A Viagem de Chihiro, O Serviço de Entregas da Kiki e a magia do viver
Críticas Gerais
Em clima pós-Ghibli Fest, para além de assistir filmes que nunca tinha visto - como Princesa Mononoke e Ponyo -, também aproveitei para rever alguns dos meus títulos preferidos do Studio Ghibli. No meu TOP3 do estúdio, o terceiro lugar varia, mas certamente A Viagem de Chihiro (2003) e O Serviços de Entregas da Kiki (1989) se alternam entre a primeira e a segunda posição. Nada mais justo do que falar sobre eles aqui!
Até hoje lembro da sensação de assistir A Viagem De Chihiro pela primeira vez - uma mistura de encantamento profundo, estranhamento e até pouquinho de medo. Devia ter uns dez ou onze anos e nunca tinha visto um filme como aquele, era diferente até dos animes dublados que eu já assistia na TV aberta. Hoje, entendo essa autenticidade que me cativou lá atrás como uma convicção autoral profunda: o criador Hayao Miyazaki pinta e borda (ou desenha, no caso) sem qualquer pretensão de se encaixar no que se espera de uma animação infantil e materializa um universo único, especialmente nesse filme.
Para todos os efeitos, A Viagem de Chihiro é o grande fenômeno do Studio Ghibli: mesmo quem não conhece o estúdio ou o Miyazaki de nome já ouviu falar desse filme. Foi o primeiro filme de ambos a conquistar o Oscar de Melhor Animação, em 2003 - não que o Miya-san se importe, já que sequer compareceu à cerimônia por repúdio às ações dos Estados Unidos durante a Guerra no Iraque. Ano passado ele também não foi receber seu Oscar por O Menino E A Garça, mas seu produtor disse que foi por conta da idade avançada. Imagina quão bem-estabelecido na carreira você tem que ser pra mandar não um, mas dois “Ok, Academia, vai avisando”...

Mas de volta ao filme: o mais interessante, pra mim, é que minha lembrança era de não entender muita coisa enquanto assistia - e até agora, eu atribuía isso ao fato de ser criança e tal. Só que reassistindo, percebi que não: a narrativa de fato já vai se desenrolando de forma a deixar o espectador tão atordoado quanto a pequena Chihiro, que não tem nem tempo de questionar racionalmente sua suspensão de descrença (ou, o quanto as coisas que está vendo e sentido são plausíveis ou não). E entrando nesse aspecto, é possível comparar essas duas narrativas - já que, por mais que ambas possam se encaixar de certa forma no realismo fantástico, O Serviço de Entregas da Kiki adora uma estrutura mais didática e tradicional, mostrando aos poucos as “regras” de sua vivência bruxa.
A Viagem de Chihiro, por outro lado, se encaixa no gênero narrativo japonês chamado isekai, em que acompanhamos um protagonista que é transportado para um universo fantástico e completamente distinto da realidade com a qual está habituado. Muitos animes se encaixam nesse gênero e até o próprio O Menino E A Garça, obra mais recente de Miyazaki, também revisita a estrutura de isekai na trajetória do jovem Mahito. Em Kiki, temos o processo inverso: uma bruxinha deixa a casa dos pais para viver de forma independente numa grande cidade onde não há outras bruxas - ela é o aspecto fantástico que entra em cena.
A magia por si só tem papéis diferentes em cada história: enquanto em Kiki, ela representa o potencial que cada pessoa guarda dentro de si, como uma vocação ou talento nato, em Chihiro a magia usada pelas bruxas Yubaba e Zeniba são, na maior parte do tempo, algo a ser temido ou contornado - em outras palavras, um risco para a protagonista, em vez de uma força (como é o caso de Kiki).

Outro paralelo digno de nota é o fato de que tanto Chihiro quanto Kiki precisam literalmente trabalhar para se estabelecer na nova realidade em que chegaram. Mesmo quando são ajudadas por outros personagens, em nenhum momento são infantilizadas, “pegadas no colo” como se fossem apenas garotinhas. Pelo contrário: elas conseguem avançar ajudando os outros, aprendendo novas habilidades e se desafiando a cada dia. Resumindo, passam pela famosa jornada de amadurecimento ou coming of age, que acontece de maneira metafórica por meio da fantasia e de forma introspectiva, típica de narrativas japonesas.
Bem como eu lembrava, O Serviço de Entregas da Kiki é muito mais profundo do que aparenta inicialmente, tocando em dilemas bem comuns no início da vida adulta como a falta de traquejo social, as dificuldades de montar um lar por conta própria, o vazio existencial que vem com a entrada no mercado de trabalho… Mas também, vale dizer que só assisti Kiki depois de adulta, já na faculdade. Me pergunto o que teria sentido ou interpretado da história quando criança. Num lado mais cerebral e reflexivo, me identifico muito com a Kiki e tem dias que acordo com coragem pra dizer que esse é meu filme preferido do Studio Ghibli. Na sua simplicidade, é um filme cheio de acertos e significados.
Mas acontece que A Viagem de Chihiro me faz sentir criança de novo. Reassistir foi sentir de novo a confusão, o assombro e a emoção, que transborda pelos olhos. E é uma coisa que eu não consigo explicar racionalmente, usando termos de roteiro ou seja o que for. É pura sensação. Uma cena específica em que a Chihiro cai no choro comendo oniguiri me toca de um jeito tão visceral que eu só consigo explicar dessa forma: eu me vejo nela. No sentimento guardado, no desamparo infantil, na incerteza que o futuro traz.

Só que eu também me vejo na Kiki, principalmente quando faço um paralelo do seu serviço de entregas com a de roteirista freelancer. Uma sequência em que ela se atrasa toda e perde uma festa que queria ir também me partiu o coração: quantas vezes já não tentei fazer mil coisas num dia e terminei frustrada? O fato dela parar de conversar com seu gato também é uma metáfora dolorida de como crescer também é deixar coisas pra trás.
Resumindo: impossível escolher um favorito. Fica a recomendação para quem ainda não assistiu esses dois ótimos filmes e minha total admiração pelo trabalho do Miyazaki, que constrói protagonistas femininas com sensibilidade, mas sem diminuí-las. Chihiro e Kiki sofrem, mas não fogem dos seus sentimentos - porque não é isso que ser forte significa. Elas abraçam quem são e seguem de coração aberto, encarando a realidade com olhar de maravilhamento depois de tudo que passaram. Tá aí uma magia que vale aprender.







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