Juntos... e Shallow Now?

Críticas Gerais

Não é sempre que Juntos elabora a sua temática de um jeito mais audiovisual, que dispensa um texto expositivo em prol de alguma ideia narrativa menos didática. Mas, ocasionalmente, esse filme dirigido por Michael Shanks encontra ótimos jeitos de manifestar suas ideias nesse terreno mais inteligente, como acontece logo no início, ao conhecermos pela primeira vez o casal Tim e Millie (vividos por Dave Franco e Alison Brie, casados na vida real). Na situação em questão, eles estão dando uma festa de despedida para seus amigos, pois vão se mudar para o interior por conta de uma decisão profissional de Millie, e ela comenta inocentemente, com Tim, que todos ali adoraram o fato de eles terem combinado as suas roupas perfeitamente. Poucos segundos depois, Tim aparece em cena com uma jaqueta totalmente diferente, e fica muito nítido para nós o quanto ele se incomoda com essa assimilação da sua identidade, por parte da sua parceira.

Claro que, depois, o filme vai reforçar isso de um jeito mais didático e verborrágico, talvez num exemplo de uma certa insegurança do roteiro — também assinado por Michael Shanks — mas todas as vezes em que Shanks evita esse caminho mais fácil, o filme ganha muito por isso, mesmo que a sua temática seja um tanto rasa. Afinal, Juntos se utiliza dessa trama sobre um casal desajustado sendo forçado a se unificar (de uma forma grotescamente literal) mais como pretexto para brincar com o horror corporal… referenciando de David Cronenberg a Coralie Fargeat e apostando que esses elementos, aliados à ótima química do casal protagonista, já serão suficientes para segurar a proposta por completo.

 

E meio que são mesmo. Juntos é um bom passatempo no cinema, efetivo o suficiente para garantir momentos de agonia escapista mas também capaz de desenvolver o seus personagens o suficiente para que esses momentos de terror não soem gratuitos ou distantes demais. Parte importante desse apelo recai sobre o elenco, com Dave Franco gradualmente se transformando naquela sua versão desesperada, auto-depreciativa e histriônica que vimos na série The Studio, e Alison Brie incorporando todos os trejeitos da namorada passivo-agressiva e dominadora, sem que Millie se torne, no entanto, uma caricatura unicamente antagonista. Na verdade, o filme funciona porque ambos os personagens soam bastante reais, exibindo falhas verdadeiras mas também trazendo características facilmente relacionáveis, como a justa irritação de Millie com as atitudes imaturas de Tim e o jeito como ele projeta suas falhas nela.

Mas fora desse terreno da temática, o diretor é hábil em criar um clima intrigante, que se alimenta das pequenas migalhas de construção de um universo bizarro para dar um pouco mais de estofo ao que poderia ser somente uma casualidade (no caso, essa ideia dos corpos que vão se assimilando, tortuosa e inevitavelmente). Não que o filme escape de uma certa previsibilidade. Por exemplo, assim que um certo coadjuvante aparece, já sabemos na hora que ele esconde algo sinistro por trás de sua fachada amigável… mas essa sensação de familiaridade com o desenrolar da história não prejudica tanto o aproveitamento da jornada em si, já que o atrativo permanece sendo essa relação quase funcional entre o casal principal — e a sua descoberta gradual do que realmente está acontecendo com eles.

 

Pena que, na hora H, o filme se recuse a ser mais visualmente explícito em praticamente todas as oportunidades que ele tem de o fazer. Frequentemente, quando Juntos está prestes a entregar alguma imagem marcante e capitalizar em cima da tensão construída com uma catarse agonizante e duradoura, a montagem corta para o momento em que a cena já foi resolvida, escolhendo priorizar o humor ao invés do desconforto… e isso até pode apelar para um público mais amplo, que prefere ser entretido positivamente a cada virada da história, mas o resultado se torna um pouco mais genérico e nitidamente menos corajoso. Se é para pensar na inspiração citada atrás, Cronenberg e Fargeat assumiram o potencial violento e grotesco de suas obras com muito mais ousadia… e colheram os louros por isso, também.

Mesmo pensando na trama, o clímax também soa igualmente raso, já que tudo acontece rápido demais e sem que realmente sintamos as consequências das ações de Tim e Millie, ainda que a cena em questão seja bacana e consolide uma imagem perturbadora que foi sendo sugestionada ao longo do filme todo. Mas é um momento corrido, que recorre a uma tendência que não me agrada muito no tipo de terror que domina produções contemporâneas, estilo A24 ou Neon (que produziu esse filme, no caso): a tendência de priorizar o final abrupto e subversivo do filme em DETRIMENTO à trama que vinha sendo construída. Em casos assim, que observo também em filmes como Santa Maude, O Demônio de Neon e Longlegs - Vínculo Mortal, o final chocante parece mais um atalho que o diretor toma para chegar aos créditos e se isentar de realmente concluir a história que ele vinha contando… e algo semelhante ocorre aqui em Juntos, quando Michael Shanks decide abreviar o desenvolvimento de seus personagens sem que possamos sentir o efeito dessa decisão, propriamente (o que também pode ter sido uma decisão orientada para manter o baixo orçamento do filme, já que explorar esse aspecto por mais tempo exigiria um uso prolongado de uma computação gráfica bastante complexa).

 

Ainda assim, Juntos oferece uma experiência bacana dentro do que se propõe, mesmo que menos profunda do que poderia ser caso mergulhasse com gosto nos seus melhores atributos. Aliás, imagino que o filme se torne ainda melhor caso seja assistido na companhia de um parceiro, o que deve render uma conversa pra lá de interessante, depois da sessão. 

Obs. Achei o filme raso, e o trocadilho com Juntos e Shallow Now (na melhor tradução já feita de uma música em toda a história da humanidade) foi inevitável. Mas raso não quer dizer ruim, apenas significa que dá pra gente molhar o pé e seguir em frente, ao invés de ficar ali nadando por mais tempo. Dependendo do tipo de filme, isso é plenamente suficiente… e é o caso, aqui. :)

 

 

Comentários 2

V
VanessaFreitas08 de agosto de 2025
Eu tava doida para ler uma crítica desse filme. Adorei o que você falou. Sinto que agora vou ver o filme com as espectativas mais alinhadas rs. Um ótimo texto!
M
Mari Stocco8 de agosto de 2025
Achei a metáfora da assimilação de identidade TÃO boa. Isso de “se tornar um só” no relacionamento, às vezes, é só o outro virando você sem te perguntar antes, né? Haha. Mas concordo que o filme poderia ter mergulhado mais no grotesco. Se é pra ser corpo horror, então que seja com gosto! Fiquei esperando aquela cena memorável, tipo da Fargeat em Revenge, e veio só uma piscadinha tímida. Ainda assim, Brie e Franco carregam com muita dignidade — e química de casal real ajuda demais.

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