Princesa Mononoke, Ponyo e os vários tons de Ghibli
Críticas Gerais
A comunidade cinéfila tem vivido dias felizes: logo após mais uma Semana do Cinema entre o fim de agosto e o começo de setembro, temos em breve mais um evento cinematográfico rolando: a Ghibli Fest, que vai exibir catorze títulos do Studio Ghibli em cinemas de todo o Brasil. Contagiada por tudo isso, venho falar um pouco sobre dois títulos do estúdio que assisti recentemente pela primeira vez: Princesa Mononoke (1997), que tive a sorte de assistir em IMAX, e Ponyo (2008). Ambos foram dirigidos pelo mestre Hayao Miyazaki, um dos co-fundadores do Studio Ghibli, e estão disponíveis na Netflix.
Quanto mais penso sobre as obras de Miyazaki, consigo traçar vários paralelos entre as obras por ângulos diferentes - e talvez essa dupla que eu trouxe aqui não seja a mais óbvia. Mas é justamente por isso que escolhi esses dois filmes tão distintos: falar sobre cada um e o diálogo entre eles deve deixar claro para um não-iniciado em Studio Ghibli o quanto esse estúdio é diferenciado, tanto por suas escolhas criativas quanto por sua versatilidade. De cara, a principal diferença é o tom: Princesa Mononoke é uma narrativa mais séria e violenta - provavelmente, o menos “recomendado” para crianças do estúdio, por retratar uma guerra e não ter tantos momentos de descontração. Ponyo, por outro lado, é o filme que mais se enquadra que esperamos de uma história para o público infantil, tanto por sua leveza quanto pelo estilo dos desenhos, mais delicado e colorido.
Para quem não assistiu, Princesa Mononoke conta a história de Ashitaka, um príncipe que é amaldiçoado ao proteger sua vila de um tatarigami (deus que foi consumido pelo ódio). Ele segue para a floresta onde vivem os espíritos e deuses animais, a fim de buscar a cura, e se vê no meio de um conflito entre os humanos que vivem numa vila próxima e os seres da floresta - entre eles, uma garota que foi acolhida pelos lobos chamada San (e é conhecida na vila como Princesa Mononoke). Já Ponyo acompanha a jornada de uma peixinha que se aventura para fora do mar e conhece um menino chamado Sosuke. Ele a apelida de Ponyo e os dois formam um laço, mas o pai dela, Fujimoto - um humano que vive no fundo do mar - trata de trazer ela de volta. Mas, por também ser filha da Gran Mamare, a deusa das águas, Ponyo desenvolve seus poderes mágicos e faz de tudo para reencontrar Sosuke e viver como humana.
Dadas essas premissas, fica fácil identificar algumas semelhanças: ambos os filmes têm como título o nome que as personagens femininas recebem de outras pessoas - no caso de Ponyo, um novo nome carinhoso, no caso de San, uma alcunha pejorativa que os habitantes da vila deram para sua inimiga. Também são duas histórias em que um personagem transita entre dois mundos, um dominado pela natureza e outro pela humanidade - com a diferença de que em Ponyo, é a própria peixinha quem conduz a narrativa e em Princesa Mononoke, acompanhamos o ponto de vista de do príncipe Ashitaka. Essa distinção é importante, uma vez que Ponyo é literalmente um peixe fora d’água que se encanta pelos humanos por causa da gentileza de Sosuke, enquanto Ashitaka adota uma postura mais imparcial: consegue empatizar e se relacionar bem com o povo da vila, mas entende que é igualmente importante respeitar os deuses animais da floresta.

Claro, essa complexidade maior do universo de Princesa Mononoke é condizente com seu tom mais maduro: existe contradição em ambos os lados dessa guerra, o que potencializa o conflito. Além disso, dentro de cada grupo, existem tensões internas e motivações divergentes (os moradores da vila não estão necessariamente alinhados com os homens do imperador, e os lobos não concordam totalmente com os javalis). Enquanto Ashitaka tenta agir de forma conciliadora, San está convicta em defender os seres da floresta e despreza a humanidade - uma vez que ela mesma foi abandonada por sua família. É um desenho de relação inusitado, já que não chega a ser um “Romeu e Julieta”, com lados opostos declarados representados pelo casal principal. Ashitaka chega como um observador externo que convive com ambos os lados e luta somente quando necessário - mas, melhor do que isso: ele não impõe sua vontade à San e respeita a convicção da garota, demonstrando assim o seu afeto por ela.
No caso de Ponyo, o caos desencadeado pelo encontro de Ponyo e Sosuke está mais centralizado na personagem - e no seu poder que estava guardado até então. De forma inocente e sutil, o laço que se estabelece entre as duas crianças está ancorado no cuidado, valor presente em todas as relações humanas que vemos em tela: na profissão da mãe, que trabalha numa casa de repouso para idosos, nas mensagens de carinho que o pai envia em código morse enquanto está longe, nos trabalhadores da ponte que aguardam o carro de Lisa passar…Ainda assim, fica claro o risco que a humanidade traz aos oceanos, por meio da poluição. Fujimoto é alguém que, assim como San, deu as costas às suas origens por ter uma visão pessimista da humanidade - e inclusive tem planos para combatê-la. Só que, no fim das contas, é a própria Ponyo que, com seu amor desenfreado por Sosuke, acaba colocando toda a cidade litorânea em que o menino vive em risco.
Em termos bem simplistas, daria para dizer que Princesa Mononoke e Ponyo seriam os Pocahontas e Pequena Sereia do Studio Ghibli. Mas se formos falar em termos técnicos, ambas as obras deixam a Disney no chinelo: a animação de Ponyo foi desenhada à mão, quadro a quadro, com inspirações como a obra Ophelia e a ópera russa Die Walküre, e a fluidez da vida marinha se encaixa perfeitamente com o estilo do Miyazaki. Já Princesa Mononoke foi o primeiro filme do estúdio a misturar técnicas de CGI com animação desenhada à mão e conquistou um título de clássico cult com sua inspiração no folclore japonês e no gênero jidaigeki (drama de época japonês). Os cenários de Princesa Mononoke e Ponyo foram inspirados, respectivamente, na Ilha de Yakushima e na cidade de Tomonoura, em Hiroshima - Miyazaki visitou ambas pessoalmente para se inspirar.
E vale ressaltar como, em ambas as histórias, os aspectos fantásticos evidenciam ainda mais os temas que ancoram essas obras - e são, de certa forma, pólos opostos de uma mesma mensagem. Em Princesa Mononoke, Ashitaka é amaldiçoado por um deus que se deixou contaminar pelo ódio - o que justifica sua postura pacificadora: ele entende de antemão que o ódio não é a solução, e tenta propagar essa mensagem. Em Ponyo, por outro lado, a magia de Ponyo é movida pelo amor e, e seu desafio é justamente viver esse sentimento de forma equilibrada. Positivo ou negativo, amor ou ódio: qualquer sentimento em excesso tem seus efeitos colaterais. Pela forma como cada narrativa se encerra, vemos dois pontos de vista distintos sobre o quão realista é acreditar que esses sentimentos se manterão sob controle - cabe ao espectador refletir e encontrar sua resposta.







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