Correr Bicho

Narrativa

Sou roteirista. Escrevo filmes de terror. Depois de ganhar um prêmio de roteiro relevante, com um longa de terror, havia certas expectativas em torno de mim de qual seria a próxima grande história.

Visando fugir de um bloqueio criativo, que já se estendia por meses, fui buscar inspiração no que mais me assustava na infância: As lendas urbanas do interior onde minha avó morava e que usualmente visitávamos, quando meus pais ainda eram casados. 

No caminho para ver minha avó fiz um esforço, das histórias que lembrava, havia uma que sempre me amedrontou profundamente: O Lobisomem de Irauçuba. Lembrei que a cidade inteira falava disso. Lembrei dos uivos noturnos que não me deixavam dormir.  

Cheguei na casa de Vozinha e fui recebida com um café quentinho e um bolo de milho. Especialidade da velhinha. Sem delongas falei do filme, falei que queria escrever algo novo e tava pensando muito sobre a antiga história do lobisomem na cidade. 

Vozinha sempre gostou de conversar. Qualquer coisa era assunto para a senhora. Mas contar histórias tinha um lugar especial para ela, sempre contava sorridente. Contudo, essa história não. Essa ela contou com uma voz séria, com o olhar distante.

Era a história de um garoto. Todas as noites a mãe fazia galinhada e todas as noites ele pedia para repetir, mas a mãe não permitia. Ela afirmava que a galinhada tinha que sobrar pro almoço do dia seguinte, caso contrário, não haveria comida para ele enquanto ela trabalhava nas casas vizinhas, lavando e passando roupa. 

Um dia, enquanto a mãe trabalhava, tentado pela gula, o menino pegou uma galinha no quintal e a matou. Temperou e fez uma galinhada numa panela de barro, numa fogueira improvisada, atrás de um mato alto. A criança comeu sozinha e, satisfeita, esqueceu até de limpar os rastros de sua imprudência. 

Perto do sol se pôr, a mãe chegou do trabalho e começou a cozinhar. O pai do menino retornou para casa da roça na sequência. Contou as galinhas para pôr no poleiro e sentiu falta de uma. As buscas começaram e o menino foi obrigado a procurar pela galinha que matou e comeu, até que o pai achou a panela atrás do mato alto. 

O pai perguntou ao menino o que havia acontecido e ele, assustado, colocou a culpa na mãe. Disse ao pai que ela havia voltado mais cedo naquele dia. Trouxe um homem barrigudo e fez galinhada para ele. Completou dizendo que o homem comeu tudo e que ele nem sequer provou o que a mãe tinha feito. 

Pensando na esposa com outro homem atrás do mato, o pai ficou tomado pela ira. Acreditando estar sendo traído, sacou o facão e foi ao encontro da esposa, a quem, na frente do filho, matou brutalmente a facadas. 

A mulher não teve chance sequer de explicar. Mas em meio à violência o brutamontes deixou claro: Estava lhe matando por tê-lo traído. À beira da morte, a mulher exclamou suas últimas palavras. “Aquele que levantou esse falso testemunho contra mim há de correr bicho nessa terra e há de morrer como eu”. 

Depois de matar a mãe, o pai do menino sumiu. Ordenou que o filho enterrasse no quintal e disse que o terreno era dele agora. Fizesse o que quisesse. O menino, depois de assistir tudo, ficou horrorizado. Vendeu o terreno por uma boa quantidade de dinheiro e vagou de cidade em cidade, fazendo bicos e juntando um dinheiro para ir para a próxima. 

A criança cresceu. O menino já era um homem e no meio das suas viagens, em Irauçuba, conheceu uma linda mulher, por quem se apaixonou e teve 2 filhos. Jurou tratar a esposa e os filhos diferente do pai. Queria dar a eles uma vida feliz. Mas havia algo no caminho. 

Nas noites de lua cheia, aquele marido atencioso e pai carinhoso sempre “saía para beber”. Na rua ele se escondia na mata e na medida que a Lua subia ao céu, suas unhas se tornavam garras, seus pêlos cresciam e engrossavam. Seus dentes se afiavam. O homem perdia o controle de si e corria mundo afora, destruindo e matando tudo que encontrava. 

Quando tornava a si, o homem não sabia se havia matado pessoa ou animal. Acordava nú e desorientado, como quem toma um porre a noite toda e nem lembra onde acordou. E assim voltava para casa e seguia a vida, até que uma nova lua cheia voltasse. 

Com o tempo, os boatos sobre o lobisomem se espalharam na cidade. Caçadores de todo o estado do Ceará foram a Irauçuba buscando matar e empalar a primeira cabeça de lobisomem do mundo. A fera até escapou duas ou três vezes. Mas eventualmente ficou fraca, caiu numa armadilha e fatidicamente terminou por tomar três tiros no peito. 

A esposa ainda chegou a encontrá-lo com vida, pois, ainda meio fera, voltou para casa sangrando, pronto para se despedir. Com os caninos saltando da boca, prometeu que daria uma boa vida à esposa e pediu que ela cuidasse bem dos filhos. 

De volta a pele de homem, não resistiu aos tiros e morreu em casa. Foi enterrado no quintal pela esposa, que cavando no canteiro encontrou um saco cheio de dinheiro. O dinheiro da venda da fazenda de sua família, o qual nunca gastou. Com isso, a mulher pode se estruturar e seguir a vida com os dois filhos. 

Eu posso jurar que a história já havia sido diferente em outro momento, mas daquela vez, uma lágrima escorreu do olho da velhinha. 

Foi então que entendi. Essa foi a história de como minha avó enterrou seu primeiro marido. A história de porque nunca conheci meu avô. 

Comentários 1

V
VanessaFreitas027 de agosto de 2025
Eu amei essa história e como você escreveu. Eu amo muito histórias de lobisomem. Minhas avós têm várias!

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