Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho

Críticas Gerais

Tem série que a gente assiste uma vez e pronto. E tem série que a gente assiste, termina, e já quer voltar pro primeiro episódio. Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho, do Globoplay, é da segunda categoria. Eu já assisti três vezes, e juro que não me canso. Foi uma daquelas produções que me pegaram de um jeito que acabei ficando obcecada por tudo isso: o jogo do bicho, os clãs, o carnaval, as escolas de samba, as disputas, os bastidores de um Rio de Janeiro que a gente quase nunca vê contado desse jeito.

Lançada em outubro de 2023, a série documental tem sete episódios e foi produzida pelo Conversa.doc, o núcleo de documentários do Conversa com Bial. Ela mergulha na história das famílias que controlam o jogo do bicho no Rio e na relação delas com as escolas de samba, mostrando como essas figuras viraram patronos do carnaval enquanto, nos bastidores, enfrentavam guerras de sucessão, vinganças e acusações pesadas.

Uma produção de altíssimo nível

O que mais me impressiona é o quanto tudo na série é bem produzido. Dá pra sentir o cuidado em cada detalhe: a pesquisa, a organização do material, a montagem, a forma como a história vai sendo construída aos poucos, com reviravoltas que prendem do início ao fim. É um documentário que respeita o espectador, não entrega tudo mastigado e consegue manter o interesse mesmo quando existem dezenas de personagens e décadas de história pra acompanhar.

A edição merece um elogio à parte. Misturar imagens de arquivo, reportagens antigas, depoimentos atuais e cenas de carnaval sem deixar a narrativa confusa é um trabalho difícil, e a série faz isso com muita fluidez. Cada episódio parece uma peça de um quebra-cabeça maior, e quando as peças se encaixam, o resultado é muito satisfatório.

Entrevistas e histórias que fazem toda a diferença

Outro ponto altíssimo são as entrevistas. A série conseguiu colocar frente a frente com a câmera bicheiros, herdeiros e familiares, gente que raramente fala sobre esse universo, e isso dá uma camada de autenticidade enorme ao documentário. Ouvir essas pessoas contando as próprias versões, cada uma com suas contradições, suas justificativas e suas acusações mútuas, é fascinante. Também tem a análise de historiadores e jornalistas, que ajudam a contextualizar tudo e a entender o quadro maior por trás das histórias pessoais.

E as histórias em si são impressionantes. Os arcos de personagens como Miro Garcia, Capitão Guimarães, Castor de Andrade, Rogério Andrade e Bernardo Bello, além das figuras femininas que ganharam destaque, como as irmãs Shanna e Tamara Garcia, parecem enredo de novela, só que real. Cada episódio tem seu foco, seus conflitos e sua tensão, e o conjunto forma uma saga familiar e de poder muito bem desenhada.

A locução do Bial e as imagens de cobertura

Não dá pra falar de Vale o Escrito sem falar da locução do Pedro Bial. A voz dele conduz a série de um jeito muito particular: firme, cadenciada, com um tom que mistura seriedade e certa ironia, o que combina perfeitamente com o universo retratado. Ele tem esse talento de contar histórias absurdas sem perder a elegância, e isso dá identidade à série desde os primeiros minutos. A narração amarra os episódios, explica o que precisa ser explicado e ainda cria clima, sem nunca roubar o espaço dos entrevistados.

As imagens de cobertura também são um capítulo à parte. Os planos do Rio de Janeiro, as cenas de desfile, o sambódromo, os bastidores das escolas, as imagens de arquivo que recuperam uma época inteira, tudo isso é muito bem escolhido e bem filmado. Com a produção em 4K, tem plano que parece cinema, e isso dá ainda mais força visual a uma história que já é forte por si só. A estética casa com o assunto: luxo, tradição, violência e festa convivendo no mesmo cenário.

Os arcos que prendem do início ao fim

Uma das coisas que mais gosto é como os arcos estão bem construídos. A série começa apresentando os poderosos patronos, passa pelas disputas de território, mostra a ascensão das novas gerações e acompanha os conflitos que foram escalando até chegarem a um ponto quase sem volta. Mesmo sabendo o que vem pela frente na terceira vez que assisto, ainda me pego prestando atenção em detalhes novos: uma fala, uma expressão, uma cena de arquivo que antes tinha passado batida. É sinal de que o documentário é rico, com várias camadas pra descobrir a cada reassistida.

Também gosto de como a série deixa claro que muita coisa ali são acusações, versões e disputas de narrativa, sem tentar impor um veredito simples. O espectador acompanha, compara depoimentos e tira as próprias conclusões, o que deixa a experiência mais interessante.

Ansiosa pela segunda temporada

Agora estou totalmente ansiosa pela segunda temporada. A série já foi confirmada com novos personagens e famílias, e só de imaginar o que vem por aí me dá vontade de maratonar tudo de novo. Se a primeira já foi tão boa, a expectativa para a continuação é enorme, principalmente depois de ter ficado tão envolvida com esse universo. Vale o Escrito é, pra mim, um dos melhores documentários brasileiros recentes, e uma prova de que a gente tem histórias riquíssimas pra contar.

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