A genialidade perdida de "Shrek"(2001) e "Shrek 2" (2004)
NarrativaAo meu ver, “Shrek” e “Shrek 2” são filmes muito mais ricos do que parecem ser. Todos concordamos que esses dois longas são divertidos e icônicos, mas existe uma camada narrativa nessas histórias que promove um comentário potente sobre a indústria do entretenimento norte-americana. Nesta coluna, eu pretendo destrinchar não só o modo como “Shrek” se fez genial, como também o momento em que tal genialidade se perdeu dentro da própria franquia.
Este texto será um pouco mais longo do que o normal. Então, desde já, agradeço imensamente pela sua atenção e uma excelente leitura.
O ano é 1989. Após diversos fracassos em bilheteria, a Walt Disney Pictures volta aos seus tempos áureos com “A Pequena Sereia”. Estava aberta a nova fase de animações do estúdio, conhecida como a “Era do Renascimento”. Foi nesse período que tivemos “A Bela e a Fera” (1991), “Aladdin” (1992), “O Rei Leão” (1994), “Mulan” (1998) e muitos outros grandes sucessos que revitalizaram o nome Disney na indústria das animações. Hoje em dia, é difícil pensar no universo criado por Walt Disney sem os ícones estabelecidos nessa época. Inclusive, uma parte considerável do grande público tem esses longas como os seus favoritos. Eu mesmo faço parte desse grupo!
E por trás dessa revitalização dos anos 90 havia um nome: Jeffrey Katzenberg. O seu rosto talvez não seja o mais popular para o grande público, mas dificilmente teríamos a “Era do Renascimento” sem Katzenberg. Ele ocupou o cargo de presidente da Walt Disney Studios entre os anos de 1984 e 1994. Ou seja, foi sob o seu comando que a Disney ressurgiu das cinzas e atingiu um novo patamar de sucesso.

Em 1994, porém, nós temos o fim do casamento entre Katzenberg e a Disney. Conta-se que o CEO da empresa na época, Michael Eisner, teria negado o cargo de presidente da divisão de animação para Katzenberg, cargo esse que lhe fora prometido. Sentindo-se traído pelo colega, Jeffrey pede demissão e propõe um acordo com o estúdio, o que viria a lhe render o módico montante de R$ 250 milhões de dólares.
Sem emprego e milionário, Katzenberg estabelece relações com ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg e o executivo David Geffen. Os três idealizam a criação de um novo estúdio em Hollywood, capaz de entrar no mercado com grandes produções animadas e em live-action. Assim, no mesmo ano em que é demitido, Katzenberg e seus colegas fundam a DreamWorks Animation, o estúdio que hoje conhecemos por grandes sucessos de público e crítica.
Nos seus três primeiros anos, a Dreamworks lançou quatro longas animados: “FormiguinhaZ” (1998), “O Princípe do Egito” (1998), “O Caminho para El Dorado” (2000) e “A Fuga das Galinhas” (2000). Ainda que esses filmes tenham conquistado um certo espaço, nada indicava uma ameaça para a gigante Disney. Na época, havia um burburinho maior com um outro estúdio, chamado Pixar, cujos lançamentos apresentavam inovações para a indústria do entretenimento. A DreamWorks, portanto, ocupava um espaço, mas ele não era o suficiente para demarcar um fenômeno cinematográfico.
Tudo viria a mudar em 2001…
O protagonismo de um rejeitado
O século XX acompanhou a ascensão da Walt Disney Pictures. O estúdio estabelecia o padrão da animação norte-americano, superava essa padrão e lançava uma nova animação que subia ainda mais a régua. Com o tempo, as produções da Disney se tornaram a referência mundial para quem quisesse trabalhar com curtas e longas animados.
Isso tanto é verdade que nós dificilmente desvinculamos contos e histórias clássicas das adaptações feitas pelo estúdio. Quando você pensa em “Branca de Neve”, qual imagem lhe vem na cabeça se não a moça de pele clara, cabelo escuro curto e roupa azul, amarela e vermelha? Quando se fala em “Aladdin”, você vai para o conto original de As Mil e Uma Noites ou para “A Noite na Arábia”? Entende do que eu estou falando?
A Disney fincou a sua bandeira no imaginário popular. Ela criou tendências, marcas e, sobretudo, estruturas narrativas. Estabeleceu-se uma fórmula para se contar histórias infantis, fórmula essa com signos e princípios morais claros. Nós aprendemos com a Disney como as princesas devem se portar, como podemos ser corajosos e bondosos, que o mundo tem o Bem e o Mal e que, no final, tudo dará certo e nós podemos viver felizes para sempre - fim. Desse modo, as animações da Disney não criaram apenas um padrão de animação, mas também compuseram um corpus cultural.

Então, chegamos no século XXI e a Disney é a gigante que conhecemos. Ela teve os seus percalços, é verdade, mas retornou com tudo para mais uma era de reinado na indústria. O legado do estúdio está a salvo.
Ao menos, é o que parecia…
Katzenberg havia feito parte desse legado. Ele restaurou a Disney quando a credibilidade do estúdio estava em decadência. Ele entendia a linguagem clássica criada por Walt Disney, tanto que foi capaz de resgatar a magia das produções antigas para fomentar a “Era do Renascimento”. Ou seja, um profissional qualificado e fluente no padrão Disneya frente de um outro estúdio da animação, a DreamWorks. A receita para o sucesso parecia óbvia, bastava que Katzenberg emulasse o trabalho da sua antiga empresa para emplacar sucessos de bilheteria.
Mas ele não fez isso. Katzenberg e sua equipe tomaram o imaginário coletivo estabelecido pela Disney e o sobverteram ao invés de imitá-lo. Eles optaram pela via da sátira.
Até a escrita deste texto, eu nunca havia pensado “Shrek” (2001) como um filme próximo de “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!” (1980), “Top Gang - Ases Muito Loucos” (1991) e “Todo Mundo em Pânico” (2000), mas isso é algo que faz muito sentido quando paramos para refletir. Todos esses filmes se propuseram a reunir cacoetes de algum gênero para ridicularizá-lo tanto quanto possível. “Top Gang” debocha dos filmes de ação; “Todo Mundo em Pânico”, dos filmes de terror. Shrek” mira as animações que adaptam os clássicos dos contos de fadas.
A animação da DreamWorks não leva isso ao extremo do absurdo tanto quanto os outros filmes que eu trouxe, mas adota a sátira como linguagem principal assim como os demais. Há certos elementos na história daquele ogro ranzinza que brincam com tropos mais antigos do que a própria arte do cinema. No entanto, a principal tradução desses tropos para o público infantil moderno foi aquela promovida pela Walt Disney Pictures. Ou seja, ainda que mirasse nos contos de fadas, “Shrek” acertava na verdade a Disney.
Dessa maneira, “Shrek” não só tira sarro de arquétipos e heranças culturais do ocidente como também ironiza o modo hegemônica de se contar histórias por meio da animação. Essa é a maior genialidade de “Shrek”. O protagonista não é um príncipe encantando, mas um ogro antissocial que seria derrotado pelo príncipe encantado na Disney. A princesa desse filme não corresponde ao padrão esperado daquele modelo de feminilidade recatado e harmonioso. O principal personagem coadjuvante é cômico como vários companions de outros filmes, mas ele pontua um humor muito mais adulto do que qualquer outro projetado para crianças. Os seres fantásticos beiram o ridículo e o vilão do filme é caricato, sobretudo quando tenta ser amedrontador. Até mesmo a música estabelece um outro tom para o longa, pois não é a música clássica e marcadamente instrumental, mas músicas pop da virada dos anos 2000. Por fim, ainda temos uma animação sem compromisso algum de ser bonitinha. Em uma época onde o 3D ainda estava se estabelecendo na animação de seres humanos, há um "quê" de vale da estranheza em “Shrek”, mas não há problema algum nisso, pois o desconforto gerado por humanos esquisitos se encaixa com exatidão na proposta absurda do filme.

Katzenberg deixa a Disney desmoralizado - rico, mas desmoralizado. Rejeitado pela empresa, ele funda um novo estúdio e, não satisfeito, produz uma animação que faz comédia com o legado de tal empresa. Esse talvez seja o recado mais bem dado da história do cinema. O fato de tudo isso ainda ter sido levado adiante por meio da figura de um ogro verde e ranzinza, um párea da estética da Disney, só firma ainda mais a identidade da DreamWorks na indústria do entretenimento hollywoodiano.
Esse, porém, foi apenas o começo.
O feito de uma sequência superior ao original
O estúdio lançaria “Shrek 2” três anos após o primeiro. É fantástico o modo como a sátira desenvolvida em 2001 é elevada a enésima potência com a continuação. O filme abre com uma zoação sem limites da figura do príncipe encantado. Desse começo em diante, não há uma cena sequer sem um timing cômico afiadíssimo. Da lua de mel do Shrek e da Fiona até a chegada no pântano, temos um clipe musical com uma porção de referências animadas e ao som de “Accidentally in Love” (Counting Crows). Ou seja, já podemos esperar uma coerência com a identidade do primeiro filme.
Quando o casal e o Burro são convocados para o reino de Tão Tão Distante, é chegada a hora de mostrar para aquele mundo mágico a “ogrice” do casal principal. É maravilhoso, pois é como se Shrek e Fiona fossem visitar o universo da próprio Disney. Isso é genial! Sem contar que a Fada Madrinha, aquela imagem sagrada da boa matriarca, é simplesmente a vilã do filme. O roteiro é inacreditável. Se “Shrek” tira sarro de assinaturas estabelecidas na narrativa cinematográfica da Disney, “Shrek 2” confere corpo e imagem a uma crítica mais certeira àquilo ao padrão.
Eu vou me repetir com um termo: timing. O tempo desse filme é preciso. As piadas não se estendem mais do que deveriam, as cenas de ação são medidas o suficiente para você se empolgar, a música cadencia bem o que se passa em tela e, no fim, nós temos uma animação para todos os públicos, divertida para qualquer um e icônica no que se propõe a fazer. Eu sempre achei aquela cena da invasão do castelo uma das melhores sequências do cinema e, mesmo depois de conhecer mais filmes e entender melhor a linguagem cinematográfica, eu não mudo de opinião. Timing é parte do segredo da genialidade de “Shrek 2”, cuja ousadia está amparada na coragem do primeiro longa de romper os limites de uma história fantástica animada.

Quando tudo mudou
A franquia ganharia mais duas sequências. “Shrek Terceiro” seria lançado em 2007, e "Shrek Para Sempre" chegaria aos cinemas em 2010. Esses dois filmes concluíram a franquia nos últimos tempos, sem contar curtas, especiais e spin-offs. No final das contas, o saldo é positivo. Eu mesmo acho que todos essas produções são no mínimo boas, mantendo o padrão dessas histórias ainda acima da média.
No entanto, algo se perdeu entre “Shrek 2” e “Shrek Terceiro”. O segundo filme foi o auge da proposta inicial de Shrek; isto é, a sátira descompromissada e a zoeira sem fim. A comédia se manteve depois disso, mas sem o foco da deturpação consciente e inteligente daquilo que nós conhecemos por contos de fadas.
A Disney deixou de ser o alvo principal. O terceiro longa resgata o mesmo núcleo de personagens de 2004 e volta a sua atenção para lendas arturianas do período medieval. A abordagem faz sentido, mas não tem a mesma força das escolhas anteriores. Em “Shrek Para Sempre” há algo parecido. O foco não é nem a Disney, nem textos clássicos, mas a própria franquia “Shrek”. Nós ainda temos referências e inserções de personagens da fantasia, como o vilão Rumpelstiltskin e o Flautista de Hamelin; no entanto, o filme objetiva muito mais a expansão daquele universo fictício e a reimaginação dos personagens que já conhecemos. Repito, o longa é divertido, competente e emocionante, mas ao se colocar na berlinda à favor de uma autorreferência, ele muda o alvo da piada.

O mesmo pode se falar dos derivados da franquia. O primeiro filme do Gato de Botas brinca com clássicos da fantasia sem arranhar o principal tradutor dessa fantasia para os cinemas - a Disney - e o segundo filme se aproxima um pouco da essência que um dia já imperou, mas não trouxe de volta o “quê” de besteirol do começo dos anos 2000.
O que não esperar de “Shrek 5”?

Há meses atrás, a DreamWorks lançou o teaser de "Shrek 5" (2027). O grande público não recebeu o novo visual com bons olhos e tudo indica que o estúdio promoverá mudanças em resposta às críticas. De fato, o visual da animação está diferente daquele que consolidou a franquia. Parece-me um meio termo entre a animação 3D dos outros filmes e a identidade visual de “Gato de Botas 2: O Último Pedido” (2022). Os tons estão mais claros, menos realistas e até mais “fofinhos”.
Isso para mim diz muito. O meu problema com esse teaser não foi a mudança estética em si, mas o que ela representa na narrativa visual que esse filme parece propor. Quando “Shrek” e Shrek 2" foram lançados, a computação gráfica estava avançando, mas não dá para se comparar o grau de detalhes da época com aquilo o que é entregue pela indústria atual. Em 2001, isso nos rendeu figuras humanas esquisitas ao olhar mais atento. Se você parar e analisar os personagens de Shrek, com exceção do protagonista e de outros seres mais caricatos, há uma estranheza ali. Porém, isso faz sentido nessa história.
“Shrek” tinha uma estética "imperfeita" para um filme que zoava a estética perfeita da Disney. Era uma escolha imagética, condicionada aos limites contemporâneos da técnica, mas que fazia sentido para a narrativa. Quando o teaser de Shrek 5 apresenta uma estética muito mais agradável aos olhos e adaptada aos padrões atuais, perde-se o valor disruptivo de outrora.
Nesse sentido, se “Shrek Terceiro” e “Shrek Para Sempre” perderam a proposta inicial da sátira, essa sequência de 2027 parece ir mais longe, conformando-se à indústria que um dia já criticou. Há uma inserção da linguagem do TikTok nesse material promocional, mais isso soa mais como um grito desesperado pela atenção da nova geração do que um comentário ácido para o tipo de linguagem que atravessa o cinema atual.
Com isso, eu não tenho grandes expectativas com “Shrek 5”. Como sempre, espero estar errado, mas esse primeiro teaser reafirma para mim o limite da sátira que pôs a franquia no mapa. Eu nem mesmo sei se há material para um novo filme de Shrek zombar da indústria, afinal, ele evoluiu nesse mundo que um dia já criticou. É como se a ovelha negra da família viesse morar com todos os parentes, zoasse todos eles e, no final das contas, se adaptasse ao modo de vida dessa família após anos de convivência. Infelizmente, acho que nunca mais teremos algo como “Shrek” e “Shrek 2”.













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