Eraserhead e a paternidade estranha de David Lynch
Críticas GeraisUma das coisas mais fascinantes em Eraserhead, o primeiro filme do cineasta David Lynch, é o quanto ele consegue escancarar alguns dos nossos maiores medos, desconfortos e ansiedades relacionados à experiência de gerar um filho. De criar essa extensão de nós mesmos, essa continuidade do nosso próprio corpo, personificada num ser que — por um certo período de tempo — acaba existindo na forma de uma criatura barulhenta, gosmenta e muitas vezes indecifrável… por mais que, na vida real, ela aparente ser tão bonitinha, por fora.

Talvez, justamente por isso, esse filme do Lynch decida remover essa roupagem fofinha dos bebês, escolhendo apresentar só os aspectos mais assustadores dessa vivência, numa narrativa em preto e branco repleta de imagens marcantes, de elementos de horror corporal e de uma atmosfera pesada que parece sustentar um pesadelo interminável, onde não existe distinção entre a realidade e o mundo quase sem lógica dos sonhos. O que faz muito sentido, já que pais de primeira viagem também não costumam conseguir dormir muito, então é natural que essa fase seja representada nesse limiar entre acordar e o adormecer.
Longe de mim querer explicar um filme do David Lynch. Eles existem muito mais como provocadores de sensações, através de imagens e sons que rompem esse pacto de realismo de boa parte dos filmes — às vezes, de um jeito mais sutil e equilibrado com uma trama mais coerente — mas às vezes, no caso de Eraserhead, da forma mais explicitamente surrealista possível… só que, ainda assim, mantendo algum fiapo de conexão com a lógica.
O resultado é um filme em que nem todos os elementos podem necessariamente ser explicados, mas que, ainda assim, mantém uma certa consistência lógica… algo que muitas vezes falta no cinema experimental. Mesmo que você não entenda muito bem o que está assistindo, você nunca tem a sensação de que o Lynch está inventando coisas aleatoriamente, só para causar um impacto visceral imediato em detrimento de todo o resto.

De todos os conceitos que o Lynch apresenta nesse filme, o que me parece mais simples de interpretar diretamente é o lance da angústia de uma paternidade recente. Na trama, a gente acompanha a rotina claustrofóbica e desesperadora de um pai chamado Henry, interpretado pelo ator Jack Nance, tentando saber o que fazer com esse bebê grotesco e inumano, que parece um mistura entre o E.T. do Spielberg, um Airpod da Apple e… sei lá, o anticristo sugerido no final de O Bebê de Rosemary.
Ao longo da narrativa, o bebê parece exigir cada vez mais cuidados do pai, se tornando mais suscetível a todo tipo de infecção, problemas de saúde e emissão de fluídos corporais e manifestando essa agonia com gritos não só intermináveis, mas também indecifráveis. Então, um dos maiores incômodos nessa experiência retratada em Eraserhead é justamente a incerteza de como lidar com essa nova criaturinha que surgiu na vida de um pai e que não vem com manual de instruções.
Mesmo com todo o conhecimento disponível que a gente foi agregando ao longo do desenvolvimento da humanidade, no fim do dia, cada pai vai passar por esse momento de absoluto pavor ao perceber o tamanho da responsabilidade que ele tem pela frente… e o nível de despreparo com que ele vai ter que enfrentar essa tarefa, já que, mesmo com todo o planejamento do mundo, sempre vai existir alguma situação que esse pai não previu que aconteceria.

No caso do David Lynch, muito se fala sobre a sua filha, Jennifer, influenciando diretamente esse aspecto de Eraserhead, já que ela nasceu com uma deformidade chamada pés tortos congênitos, e passou boa parte do seu início de vida usando um gesso que a imobilizou da cintura pra baixo, precisando passar por várias cirurgias, depois, pra desenvolver a habilidade de andar sozinha.
Ou seja, a gente pode enxergar Eraserhead como um baita desabafo expressionista de um pai que realmente viveu as angústias que ele ilustrou, posteriormente, no filme… e eu acho que um dos maiores valores dessa obra é justamente o quanto ela se liberta de qualquer julgamento moralista que poderia impedir a manifestação dessas dúvidas paternas, pensando em como a sociedade costuma romantizar bastante essa experiência de ter filhos, atuando até como censores de alguns discursos que procuram revelar o lado mais obscuro dessa parte da vida: a solidão, a perda da individualidade, do tempo, da sanidade, da beleza e da tranquilidade. Assim, obras que procuram manifestar esses aspectos da paternidade e maternidade costumam receber críticas bem duras de pessoas que não admitem essa desconstrução do sacerdócio virtuoso e elevado que é a criação de um filho.
Mas eu não acho que Eraserhead esteja dizendo para as pessoas não terem filhos, ou que só existe choro e ranger de dentes nessa experiência de paternidade, mas sim que está tudo bem que um ser humano expresse as suas dúvidas e ansiedades sobre algo tão transformador e impactante assim. O filme, para mim, é uma forma terapêutica de desabafo, pra que, justamente, esses medos sejam exorcizados através da arte… para que eles virem pesadelos controlados, compartilhados com todos aqueles que passam por algo semelhante… se tornando, assim, muito mais suportáveis.

É aquela coisa do cinema de terror sendo uma válvula de escape, e com isso em mente, é bem interessante como o Lynch representa visualmente, vários aspectos da reprodução humana de um jeito grotesco, pra ilustrar os incômodos que existem ao redor dessa experiência.
Um dos elementos mais recorrentes nisso é o espermatozóide gigante, nojento e quase alienígena que surge ao longo do filme inteiro, seja brotando da cabeça do Henry, o protagonista, logo no início, para depois ser ejaculado numa poça de líquido viscoso, representando a fecundação… ou então caindo ao redor de uma mulher dançando num palco que existe dentro do aquecedor do apartamento, possivelmente num sonho do Henry que revela o seu desejo secreto de não ter tido um filho, já que a mulher passa a pisotear esses espermas caídos no chão, como se ela manifestasse esse anseio anticoncepcional do personagem. Até o bebê sinistro que passa o filme todo chorando e agonizando, eventualmente se estica e assume essa forma de espermatozóide com a cabeça maior e a cauda comprida, consolidando essa simbologia da obra.

Fora isso, eu acho interessante observar como esse universo do filme parece oprimido por um aspecto industrial, tanto na parte sonora, que investe em sons desconcertantes e artificiais que parecem emanar de máquinas pesadas e ensurdecedoras, quanto, principalmente, no visual, que utiliza elementos recorrentes como tubos, peças e aparatos de metal escuro, que até invadem locações domésticas como a casa dos sogros do Henry ou mesmo o seu próprio apartamento, em detalhes como as grades na cama e os canos verticais do aquecedor.
Nessa linha, podemos vincular esses detalhes industriais às ideias sobre reprodução, que discutimos antes. Por exemplo, quando o Henry visita a casa dos sogros e descobre que vai ser pai, toda essa sequência parece saída de uma sitcom bem tradicional (daquelas dos anos 50 ou 60 que envolvem a consolidação dessa dinâmica familiar americana), com a diferença de que Lynch corrompe essa referência com uma série de momentos bizarros, como a namorada tendo algum tipo de surto, controlado pela mãe… ou então o frango que ganha vida e expele sangue de um jeito meio semelhante a um parto violento, ou mesmo a sogra dando em cima do Henry, num avanço tão constrangedor quanto invasivo.
Me parece muito que o Lynch estaria ressaltando, nesses elementos, os anseios do protagonista em se conformar a uma estrutura familiar padrão da sociedade ocidental… presente aqui nessa noite teoricamente normal — a noite de conhecer os sogros e formar uma família — que o diretor deturpa bastante, pra salientar os incômodos desse choque de estilos de vida tão diferentes, que ocorre por uma certa pressão social que estaria dizendo: “Casem, tenham filhos, perpetuem esse modelo de sociedade, etc”.

Talvez isso também explique a presença massiva da estética industrial, num movimento de revelar o quanto a família humana tradicional não seria apenas mais um produto a ser replicado eternamente, nessa linha de produção de lares sempre muito parecidos. Ou mesmo outro elemento bem marcante em toda a filmografia do David Lynch, que é o palco, junto com as cortinas e outros detalhes teatrais de várias sequências oníricas do diretor. Aqui em Eraserhead, essas cenas consolidam esse caráter performático da vida, como se a pressão por formar uma família, ter filhos e seguir esse modelo de paternidade não fosse tanto uma decisão espontânea de cada indivíduo, mas sim um papel pré-determinado — como o de atores numa peça ou num filme.
Assim, Eraserhead poderia significar uma manifestação artística de contestação a esse determinismo social, rejeitando a possível industrialização do modelo familiar tradicional — numa ideia representada pelo aspecto opressor dos elementos industriais — e também rejeitando a reprodução humana como algo que foi escolhido para você, ao invés de algo que você escolheu. E daí entram os demais elementos mencionados, principalmente aquela cena da figura feminina pisoteando os espermatozoides, justamente enquanto se apresenta num, olha só, palco!

Enfim, tudo isso rende um horrível e maravilhoso pesadelo em preto e branco que merece continuar sendo descoberto, revisitado e discutido, enquanto celebramos as maiores qualidades de David Lynch como um dos mestres do cinema.








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