Dez anos de "La La Land: Cantando Estações" (2016): quando a atuação e a música se apaixonam

Críticas Gerais

Eu nunca havia assistido a “La La Land” até este ano (2026). Por alguma razão nunca por mim examinada, eu nunca conseguia passar da cena inicial. Olhando agora, retroativamente, talvez fosse um preconceito com o gênero musical no cinema, ou um receio em discordar da legião de fãs que esse filme agregou ao longo dos anos. Fato é que eu finalmente superei a ponte do início do filme: tal como os carros presos naquele congestionamento, eu fui capaz de seguir adiante em dado momento. Abandonei o tolo preconceito - o que é uma redundância, vide que todo preconceito é tolo - e coloquei à prova o meu gosto cinematográfico, correndo sim o risco de ser “o chato do rolê”. 

Cá estou eu, com o filme assistido e alguns afetos por ele mobilizados. Dizer pura e simplesmente se eu gostei ou não de “La La Land” me parece uma proposta menos rica do ponto de vista crítico. Assim sendo, tecerei alguns comentários para além de uma avaliação rápida. Creio que um longa como esse mereça algumas linhas bem trabalhadas de desenvolvimento, e é o que pretendo fazer. Como sempre, desejo para ti uma excelente leitura e agradeço desde já pela seu carinho e atenção com estas palavras.

Essa crítica contém spoilers.


Da homenagem à criação

Em dado momento da história de Hollywood, os musicais eram o “crème de la crème” da produção cinematográfica. Os maiores nomes e os maiores investimentos da indústria estavam envolvidos nesse gênero que, goste ou não, rendeu momentos memoráveis e disruptivos no que diz respeito à construção da linguagem do cinema. Filmes possuem um modo muito particular de se relacionar conosco, a audiência. É bem verdade que ele possui intersecções com outras expressões artísticas, mas ele tem o seu espaço próprio na cultura. Diversos autores e movimentos buscaram brincar com esse espaço, redefinindo fórmulas, técnicas e narrativas múltiplas, sendo algumas delas contrastantes entre si. O gênero musical foi - e é - marcante o suficiente para compor essa trajetória de estabelecimento da sétima arte, merecendo o nosso devido respeito - para dizer o mínimo.

“La La Land” sabe desse legado e parte dele sem vergonha alguma. Os créditos iniciais resgatam uma estética antiga, datada da era de ouro do cinema hollywoodiano. Quando o filme se inicia, esse legado se estende para a cena inicial, naquela ponte a qual já me referi. Nessa sequência - muito bem dirigida e coreografada, vale dizer - nós nos conectamos a uma tradição de musicais em que o cotidiano ficcional é atravessado por dezenas de pessoas cantando e dançando sem um sentido aparente. 

Another Day of Sun - La La Land Opening Scene

Como dito na introdução, um preconceito para com musicais me atravessou no decorrer de um período razoável da minha cinefilia. No entanto, eu percebi a minha ignorância e ressignifiquei essa relação. Esse processo estético e pessoal levou tempo suficiente para “La La Land” completar uma década de aniversário. Caso você ou alguém do seu convívio não goste de musicais até o dia de hoje, essa cena de abertura é material suficiente para desistência. Porém, esse longa apenas parte da homenagem ao gênero clássico, seguindo por um caminho próprio, algo como um musical pós-moderno. 

A herança da Hollywood clássica segue por mais um tempo. Quando a história se divide nos pontos de vista dos dois protagonistas, ainda temos as coreografias extravagantes e as canções intrassubjetivas, responsáveis por nos transmitir as emoções de cada personagem. E goste ou não do gênero, há um trabalho de câmera, fotografia e design de produção que impressiona até o mais cético dos desgostosos. O cidadão pode não gostar de musical, mas dizer que esse início não é bem produzido já beira a ofensa. O esmero técnico em tela é en-can-tador.

Esse nível de produção serve de fio condutor para sairmos da reverência para a inventividade. “La La Land” do quão complexa um obra conjunta entre cinema, dança e música pode ser. Em termos narrativos, nós temos um trabalho estupendo sobre as noções de realidade e ficção. Você se lembra do que eu falei há algumas linhas sobre o atravessamento de um cotidiano fictício? Os musicais funcionam dessa maneira, não é? Estabelece-se um mundo onde pessoas cantam e dançam de tempos e tempos para expressar como se sentem. Se isso acontecesse no mundo real, estranharíamos de pronto; mas nos musicais isso cabe. Trata-se do linguagem cinematográfica do gênero.

Acontece que o Damien Chazelle tem a sagacidade de brincar com essa linguagem a favor do desenvolvimento emocional dos seus personagens. No filme, não há números musicais apenas porque estamos assistindo um musical. Tais números existem porque os protagonistas só poderiam passar pela jornada que passam se estivessem em um musical. Para abordar isso da melhor maneira possível, eu preciso trazer esses dois personagens à tona, interpretados brilhantemente pela Emma Stone e pelo Ryan Gosling.

Mia & Sebastian

La La Land : Les 15 citations les plus émouvantes, classées -

O primeiro encontro entre Mia e Sebastian é naquela malfadada ponte dos primeiros minutos do filme. Ambos estão presos no trânsito e, quando os carros fluem, Mia permanece parada para o desgosto de Sebastian, que estava logo atrás dela. Sem dizer uma palavra, os dois se entreolham com raiva, buzinas gritam e um dedo do meio surge por ali. A seguir, nós acompanhamos as próximas horas da vida de cada um deles, em separado, até que o destino entrelaça a jornada dos dois mais uma vez.

Por trás de um avental de balconista, Mia aspira a ser atriz. Ironicamente, ela trabalha numa cafeteria localizada em um dos diversos estúdios cinematográficos de Los Angeles. Ela largou a faculdade de direito para correr atrás do seu sonho, que foi alimentado desde a infância por uma tia também atriz. Esse conflito entre o trabalho comum e a carreira desejada pela personagem é simples e brilhantemente apresentado com um take: Chazelle filma uma celebridade caminhando até o balcão pelas costas da atriz; do outro lado, está Mia, prestes a atender a artista. Nesse plano, a atriz encobre Mia, tal como o seu sonho que a engole diariamente, a cada copo de café e a cada teste malsucedido. 

Por mais que ela sofra em não ter a sua grande chance, o desejo pela vida artística insiste em se inscrever ao seu redor. Para além do fato dela trabalhar em um estúdio, na parede do seu quarto há um rosto gigantesco de Ingrid Bergman, um ícone da Hollywood clássica. O seu sonho a encobre, vigia-a, devora-a e a persegue. Um novo número musical a tira de casa, movendo-a da dor para os bastidores da vida dos ícones da cidade. Em banheiro da festa para onde vai, quando luzes, enquadramentos e uma nova sequência nos expõe o cansando de uma alma que está canssada de sonhar ao mesmo tempo em que é incapaz de abrir mão do mesmo sonho.

Sebastian está em um lugar diferente. Ainda que fracassado no que diz respeito às suas vontades, ele não se cansa de sonhar. O desgaste não está na sua alma, mas na sua vida, ao redor. Enquanto o trabalho, o apartamento e a noite de Mia são coloridos e estonteantes, os espaços de Sebastian são apagados e filmados de modo a parecerem claustrofóbicos. O seu gênero musical favorito, o jazz, segundo ele, está morrendo e ninguém se importa, exceto ele. Sebastian, assim, é mais expressivo e combativo do que Mia: ela se cala quando pessoas interrompem o seu teste, engolindo os próprios sentimentos; ele se deixa levar por sua arte, ainda que ninguém esteja interessado em ouvir. Ambos lutam por seus sonhos, mas Mia é silenciosamente consumida pelas frustrações, enquanto Sebastian as converte em uma sonora revolta particular.

De um lado, Mia saindo de mais uma audição malsucedida, manchada por sua realidade nada deslumbrante. Do outro, Sebastian imerso em seu mundo musical, desvinculado do arredor. Dois artistas, dois sonhos e duas dores distintas.

Eu gosto de visualizar Mia e Sebastian como arautos de suas expressões artísticas. O arauto é um mensageiro, um porta-voz. Mia representa a encenação, o teatro e a representação visual de intenções e sentimentos. Por ironia, ela é quem melhor mascara os próprios sentimentos, engolindo-os para não ser engolida pela cansaço. Ela encena, mas não para uma audiência, e sim para si mesma. Sebastian, por sua vez, representa a música. Suas canções tem som, melodia e capacidade de despertar emoções, mas elas não conseguem se defender sozinhas em um mundo onde só há espaço para poucos. 

Friedrich Nietzsche desenvolve o seu pensamento estética a partir de dois princípios da experiência humana. Em “O  nascimento da tragédia” (1872/2020), o filósofo nos coloca o seguinte:

Muito ganharemos para a ciência da estética se chegarmos não apenas à compreensão lógica, mas à direta certeza intuitiva de que a evolução da arte está vinculada ao dualismo do apolíneo e do dionisíacos; assim como a procriação depende da dualidades dos sexos, em luta permanente e conciliação periódica. Tomamos esses dois termos dos gregos, que tornam perceptíveis ao homem inteligente os profundos saberes ocultos de sua concepção da arte não através de conceitos, mas nas figuras intensamente claras de suas divindades. Liga-se aos seus dois deuses artísticos, Apolo e Dionísio, o nosso entendimento de que no mundo grego há um enorme contraste, na origem e nos fins, entre a arte do escultor, apolínea, e a arte não figurativa da música, dionisíaca (…) (NIETZSCHE, 1872/2020, p. 21, negritos meus).

De acordo com este autor, a arte apolínea se caracteriza pela forma e a figuração, vide que Apolo é o deus da ordem e da luz. A pintura e a escultura, portanto, seriam artes marcadamente apolíneas, pois estão fundamentadas no trabalho das medidas e das imagens. A arte dionisíaca, por sua vez, seria aquela caracterizada pela não-figuratividade, pela ausência de contornos definitivos, o que nos remete a embriaguez do deus Dionísio. A arte dionisíaca, por excelência, é a música - veja só.

Enquanto uma atriz, Mia trabalha com a imagem e a forma; enquanto musicista, Sebastian se dedica à música ao ponto de nada mais em sua vida parecer relevante. Os dois beiram a personificação da arte que os cativa e isso se reflete no modo como cada um enfrenta os seus conflitos e experiencia as suas emoções. Mia toma a atuação como um sentido de sua existência, uma linha norteadora do seu ser, mas atua para si mesma uma força insustentável. Sebastian, por vezes, é tomado pelo jazz de tal modo que o gênero parece ser algo maior do que ele, uma força sobre-humana incapaz de fazê-lo desistir. Ela é mais contida; ele, mais expansivo. Quando os dois se cruzam no trânsito, conflituam para, adiante, contraporem-se em um só ato criativo.

Sigo com a citação de Nietzsche:

(…) esses dois impulsos, tão diferentes, existem lado a lado, geralmente em franca discórdia e instigando-se mutuamente na geração de frutos cada vez mais vigorosos, para neles perpetuar o conflito inerente a essa oposição, o qual é só aparentemente superado pela palavra que têm em comum, “arte”; até que enfim, por um milagre metafísico da “vontade” helênica, aparecem unidos, e nessa união produzem finalmente a obra de arte dionisíaca e apolínea que é a tragédia ática (NIETZSCHE, 1872/2020, p. 21).

Um amor verdadeiramente artístico; logo, trágico

Nesse sentido, “La La Land” só poderia ser um musical. Isso pode parecer óbvio, mas convenhamos que essa história entre uma aspirante a atriz e um músico resiliente bem que poderia ser uma comédia romântica. No entanto, se assim fosse, esse roteiro jamais seria tão rico quanto o é. Enquanto um musical, “La La Land” traduz no amálgama canto-dança-atuação camadas de Mia e Sebastian que texto algum seria capaz de expressar. Se víssemos uma cena longuíssima de diálogo entre os dois, sentados em um banco numa curva de estrada e sob a luz do luar, não captaríamos todas as nuances do enamoramento dessas duas pessoas, que respiram e transpiram arte. Nós precisávamos de um número musical, e isso é o maior argumento do filme: “La La Land” não é uma história adaptada para ser um musical, mas o gênero musical serve ao roteiro de “La La Land”. 

Mia e Sebastian não se apaixonariam apenas com um beijo.

Mia e Sebastian não se apaixonariam apenas com uma declaração falada.

Mia e Sebastian precisavam dançar e cantar juntos. Eles precisavam se enlaçar um no outro de tal modo que o chão sumisse e ambos se sentissem nas nuvens. Só assim dois artistas tão imersos na própria arte poderiam se abrir um para o outro.

Planetarium from 'La La Land' (2016) – Justin Hurwitz | Observation Blogger

Do mesmo modo, é só por meio da arte que eles poderiam se despedir.

Diferente de musicais clássicos com um romance protocolar, “La La Land” tem uma conclusão melancólica. Com um salto de cinco anos, o longa nos mostra o sucesso da dupla de protagonistas: Mia é uma atriz famosa e o rosto pintado em paredes de Los Angeles; Sebastian engata em uma turnê internacional e, finalmente, consegue abrir o seu clube de jazz. Ambos alcançaram o que mais desejavam, mas sem a companhia um do outro. Mia se casou e se tornou mãe. O seu marido é alguém estranho para nós e personifica um embrulho no estômago de quem esperava um final diferente e mais confortável. 

Em dado momento, Mia e o marido saem pelas ruas de Los Angeles e caem em um clube com o nome “Seb's”. Daí em diante, catarse.

Quando Nietzsche fala de “tragédia”, ele não se refere apenas a uma história marcada por um final infeliz, mas pelo conceito grego de uma peça teatral capaz de tocar a alma da audiência. O conceito da catarse está neste ponto, onde a arte desperta um processo  a nível espiritual.

No clube, Mia e Sebastian se veem de longe, estando ela na plateia com o marido e ele no palco com o piano. Ele toca a música que embalou o romance deles nas noites mais sublimes de cinco anos atrás. Quando as notas avançam, Chazelle não nos poupa e apresenta uma montagem onde os seus protagonistas ficam juntos. Vemos quase que o filme inteiro novamente, mas numa versão paralela onde Mia se torna uma atriz e mãe, Sebastian cria o seu clube e, ainda por cima, os dois seguem juntos. A sequência se desenvolve ao embalo do piano e se encerra quando vemos os nossos queridos personagens se beijando em uma vida que não vai acontecer. Com o beijo, a última nota toca.

Esse foi o adeus de Sebastian para Mia.

Ela se levante e parte com o seu marido.

Um último olhar é trocado entre os dois, acompanhado de um aceno de cabeça e um sorriso para uma vida que nunca virá à tona. Ainda assim, os dois marcaram a vida um do outro:  Mia começou a gostar de jazz e a vida Sebastian tem mais cor do que no início, o que ficou nítido para mim com uma geladeira azul marinho em sua cozinha, muito mais próxima da paleta de cores do apartamento de Mia no começo do filme. Desse modo, o “La La Land” nos lembra que nem todas as pessoas chegam para ficar, que o sucesso é incapaz de abraçar o mundo e que há brilho e música mesmo na tragédia de um amor não concretizado.

Que bom que finalmente assisti a esse filme.

Referência bibliográfica

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia, ou, Os gregos e o pessimismo. Tradução e notas de Paulo César de Souza. 1ª ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2020.

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