Quanto mais Miyazaki, melhor: entre documentários e metalinguagens
Críticas Gerais
Minha viagem para o Japão foi cheia de dias incríveis - e em um deles, visitei o Ghibli Park: o parque de diversões mais introspectivo em que já estive, em que as paisagens naturais dividem espaço com as atrações inspiradas nos diversos filmes do estúdio. O dia passou rápido e, infelizmente, passei correndo na parte das exposições, que mostravam frames desenhados à mão de cenas marcantes - como a da Chihiro comendo oniguiri que comentei num artigo anterior. É muito louco pensar que o Hayao Miyazaki realmente se debruçou em cada um deles, num processo igualmente minucioso e neurótico.
Enquanto me preparava para a viagem, parei para assistir o documentário Hayao Miyazaki E A Garça, lançado no fim do ano passado pela Netflix. O filme tem direção de Kaku Arakawa, que já tinha dirigido outros documentários sobre Miyazaki - Como Ponyo Nasceu (2009), O Homem Sem-Fim: Hayao Miyazaki (2016) e 10 Anos Com Hayao Miyazaki (2019) - e, por isso, já tinha bastante proximidade com o “Miya-san”. Prova disso é a cena que abre o documentário, em que Kaku, Miyazaki e o produtor do estúdio, Toshio Suzuki, relaxam em um onsen como vieram ao mundo.
O recorte do documentário é interessante por si só: ele acompanha o processo criativo do diretor e sua equipe na produção de O Menino E A Garça, filme mais recente do Studio Ghibli - e, arrisco dizer, a narrativa mais pessoal que Miyazaki já fez. Essa oportunidade de virar uma mosquinha e bisbilhotar o dia a dia no estúdio de animação mais charmoso do Japão é valiosa, mas não pioneira. Afinal, lá em 2013, a diretora Mamim Sunada lançou seu documentário Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura após passar um ano acompanhando a produção de Vidas ao Vento. Assisti aos dois para fazer uma comparação e eles se complementam perfeitamente.

Você deve estar se perguntando: “Gente, pra que tanto documentário? Virou reality show esse estúdio?”. Tantos registros não são por acaso: como o diretor já passou dos 80, parece existir uma tentativa de eternizar o máximo da mente de Miya-san antes de sua morte. Além disso, Miyazaki vive ameaçando se aposentar - desde Princesa Mononoke (já escrevi sobre ela aqui!), em 1997, ele sempre diz que o próximo filme será o último. Curiosamente, Hayao Miyazaki E A Garça começa no exato momento em que Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura se encerra: a coletiva de imprensa de Vidas ao Vento, em que Miyazaki anunciou, mais uma vez, sua aposentadoria.
Mas não durou muito, já que em 2016, Miya-san começava a trabalhar na ideia que se tornaria O Menino E A Garça. A técnica de animação 2D praticamente artesanal utilizada pelo estúdio, aliada ao perfeccionismo incansável de Miyazaki, fez com que essa produção se estendesse por cerca de sete anos - um novo recorde, já que os intervalos entre os filmes do diretor costumava ser de uns quatro em quatro anos, com o agravante da pandemia de COVID-19 no meio do caminho. Ainda assim, me parece que o principal motivo de tanto atraso foi emocional, uma vez que no meio do processo, em abril de 2018, faleceu o diretor e co-fundador do Studio Ghibli, Isao Takahata.
Além da parceria de décadas formada entre Miyazaki, Takahata e o produtor Suzuki, que deu origem ao estúdio, os dois diretores também eram considerados “rivais”, numa competição artística saudável e cheia de admiração. Mais novo, Miyazaki via Pak-san (apelido de Takahata) como um mentor, alguém que ele queria impressionar com seus filmes. Não se sabe o quanto O Menino E A Garça abordava a temática do luto antes da morte de Takahata, mas o filme definitivamente se tornou a forma de Miyazaki homenagear o amigo e lidar com uma perda tão grande.
Se o luto já é um momento tão traumático e avassalador na vida de qualquer pessoa, imagine no meio de um processo criativo tão extenuante quando desenhar quadro a quadro o (suposto) último filme da sua carreira? Ao longo do documentário, outros colegas do Miya-san falecem e ele se vê cercado pela morte, chegando a refletir sobre sua própria mortalidade. Ao esboçar um cronograma do filme, ele adiciona a observação: “Será que ainda vou estar vivo?”. Mesmo que na maior parte das suas falas sobre o tema, Miya-san seja brincalhão, jogando o desconforto para quem o ouve, fica evidente que ele encontrou sua própria forma de lidar com a dor da perda e com o inescapável fim da vida.

O título original de O Menino E A Garça em japonês, deixa clara essa reflexão do diretor: “Kimi-tachi wa dô ikiru ka” significa “Como Vocês Vivem?”. Ele parece indagar a audiência com curiosidade e angústia, como quem pede um conselho para manter a fé na vida. Mas não se engane: o documentário em si passa longe de uma ótica melodramática. Seja com boas ou más notícias, Miya-san religiosamente se senta em sua mesa de canto e mergulha em seu mundo interior, que ele extravasa em seus desenhos. Ele comenta que para criar, precisa “abrir a tampa do cérebro”, ou seja, sair do campo racional e afundar em subjetividade pura. No documentário de Mami Sunada, ele complementa que não escreve roteiros e não sabe onde suas histórias vão terminar: seu processo é criar um quadro por vez e ir aprimorando com inúmeros ajustes e alterações.
Isso fez todo sentido para mim, já que se encaixa perfeitamente na sensação onírica e imprevisível dos seus filmes. A cada filme, Miya-san cria universos com ricas paisagens, povoados por criaturas específicas e visualmente envolventes. Mesmo contando histórias completamente diferentes, a assinatura autoral do diretor permeia todos os aspectos dos seus filmes. A fluidez da animação, as trilhas precisas, a convicção dos seus personagens… Tudo é puro encanto. Daí eu realmente não consigo assistir esse senhorzinho de 70 e poucos anos (na época) se matando de trabalhar sem entendê-lo um pouquinho - e, em certa medida, me identificar com ele.
Porque aqui não é uma questão de falência do capitalismo, previdência social, burn out ou sei lá o quê. É essa paixão inegável pelo ato de criar. Ao longo do documentário, Miya-san se mostra meio cético e pessimista: acredita que o Studio Ghibli vai ruir após sua morte, diz que fazer filmes só causa sofrimento e que não vale a pena ter a felicidade como objetivo de vida. Mas ao longo dessas duas horas, que resumem uma jornada de quase uma década, não consegui não me emocionar com a constância desse artista que eu tanto admiro, fazendo o que ele mais gosta.
Se em O Menino E A Garça ele nos pergunta como vivemos, é em Hayao Miyazaki E A Garça que vemos a sua resposta: criando. Pode não ser a vida mais glamourosa, saudável ou dinâmica… Mas é a que ele escolheu. E poder escolher como passar seus dias é sim, Miya-san, a maior fonte de felicidade.









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