Púrpuro
SuspenseI
Era uma manhã como qualquer outra. As calopsitas cantam. O sol da manhã invade a sala do pequeno apartamento, bem decorado e colorido. As janelas, como sempre, bem abertas, deixando todo um vento e as sinfonias das ruas invadirem o majestoso espaço.
Num pequeno jardim de apartamento, na boca da janela escancarada, Angelo poda uma roseira quase morta. Removendo as partes podadas, o jovem esguio, espeta seu dedo em um espinho e leva à boca para chupar o sangue. Sem que perceba, uma gota de seu sangue pinga na planta. Uma gota em forte tom de roxo.
Um miado arrastado invade o ambiente e Angelo se irrita. Ele se volta para sua varanda onde encontra o arisco gato de sua vizinha, mais uma vez rondando as calopsitas. Do andar de baixo, a velhinha grita:
— Bartolomeu tá ai de novo, menino?
— Tá sim, dona Noemia. Quer que eu leve ai?
— Por favor, meu filho. Eu até iria ai, mas meu joelho tá doendo demais hoje…
Angelo apanha o gatinho e sai da varanda segurando ele, enquanto resmunga falando mal da velha, “incapaz de cuidar de um gato”. Até que o rapaz olha para sua roseira e percebe que ela recuperou completamente a vida. Está linda e robusta. Ele solta o gato, que imediatamente corre de volta à frente da gaiola dos pássaros, voltando à ameaça silenciosa.
Angelo encara a roseira, enquanto mais uma gota de sangue escorre pelo seu dedo e mancha o chão. E então ele percebe a cor do sangue. Roxo. Brilhoso. Ele encara o dedo machucado, com um tom de roxo borrado, meio coagulado. O miado arrastado do gato volta a invadir o espaço. Angelo corre para levá-lo embora.
II
Na cozinha, sentado em uma pequena mesinha para dois, Angelo pesquisa “Sangue pode mudar de cor”. Vários resultados sobre cor de sangue menstrual são tudo que ele encontra. A pesquisa é interrompida por André, namorado de Angelo, que volta da feira. Carrega consigo algumas sacolas e cumprimenta o namorado com beijinhos. Angelo bloqueia o celular quando o namorado se aproxima.
— Amor, aproveita que cê tá ai e trata o peixinho para nós? Vou banhar…
— Claro! Vai lá. — Enquanto sorri amarelo para o namorado.
André sai e Angelo começa a abrir as sacolas, desmanchando o sorriso que tinha no rosto. Procura o peixe, põem a tábua, afia a faca.
Angelo encara o peixe na tábua de cortar. Ele encosta a faca sobre o corpo do peixe, mas hesita.
O jovem leva a faca até a mão e faz um pequeno corte na ponta de um dedo. O sangue púrpuro escorre pela mão do homem.
— Amor tu botou comida para os passarinhos? — André grita do banho
— Botei — Sem dar atenção
Encara a mão. O sangue que escorre.
Uma gota cai no peixe.
Angelo observa atentamente
A pequena mancha roxa brilha na escama do peixe.
Nada acontece.
Angelo se vira e usa um pano de prato para estancar o sangue. Até que se volta para o peixe novamente e se assusta ao ver a primeira pancada. A criatura se debate violentamente na tábua de cortar. O peixe é forte. Bate bruscamente como se a violência de sua batida fosse capaz de salvar sua vida.
Angelo pega a faca e rapidamente bate com o cabo na cabeça do peixe. O peixe para de se mover e volta ao estado de morto. Angelo respira fundo e encara o animal estirado em sua frente. No olho esbugalhado, um pouco de roxo é possível ser visto.
Angelo joga o peixe na lata de lixo, abaixo da pia.
III
Em uma pequena mesinha de centro, sentados no chão da sala, Angelo e André comem sushi.
— Não acredito que aquele peixe tava estragado.
Angelo, aéreo, come sem dar muita atenção para o parceiro.
— Parecia fresquinho…
— Uma pena, né?!
— Tá tudo bem com você, amor?
— Tá sim, só to com a cabeça cheia, meio esquisito…
— Como foi a manhã aqui?
— Normal
— Tudo em paz?
Angelo faz que sim com a cabeça.
— O gato da vizinha encheu o saco de novo né?! Dona Noemia me falou quando tava subindo…
— É. Sei lá.
— Tava pra te contar, feira tinha um senhorzinho muito engraçado que tu ia amar ter conhecido, sério… — Angelo para de ouvir, completamente em transe. Ele encara a roseira que brilha de uma maneira única. Majestosa. O tom de roxo caiu muito bem para a planta, revelando uma beleza que nenhuma outra cor carregou.
— Tá tudo bem, mesmo, Angelo?
O jovem sai do transe novamente.
— Sim, sim…
— Então por que você não me dá um pouco do púrpuro, hein?!
Angelo olha com descrença.
— Que?
— Me passa o Shoyu, amor. Casou com o vidrinho, foi?
André dá uma breve risada. Angelo entrega o vidro de shoyu e volta a comer, um pouco confuso.
Angelo volta ao seu transe com a planta.
— Linda essa roseira nova que você comprou.
— Uhum. A mais linda de todas…
IV
Sentados no sofá, o casal assiste a um filme estrangeiro. A TV ilumina a sala em tons de roxo. André está caindo no sono lentamente e Angelo lhe cutuca.
— Dormiu.
O namorado acorda no susto e, sonolento, levanta.
— Vou ir de cama. Cê vem?
— Você sempre dorme no meio do filme.
— Você sempre escolhe filme chato.
— Boa noite.
— Boa. Não esquece de fechar a janela quando vir dormir.
— Tá…
O tempo passa, Angelo cochila e quando acorda o filme já acabou.
Angelo caminha até a janela, olha a roseira. A flor segue robusta e agora tem uma tonalidade próxima ao roxo. Hipnotiza o homem.
— Oi. Não precisa me agradecer.
Ele encara a planta.
— Eu te dei vida, sabia?
— Por extensão, agora você é uma parte de mim… E não me entenda errado. Eu também sou uma parte de você!
— Entende tudo que somos, parte de mim? Somos extraordinários! Únicos!
Ele passeia pela sala enquanto conversa com sua planta.
— Mas, sabe guardar um segredo, parte de mim?
Diante do silêncio, Angelo se vira e caminha para a cozinha.
— Claro que sei! — A roseira exclama com uma doce voz feminina.
Ele se volta para a planta, assustado.
— Você… fala?
V
Angelo acorda no susto. Estava dormindo no sofá. O homem olha ao redor e o chão da casa está cheio de penas. Não demora para ver os corpos dos passarinhos. Para piorar, o trinco do quarto, André levantando!
— Amor?
— Não vem pra cá, André?
— Osh, por que?
— Porque… eu to preparando uma surpresa para você. — Angelo começa a colher as penas com a mão.
— Ui! Café da manhã na cama é?!
— Uhum…
Angelo limpa tudo e corre para a cozinha. Junta um pouco de tudo que encontra, joga uma toalha por cima da mesa e disfarça de improviso um café da manhã planejado. Quando tá tudo quase pronto, exceto uma pequena pena que escapou, André surge na sala. Não está surpreso com o café de improviso e está bem arrumado.
Surpreso, Angelo pisa forte em cima da pena.
— Amor, eu meio que esperei tudo que dava, mas eu preciso muito sair para não me atrasar. Posso comer um pãozinho agora e o resto depois?
— É… Claro! Sem problemas! — Angelo suspira aliviado
— Não fica chateado, por favor!
— Não, tá de boa.
Quando o barulho do trinco levanta, Angelo tira um saco preto de lixo de dentro do armário. Ele abre o saco e tira os dois pássaros de dentro. O jovem saca uma faca e corta a palma da mão. A mão escorre o forte sangue púrpuro. Angelo deixa cair em cima das duas calopsitas, dispostas a sua frente. Pega cada uma com uma mão e vai à varanda.
Os pássaros voltam a cantar.
VI
Angelo varre a sala quando André entra frustrado.
— Filhos da puta, odiaram o projeto, ficaram enrolando e não vão querer mais.
Angelo segue varrendo, sem dar muita atenção.
— Pra completar eu ainda cai na porra da parada de ônibus e fiquei todo machucado no braço.
Angelo olha, há várias feridas no braço de André, elas são grandes e escorrem muito sangue. André se aproxima e abraça o namorado. Angelo segue olhando para as feridas durante o abraço, elas parecem pulsar.
— Melhor botar um pouco de púrpuro…
Angelo solta André e o encara, ofendido.
— Claro que não.
— Por que não? Uma pomadinha ajuda a cicatrizar.
— Para com essa merda! — Angelo se irrita
— Que foi, amor? É por causa do café da manhã, né?! — André tenta se aproximar de Angelo, mas ele não permite.
— Tu acha que vai me fazer de maluco com essa merdinha de fingimento?
André se preocupa.
— Do que você tá falando, Angelo? Só porquê eu to querendo um pouquinho?
— Um pouquinho? Tu tá armando pra mim que eu to ligado. Foi tu que abriu a janela né?
— Um pouquinho, o que, cara? Que janela? Você tá ficando maluco?
— Para com isso, porra!
— Calma amor, você tá muito tenso. Me conta o que aconteceu?
André força a aproximação.
— Não encosta em mim caralho.
Angelo desvia de André, e vai em direção a porta.
— Eu faço o jantar hoje, amor…
O namorado sai.
— Pra onde você tá indo, meu bem?
André olha ao redor e no impulso, segue o namorado.
VII
Angelo está visivelmente transtornado e furioso, percorrendo ruas ao léu. No seu encalço, André segue tentando a comunicação.
— Angelo eu tô falando com você, caralho.
Ele continua caminhando.
— Amor, o que você tá fazendo?
Angelo chega em um cruzamento. Observa o sinal à sua frente. Está verde. Angelo olha o tráfego e nenhum carro passa. Ele atravessa a rua. André hesita mas segue o rapaz. Angelo caminha, olhando pra frente.
— Angelo! fala comigo, amor.
Angelo se vira para trás, na direção de André. André, parado no meio da rua, encara o namorado.
— Me deixa em p… — Ele não tem a chance de terminar a frase, pois um carro
em alta velocidade atropela André de supetão.
Angelo fica em choque.
O som da buzina do carro tira Angelo do transe, ele corre na direção de André.
Angelo se aproxima do companheiro, caído no acostamento.
— Angelo... Me ajuda... Por favor...
Angelo olha para o companheiro, horrorizado.
— Por favor... Eu preciso... De...
Angelo dá as costas e vai embora. O sinal agora está vermelho.
VIII
Angelo entra em casa. Ele caminha lentamente, olha ao redor da casa. Na janela, a silhueta de um gato lhe encara. Os olhos brilham no escuro. Angelo encara de volta. O gato vai embora, evidenciado atrás de si a roseira.
— Ele era um interesseiro, Parte de Mim. Ele só me queria por causa do que a gente tem.
— Esse povo é uma escória mesmo. Não podemos dar um pé que já quer a perna, o braço e tudo mais que a gente tiver.
Angelo se aproxima da roseira, lhe pega na mão.
— Eles querem tirar tudo da gente. Mas você não é assim, né? Parte de Mim. Você não é assim...
Angelo busca uma faca na cozinha, vai até a varanda e lá, degola os passarinhos do namorado. Deles, sai sangue púrpuro. Angelo escorre todo o sangue dos animais, bebe tudo com uma sede incontrolável. Se lambuza e lambe o chão onde algumas gotas do púrpuro caíram.
— Ninguém nunca mais vai pegar o que é nosso.
Ele joga o cadáver no chão. Um pouco ao lado, o cadáver da outra ave.
— Isso, Parte de Mim, só nosso! Pra sempre!
Angelo, escolhe uma música e bota para tocar. Uma música enérgica, catártica. Animado e com um sorriso único, Angelo dança e canta no meio de sua sala. Ele acompanha o ritmo em passos que parecem ensaiados.
Angelo pega uma faca, disposta em uma mesa, a mesma que ele usou para degolar os pássaros.
No ápice do refrão animado, Angelo lentamente rasga os pulsos com a faca. Os pulsos de Angelo jorram o sangue púrpuro. O homem cai de joelhos e abre bem a boca. O sangue roxo escorre direto em sua garganta, Angelo bebe como quem encontra um copo de água em meio ao deserto.
O púrpuro escorre por seus olhos, nariz e boca. Angelo esboça um grande sorriso e cai completamente ao chão.
Na ponta do dedo de Angelo escorre uma gota de sangue.
Sangue vermelho.


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