Frankenstein é o monstro
Críticas Gerais“Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu ao homem. Por isso ele foi acorrentado a uma rocha e torturado por toda a eternidade”.
Frankenstein é um livro bem antigo. Nos dois séculos em que a obra existe, já foram publicadas diversas análises sobre os personagens, viajando pelas suas incontáveis adaptações. Mas sempre é possível trazer uma visão nova e pessoal. E resolvi fazer isso, considerando o novo filme da Netflix, dirigido por Guillermo del Toro, no desafio deste mês de “E Se os Vilões Fizessem Terapia?”.
O filme em si é fantástico, e certamente vai estar nas conversas sobre os melhores do ano. Um filme com uma mensagem bonita, aspectos técnicos impecáveis, e trazendo a adaptação do livro que, ainda que tome liberdades narrativas, vem para somar, se colocando como uma das melhores e mais completas releituras. É, sem dúvidas, uma excelente adição à filmografia do diretor.
Mas, para este desafio do mês, temos que focar no vilão da história. E quem é o verdadeiro vilão de Frankenstein? Uma conversa comum quando se fala nessa obra é o clássico “Ah, Frankenstein não é o nome da Criatura… mas do doutor!”, que comumente pode ser respondido com “Mas o verdadeiro monstro é o doutor!”. E, sim, aqui vamos colocar na cadeira do psiquiatra quem, como o próprio filme deixa a entender, é o verdadeiro monstro: o doutor Victor Frankenstein.
Em um flashback no início da sua história, aprendemos que Victor foi muito maltratado pelo seu pai, e teve uma relação próxima com a mãe. Essa relação foi interrompida cedo, colocando um trauma edipiano em Victor, que construiu as suas ambições em volta desse ocorrido. Isso é muito reforçado visualmente para o personagem de Victor e o expectador quando vemos Mia Goth atuando tanto como a mãe quanto como Elizabeth, o interesse amoroso (aqui, noiva do seu irmão).
Essa ambição o leva a querer, acima de tudo, vencer a morte. Foco no “acima de tudo”. Mas essa não é uma visão isolada de um personagem. O ser humano tem, por natureza, medo do desconhecido que a morte pode trazer. E aqui entra o aspecto religioso presente desde a história original, mas que permeia a todo o momento esta adaptação. Victor Frankenstein quer ser como Deus e, como Eva, morde o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ele cria um novo ser humano.
Mary Shelley, autora do livro que deu origem ao filme, dá um subtítulo para a história de Victor: “Prometeu Moderno”. Prometeu foi um titã da mitologia grega que teve a tarefa de criar os seres humanos. Ele acaba, então, por roubar o fogo dos deuses e entregar ao homem, sendo castigado diariamente por 30.000 anos por isso. A criação de Victor, então, vem como o fogo, e traz a sua decadência.
Há algumas teorias de estudiosos em torno da obra de Shelley e da natureza de Frankenstein. Uma delas é que a Criatura é outro lado do próprio Victor, como uma espécie de O Médico e o Monstro. É inegável que é possível fazer um paralelo aí, quando acompanhamos a trajetória da Criatura ao redor do ciclo social de Victor e o caos trazido por ela. Mas é por ela? Ou pelo próprio Victor?
Nesta versão, Victor exala um egoísmo que já estava presente no livro, uma característica forte do Romantismo. Isso é um problema forte que vemos sendo questionado pela própria Criatura em um momento do filme. Tudo tem que ser do jeito dele, quando ele quer, para resolver os problemas dele. Parece que o mundo gira em torno de Victor Frankenstein. E, não ironicamente, aqui gira, já que a história se chama… Frankenstein. A trajetória, então, acaba se direcionando para Victor perceber a compaixão que deve ter pela sua criação e, consequentemente, pelas pessoas à sua volta. Ele precisa conhecer o perdão, a caridade, o amor. Isso é mostrado aqui de um jeito muito bonito, com uma carga emocional construída muito bem pelas duas horas e meia do filme.
O que, então, o problema de Victor Frankenstein nos fala sobre o mundo em que vivemos? Como tivemos o “Prometeu Moderno” em 1818, o que forma o “Frankenstein Moderno” em 2025? Um dia desses fiquei chocado negativamente quando um professor falou sobre a tendência dos Companions de IA. Pessoas que recorrem à IA, por não terem sucesso nas relações sociais, para conseguirem amigos, namoradas. Tem lugares no Japão até mesmo adaptados para recebê-las. Relacionamentos que vão acabar quando faltar energia ou quando essas pessoas não pagarem a mensalidade (porque, sim, assim como muito do que consumimos, eles também são vendidos como assinaturas). Essa é uma tendência horrível, que mostra um caminho bem errado pelo qual a evolução tecnológica está trilhando. Teve até um filme deste ano, de comédia com terror, Acompanhante Perfeita, que trouxe casos como esse à tona, mas é uma surpresa perceber que eles realmente existem.
Inteligência Artificial é uma vertente fácil de fazer um contraponto com a história de Frankenstein, mas também é possível ver isso em outras questões. Principalmente quando falamos em estudos com ética nebulosa de evolução da medicina ou da ciência, que acabam dando ao homem poder relativo a um progresso “acima de tudo”. Quem brinca com o fogo vai acabar se queimando. Felizmente, muito disso acaba sendo regulado, mas devemos manter os olhos abertos. Um bom exemplo disso pode ser visto em Oppenheimer, em que a metade final do filme, após a bomba ser lançada, lida com as consequências da culpa de um Prometeu americano.
Mas não só na ciência podemos encontrar Victor Frankenstein hoje. Vivemos em uma época de relações rápidas e líquidas, estímulos constantes, que fazem atiçar o egoísmo comparável ao personagem aqui analisado. É uma geração com uma epidemia crescente de ansiedade, e que continua alimentando isso dia após dia. E isso tem como consequência relacionamentos mal vividos, problemas com pessoas próximas, e um “eu quero…” “acima de tudo”.
Mas… estamos perdidos? Não tanto quanto estávamos quando Shelley publicou Frankenstein. E eu não quero que saiamos daqui com uma visão pessimista do mundo. Ele tem jeito. Assim como o final do filme de del Toro é otimista, também devemos ser. Assim como Victor aprendeu, é possível apresentarmos para as pessoas à nossa volta o perdão, a caridade, o amor. Um jeito de fazer isso é, de uma forma bem metalinguística, fazer o que estamos fazendo aqui, apresentando obras como Frankenstein. Literatura e cinema são bons meios de estudar a sociologia do ambiente em que vivemos. Assim como o livro Frankenstein é um documento que fala sobre a sociedade de 1818, o filme Frankenstein é um documento que fala sobre a sociedade de 2025. Com obras da ficção, diferente da não-ficção, conseguimos sentir os exemplos e o que o autor quer trazer ali, não internalizando de um jeito só informativo, mas através das emoções. E isso fica cravado na nossa mente de um jeito bem mais forte. A arte alimenta a alma.
Podemos, então, tirar muito do exemplo de Victor. Muito do que não fazer, mas muito do que temos que melhorar. Entender o próximo, não querer brincar de Deus, perdoar. E, assim como ele foi analisado aqui, é importante dizer que também temos como saída o fato de que sempre existe a opção de buscar terapia!
"O coração há de se partir, mas, partido, ainda viverá".





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