Holocausto Canibal (1980), Nekromantik (1988) e A Serbian Film (2010). Quanto cheguei a esse último, particularmente, algo em mim mudou. Desde o começo dessa trajetória de filmes eu sentia algo como susto, medo, ou até um certo desconforto, mas que eu conseguia entender e compreender de algum modo como uma crítica social. Porém com A Serbian Film, eu não consegui ‘justificar’ esse desconforto que senti, parecendo algo simplesmente feito para chocar. Porém, ao invés desse sentimento de asco me afastar desse gênero, ele justamente me prendeu ainda mais e me fez continuar a assistir esses filmes pela pura curiosidade de saber até onde ‘seria possível’ ir.

           Acredito que já tomei muito tempo de você, leitor, com essa sequência de eventos da minha trajetória, então pularei direto ao que importa. Quando entrei nesses tipos de filmes, no começo eu ficava bem desconfortável e precisava de um tempo até conseguir me submeter novamente à próxima experiência. Mas cada vez menor esse intervalo se tornou e em determinado momento eu resolvi pular direto para a última camada e escolhi aleatoriamente um dos filmes. Não me lembro agora qual era o nome do filme, mas tenho que enfatizar que definitivamente foi bem fácil ter acesso a ele, tanto quanto todos os outros anteriores que já tinha visto desde o começo da minha jornada do iceberg. E sobre o que era o filme? Nada mais que um compilado de vídeos de acidentes, suicídios e execuções reais que em algum momento já circularam na internet ou nos noticiários – ou seja, uma espécie de filme snuff.

           Aqui eu já não sei muito como continuar esse texto. Eu gostei do que vi? Definitivamente não. Mas o que mais me incomodou foi o fato de que assistir todos aqueles outros filmes me tornaram, de certa forma, entorpecida para esse tipo de imagem. Existia um desconforto ao assistir, mas eu conseguiria aturá-lo. O que me fez parar de assistir o filme no meio – algo que não tinha acontecido antes com os outros – foi justamente o fato de eu perceber que o desconforto que eu estava sentindo, mesmo sabendo que eram cenas reais, não foi tão grande quanto eu achei que seria se em algum momento da vida me deparasse com tais cenas. O que me fez parar não foi uma sensação de asco e incômodo, mas sim os meus pensamentos morais a respeito de se deveria ser essa a minha sensação ao assistir tal tipo de conteúdo.

           Foi isso que me fez dar encerramento à jornada do iceberg. Depois disso eu fiquei de fato com medo do que era essa minha relação de autoflagelo assistindo tais tipos de filmes. Claramente envolveu muito trabalho de terapia para poder entender como tudo isso aconteceu e o que isso representou no meu contexto psico-social. Hoje em dia eu quase não assisto mais esse tipo de filme, me atenho apenas aos filmes de terror comerciais. Mas não posso negar que ainda existe uma certa curiosidade sobre até que ponto o cinema pode ir e até que ponto ele deve ir quando falamos desse gênero.

           Lendo o substack Espaço seguro para mulheres más e sombrias me deparei com essa frase: “Como meu monstro criativo, a dor é uma mistura de benção e maldição: enquanto rouba nosso tempo, também nos força a parar e refletir”. Essa citação me conforta. Acredito que todos nós como seres humanos temos uma parte que chamamos de ‘sombria’ e muitas vezes recusamos veementemente a entrar em contato com. Mas considero, por mais que difícil, é fundamental que a encaremos de frente e refletimos sobre ela, pois ela tem muito a nos dizer. O desconforto é difícil e machuca, mas é necessário para a construção criativa.

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor