Difícil de engolir

Críticas Gerais

            Muitas são as pérolas produzidas pelo cinema nacional, porém uma delas eu fui assistir somente nesses últimas dias. Já tinha ouvido falar muito bem do filme Estômago (2007) de Marcos Jorge, mas mesmo com as expectativas altas, me surpreendi. Nos últimos meses tenho estado bastante envolvida com narrativas que permeiam o mundo da comida e da cozinha, então esse filme estava entre os primeiros da minha lista de pendências. Não sei o que eu esperava dele, mas com certeza não foi o que eu vi e, mesmo assim, a experiência foi singular.

            O filme acompanha a trajetória de Nonato Raimundo (João Miguel) que, começando como cozinheiro do boteco de Zulmiro (Zeca Cenovicz), mostra seu talento inato para a cozinha, conseguindo atrair mais fregueses para o seu patrão. Suas mãos de fada acabam chamando a atenção do dono do refinado restaurante italiano Boccaccio, Giovanni (Carlo Briani), que o convida para trabalhar em sua cozinha, onde desenvolve ainda mais seus dotes culinários. Sua ascensão, no entanto, é rapidamente interrompida pela sua prisão. Se em um primeiro momento esse parece o seu fim, logo percebemos que, na verdade, essa é sua verdadeira escalada para o ápice, iniciada no momento em que Nonato assume o posto de ‘chefe de cozinha’ de sua cela. A questão que fica é: como tudo isso aconteceu tão rápido?

            A guinada na história de Nonato já é apresentada no início do filme, mas o que esperamos no decorrer do longa é entender como as coisas tomaram tais proporções. Nonato parece, a princípio, um personagem clichê de origem ‘humilde’ e ‘ingênua’, que sai da roça e vai para a cidade. Ele tem uma personalidade que desperta afeto e compaixão, servindo também como alívio cômico através de suas pontuações inocentes frente aos ‘malandros’ da cidade grande. O filme como um todo é bem divertido, mas a construção do personagem de Nonato e o seu desenvolvimento é o que chamam a atenção.

            Chega a ser cansativo e ofensivo a quantidade de histórias que vemos mostrando a jornada do homem do campo buscando a vida na metrópole. A maioria dessas narrativas apresentam um personagem que é tido como ‘simples’, honesto e de ‘bom coração’ que vai tentar a vida na capital que acaba por se aproveitar dele. É aí que Estômago se diferencia. Ele nos vende, no início, a ideia de que nos mostrará essa jornada de um homem trabalhador modesto e servil que acaba passado para trás e perdendo qualquer chance que tinha de ascensão. Mas isso é tudo o que o filme não é. Nonato pode não ter o mesmo tipo de sagacidade que seus chefes apresentaram ao se aproveitarem dele, mas ele tem seu próprio ‘jeitinho’ e suas próprias ambições; ele vai se adaptando para conseguir conquistar seus objetivos, custe o que custar. A ideia de uma moralidade estrita passa longe de Nonato: ele tem sua própria moral.

            O que descobrimos ao fim do filme é: Nonato foi parar na cadeia, pois matou seu chefe – o dono do restaurante Boccaccio, que deu a ele uma chance em seu restaurante – ao descobrir que ele estava tendo um caso com sua então noiva, Íria (Fabíula Nascimento). Esse crime nos parece um caso de assassinato passional. Ele não deixa de ser, mas o que torna tudo muito mais interessante é que, dentro da cadeia, Nonato repete seu crime, porém já não sob influência de suas emoções, e sim através de um ato plenamente calculado e estratégico. Nonato mata Bujiú (Babu Santana) – o chefe de sua cela, que deu a ele o posto de ‘chefe de cozinha da cela’ e fez com que ele passasse a conseguir mais respeito e privilégios na prisão – porque viu aí a chance de conseguir ainda mais regalias, incluindo a beliche de cima como cama, que era a melhor e destinada ao chefão do crime. Mesmo na prisão e mostrando uma inocência ao se relacionar com os outros presos – algo que é mostrado comicamente na cena em que escolhe assumir o apelido de ‘Nonato Canivete’ para tentar impor respeito, mas que só tira gargalhadas de seus colegas –, Nonato vai desenvolvendo suas ambições e adaptando suas morais para conseguir o que quer. Essa questão da moral é muito interessante de se ver na cena em que está reclamando da quantidade de formigas na cela e recebe um comentário de um de seus parceiros falando que em muitos lugares e, inclusive em restaurantes chiques, muitas pessoas se alimentam de formigas. No início ele estranha a ideia, mas ele facilmente consegue mudar a forma como enxerga as formigas e decide prepara-las para comer. Se nesse momento isso parece uma adaptação inocente, logo podemos ver como é possível escalonar rápido para algo que pode chocar um pouco mais pela facilidade como ele mudou sua forma de pensar: a cena em que aparece Nonato cozinhando um bife da carne tirada da bunda de sua noiva, logo depois de matá-la, fazendo referência a uma cena anterior em que Giovanni compara o filé mignon, a melhor peça de carne, a uma bunda feminina, dizendo que é o melhor pedaço da mulher. Mesmo o ato de canibalismo sendo algo brutal, Nonato consegue realiza-lo transparecendo uma certa inocência ao levar ao pé da letra tal pontuação.

            Podemos perceber que, na verdade, foi Nonato quem, de certa forma, passou para trás seus chefes abusivos. E ele não dá indícios de parar por aí. Ao final, o filme ainda dá abertura para uma possível nova morte que estaria sendo planejada: a de Etcétera (Paulo Miklos), um chefão ainda maior – o qual Bujiú estava querendo impressionar fazendo com que Nonato cozinhasse para ele e que, no fim, levou à sua própria morte –, que tinha sua própria cela, a qual passa a ser o novo desejo de consumo do nosso anti-herói.

            Estômago parece um filme simples e, por um lado, é mesmo. Mas é justamente na sua simplicidade que está sua complexidade. A transformação da forma como enxergamos a inocência e a amoralidade de Nonato é o que torna esse filme tão especial. Ele faz uso de elementos banais e clichês, mas nos mostra que mesmo neles é possível criar uma narrativa difícil de digerir.

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