Pluribus

Críticas Gerais

Depois de redefinir a TV com Breaking Bad e depois provar que o milagre não foi sorte com Better Call Saul, Vince Gilligan volta pra televisão com Pluribus, do Apple TV+, e dá pra sentir em cada cena que é o trabalho de alguém que domina completamente o ofício. A série acompanha Carol Sturka, uma escritora de romances best-seller que chama o próprio trabalho de "lixo sem sentido" e se considera, sem meias palavras, a pessoa mais infeliz da Terra. Só que o mundo dela vira de cabeça pra baixo quando, no meio de uma turnê de divulgação, um vírus misterioso se espalha e transforma quase toda a humanidade numa espécie de consciência coletiva permanentemente feliz. Imune ao efeito, Carol se vê completamente sozinha num mundo onde parece que só ela ainda sente raiva, confusão e tristeza de verdade.

Produção de altíssimo nível

Dá pra perceber logo de cara o cuidado técnico por trás de cada episódio. A produção é impecável, com um ritmo próprio que não tem medo de ser pausado e contemplativo quando precisa, confiando plenamente que o espectador vai acompanhar sem pressa. É esse tipo de série que não tenta te agradar a cada dois minutos com reviravolta artificial, ela constrói atmosfera, constrói tensão silenciosa, deixa o desconforto crescer aos poucos. Isso é reflexo direto de uma direção extremamente segura do que quer contar, sem a ansiedade de precisar provar nada o tempo todo.

Vale destacar também o cuidado na construção sonora e na edição, que reforçam esse clima estranho de um mundo "perfeito demais". Os silêncios são usados com inteligência, as pausas têm peso dramático, e a trilha sonora (quando aparece) nunca tenta dizer ao espectador o que sentir, ela só reforça discretamente o que já está na tela. É o tipo de produção que confia no material e na atuação pra carregar a cena, em vez de depender de artifícios externos.

A fotografia é um espetáculo à parte

A fotografia merece destaque à parte, porque é realmente de outro nível. Cada enquadramento parece pensado nos mínimos detalhes, cada cenário vazio reforça visualmente o isolamento de Carol num mundo que virou estranhamente uniforme e ordenado demais. A estética marcante que já era assinatura de Gilligan em Breaking Bad e Better Call Saul aparece aqui reinventada: composições simétricas, uso inteligente de cores que comunicam tanto o conforto artificial do novo mundo quanto a solidão real da protagonista, planos abertos que fazem Carol parecer minúscula diante de um cenário imenso e indiferente.

Boa parte da série se passa em cenários que remetem ao universo visual que Gilligan já consagrou, e os fãs antigos vão reconhecer ali uma linguagem familiar, mas aplicada a um gênero completamente diferente: ficção científica, não mais crime ou drama de advocacia. Ainda assim, a mão do diretor é inconfundível, e isso por si só já vale a maratona.

Uma história que incomoda de propósito

A história em si é fascinante justamente por não dar respostas fáceis nem pressa em entregá-las. Pluribus não quer te convencer de que o mundo pós-vírus é puramente ruim, ela te coloca de frente com perguntas bem incômodas: vale a pena trocar individualidade, atrito, conflito e sofrimento por uma felicidade uniforme e coletiva? O que a gente perde quando tudo vira harmonia forçada? É uma espécie de meditação sobre solidão, conexão genuína e o conforto artificial que vem de abrir mão da própria identidade, ancorada numa atuação impecável de Rhea Seehorn, que carrega praticamente sozinha boa parte dos episódios com uma mistura de raiva, ironia e vulnerabilidade muito bem dosada.

É importante dizer que a série pede paciência. O ritmo é mais lento do que a maioria do público está acostumado hoje em dia, e tem episódio que se apoia muito mais em atmosfera e silêncio do que em ação ou grandes acontecimentos. Mas é justamente aí que mora a força dela: Pluribus não tem pressa porque confia no próprio material, confia que o espectador vai se interessar pelas perguntas que a série levanta, mesmo sem entregar tudo mastigado.

Um projeto ambicioso que vale o investimento

No fim, Pluribus é daquelas séries que exigem entrega e paciência, mas recompensam muito bem quem se dispõe a seguir o ritmo dela. Entre a produção extremamente cuidadosa, a fotografia marcante e uma premissa que fica martelando na cabeça depois que os créditos sobem, é mais uma prova de que Vince Gilligan continua sendo um dos nomes mais seguros e consistentes da TV atual. Não é surpresa que a série já tenha garantido uma segunda temporada: com um criador que já demonstrou dominar tão bem o ritmo de construção de uma história longa, a expectativa é que Pluribus só continue crescendo em complexidade e profundidade.

Pra quem gosta de ficção científica que prefere provocar reflexão a entregar resposta fácil, e pra quem já é fã do estilo visual e narrativo de Gilligan, Pluribus é certamente um dos lançamentos mais interessantes da TV recente.

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