Desilusões acolhedoras
Críticas GeraisTá, esse tema abarca inúmeros filmes, alguns até bem óbvios e clichês – não que tenha algo errado com isso, inclusive adoro. Mas saindo dos tradicionais – ou talvez nem tanto –, dois filmes me marcaram profundamente pela sensibilidade na forma como as narrativas foram tratadas: Vidas Passadas (2023) e Encontros e Desencontros (2003). Como fazia muito tempo que eu não o via, resolvi reassistir a esse último.
Encontros e Desencontros é um filme de Sofia Coppola. O filme se passa no Japão e é do começo dos anos 2000, então já entendemos que a representação de estereótipos e caricaturas é um tanto problemática. Apesar de eu não focar nessas questões nesse texto, reitero o quão importante é a gente analisar com lentes críticas, mesmo filmes tidos como clássicos e que adoramos. Dito isso, caminho para a temática proposta.
O filme acompanha Charlotte (Scarlett Johansson) e Bob Harris (Bill Murray). Enquanto Charlotte é uma jovem que acabou de se formar em filosofia e decidiu acompanhar seu marido em uma viagem a trabalho como fotógrafo para o Japão, Bob Harris é um ator que está no Japão para estrelar em uma campanha de uísque. Duas pessoas de mundos distantes, com uma diferença de idade significativa, e que dificilmente entrariam em contato uma com a outra, acabam, por fim, se conhecendo em um hotel no ‘outro lado do mundo’ – o clichê do Oriente e do Ocidente como sendo mundos antípodas. O Japão como um ‘representante’ do oriente – como se o oriente fosse tudo igual – é frequentemente tratado como um lugar completamente diferente e muitas pessoas pensam nele como um destino para se ‘descobrir’ e se ‘reinventar’; ele funciona aqui quase como o conceito de Manic Pixie Dream Girl. Quem nunca ouviu alguém dizer ou postar nas redes sociais como a viagem que fez para o Japão mudou completamente a sua perspectiva de vida?
Ambos os personagens transmitem uma solidão e um vazio interno. Enquanto Charlotte se sente perdida em relação ao que fazer agora depois de formada, somado ao fato de frequentemente ser deixada sozinha pelo namorado, Bob Harris se sente completamente dissociado tanto do universo de estrela de cinema em que precisa representar um personagem para a campanha e para seus fãs, quanto de sua família, como podemos perceber ao descobrirmos que ele perdeu o aniversário de seu filho durante sua viagem. O olhar dos nossos protagonistas se cruza no bar do hotel. Posso arriscar dizer que Charlotte viu em Bob a manifestação do que ela mesma estava sentindo. A impressão que tive foi de que Bob já havia desistido de sentir qualquer coisa, ele apenas estava existindo, enquanto Charlotte, mesmo que sentindo-se um tanto perdida, ainda tinha uma energia para ir atrás de algo novo – talvez por ainda ter o privilégio da juventude correndo por suas veias. É aí que começa a se estabelecer um vínculo entre os dois.
A relação dos personagens é quase como algo mágico, quase etéreo. Parece um amor romântico, ao mesmo tempo que platônico, e por vezes até paternal – por mais que isso soe um tanto problemático. Em nenhum momento do filme eles transam ou trocam carícias, e apenas na última cena é que trocam um beijo. Os dois veem, um no outro, um reflexo de si mesmo e uma chance de acolhimento. Em um momento de vida que os leva a crer que ninguém os entende – personificado pelo Japão, onde ninguém falava a língua deles –, eles se entendem. Mas esse não é um caso de amor em que se apaixonam loucamente e resolvem investir um no outro para construir uma nova vida. É um amor que é fadado a ser deixado para trás. Não há planos futuros, nem promessas. Há aí um amor que fez sentido somente nesse momento de vida em que eles se encontram. O caso de amor perdido que vejo neles não é o de ‘pessoas certas na hora errada’, mas sim a perda da imagem que ambos tinham para si de suas vidas, Bob por já ter vivido e agora se encontrar desiludido, e Charlotte por ter sua realidade não correspondendo à grandiosidade da vida que ela imaginou. A perda dos personagens é a mesma, mas também diferente, e é justamente por isso que eles se complementam e conseguem desenvolver um vínculo tão profundo, mesmo que também seja superficial.
As contradições que os personagens apresentam não os colocam em conflito, mas sim os complementam e nutrem algo de que ambos estavam sentindo falta. As cenas são sutis e delicadas, mas transmitem uma bagagem emocional que nos deixa nos questionando ‘o que acabei de ver?’ ao final do filme; ele nos acolhe, mas não sem antes tirar algo de nós.








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