Oscar 2026: Torcidas e Apostas - Categorias Narrativas
Críticas GeraisOlá, pessoal! Seguimos aqui com a nossa cobertura do Oscar 2026. Hoje falamos das categorias de montagem, roteiro original, roteiro adaptado e direção.
Comparado aos textos anteriores, este aqui tem tudo para ser mais sucinto, vide o número de categorias abordadas. No entanto, tomarei a licença de vocês para desenvolver um pouco mais da escrita, aprofundando as minhas percepções acerca dos indicados. Ok?
Vamos, então, à primeira categoria narrativa, a montagem.
Montagem

A montagem (ou edição) de um filme tende a ser considerada virtuosa pela complexidade; ou seja, quanto maior o número de cortes e transições trabalhosas, melhor a montagem. Isso, porém, não é verdade. O que define a qualidade de uma edição é muito mais a sua precisão do que a sua extensão. Eu vou fazer uma comparação: o sabor de um prato de comida se potencializa na medida em que o sal é posto numa quantidade certa. Assim eu também penso a montagem de um filme: ela potencializa a narrativa do filme ao invés de se destacar dele enquanto excesso.
Nesse sentido, a minha torcida nesta categoria vai para “Valor Sentimental”, o filme que menos se encaixa nessa equivocada percepção de “montagem boa é montagem complexa”. Não estou dizendo que a edição de “Valor Sentimental” seja fácil, mas ela não salta aos olhos e toma todo o “sabor” do longa. Pelo contrário, ela ressignifica falas, acrescenta camadas de conflito na história e nos insere nos cômodos do principal cenário do filme, a casa da família. É um trabalho minucioso, delicado e extremamente competente. Eis a minha torcida.
Acho, porém, que o prêmio irá para outro indicado, não necessariamente o mais “barulhento” em termos de edição. Acredito que “F1” seja o que mais se encaixa nessa imagem de edição complexo, o que costuma acontecer com os filmes de esporte que precisam trazer dinamicidade para a tela. “Marty Supreme” também pode ser pensado nesse sentido, já que trabalha com o tênis de mesa. No entanto, o filme do Josh Safdie alterna as partidas do Martin Mauser com a sua vida pessoal, cuja caoticidade é um mérito mais da direção do que da edição. Os dois trabalham em conjunto, a montagem é boa, mas fico em dúvida em apontar como aposta.
“Pecadores” é um espetáculo visual, com um plano sequência memorável, cenas que poderiam cair em uma galhofa sem fim se não fosse pelo corte certo pela hora certa e auxilia a transição do filme entre diferentes gêneros - musical, drama, horror, ação etc. É um belíssimo trabalho.
Mas a minha aposta é em “Uma Batalha Após a Outra”. O filme do Paul Thomas Anderson não me agradou tanto quanto aos demais. Isso não significa que eu odiei o filme. Pelo contrário, acho ele uma baita produção. Porém, eu acho o roteiro dele problemático em alguns momentos - falarei disso a seguir - e esses problemas são amenizados por uma edição promotora de um senso de urgência fundamental para a narrativa. Assim sendo, tenho a minha aposta.
Torcida: Valor Sentimental
Aposta: Uma Batalha Após a Outra
Roteiro Adaptado

Com a exceção de “Frankenstein”, eu não li ou assisti nenhuma das obras originais aqui adaptadas. Inclusive, é justamente por eu ter lido a obra da Mary Shelley que eu considerado a adaptação do del Toro inferior á obra original e as demais obras do próprio diretor. Este é um caso curioso, porque a aura da história de Frankenstein paira sobre o cinema do del Toro desde o início, ganhando maior expressão com filmes como “O Labirinto do Fauno”, “Hellboy”, “A Forma da Água” e “Pinóquio”. Pois então, chega a hora desse artista adaptar essa que é a sua maior referência, com liberdade de produção no acordo com a Netflix e o resultado é decepcionante. Eu ainda não sei o que aconteceu com esse filme do del Toro. Essa indicação se justifica muito mais pelo trabalho de produção e pelo prestígio do diretor na Academia do que pelo roteiro em si. Não é uma boa adaptação.
Em relação aos demais, digo que “Bugonia” tem um desenvolvimento inquietante, mas uma terceiro ato que não se decide bem entre o anticlimático e a sátira social. “Sonhos de Trem” vem com um drama existencialista competente ao mostrar o peso de uma tragédia na vida do personagem do Joel Edgerton, mas que recorre ao lugar do cinema americano padrão de centralizar um possível debate social na família. Isso não desqualifica o filme, ok? Eu gosto de “Sonhos de Trem”, mas tenho dois favoritos.
Um deles é a minha torcida e o outro a minha aposta. Para a torcida, "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet". Chloé Zhao e Maggie O'Farrell desenvolveram um melodrama de época sem cair numa exaustão desnecessariamente rebuscada. Vi alguns críticos dizendo que o filme força emoções, da alegria à tristeza. Eu discordo e acompanho outros profissionais, que dizem ser esse um aspecto típico do melodrama; isto é, priorizar o sentir da cena ao invés da pura contemplação do que se está assistindo. Assim, “Hamnet” é belíssimo e possui uma sequência final que ecoa ao longo dos dias.
As minhas fichas, porém, vão em “Uma Batalha Após a Outra”. Por que eu gosto? Não, porque o filme tem levado todos os prêmios possíveis nessa categoria. Eu, André, tenho problemas com esse roteiro. O filme tem o conflito político como um elemento central na trama, e procura falar algo sobre isso. No entanto, quando a gente pensa no que está sendo dito, é algo como: “Olha, tem gente errada desse lado e tem gente errada desse outro lado. Nós falhamos. Vamos deixar o mundo nas mãos da geração futura, onde jaz a esperança”. É isso que o filme fala.
Por meio das personagens da Teyonah Parris e do Sean Penn, o Paul Thomas Anderson pervertiza os dois lados do embate político e resume o conflito central a uma questão moral e familiar. Nesse sentido, eu acho que “Uma Batalha Após a Outra” é um filme menos maduro do que pensa ser. Vai ganhar, mas eu discordo.
Torcida: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Aposta: Uma Batalha Após a Outra
Roteiro Original

Se “Uma Batalha Após a Outra” é favorito na categoria de roteiro adaptado, “Pecadores” é favorito em roteiro original - além de ser a minha torcida. O Ryan Coogler está de parabéns, né? O cara conseguiu tratar de temas tão importantes de forma tão refinada e, ao mesmo tempo, sustentar diferentes gêneros cinematográficos no mesmo filme. Eu te convido a ler o roteiro de pecadores: é uma experiência a parte, magnífica.
À título de destaques, “Foi Apenas um Acidente” e “Valor Sentimental” possuem roteiros bem acima da média dessa premiação. O filme do Jafar Panahi caminha pela via da tensão e da paranoia com diálogos longos, culminando em uma cena final que me amedrontou mais do que qualquer outra cena de “Pecadores” ou “A Hora do Mal”. E “Valor Sentimental” é metalinguístico com o próprio fazer cinema e ecoa feitos do “Persona”, do Bergman , sem, porém, copia-lo.
Os casos de “Marty Supreme” e “Blue Moon” são interessantes, porque ambos os filmes possuem protagonistas insuportáveis; mas o Marty Mauser (Timothée Chalamet)é mais insuportável que o Lorenz Hart (Ethan Hawke) e, mesmo assim, eu prefiro acompanhar o primeiro do que o segundo. Por quê? Um bom roteiro, no caso de “Marty Surpreme”. Eu não vou me prolongar nas minhas considerações sobre o filme porque eu já escrevi a minha crítica sobre ele. Vou deixar o link do texto aqui embaixo, antes da próxima categoria.
E Blue Moon… é um filme, né? Tá aí ocupando a indicação que poderia ser de outros filmes do ano passando…
Torcida: Pecadores
Aposta: Pecadores
Direção

Temos agora uma das maiores categorias da noite. Eu vou começar com aquele que menos me apetece, o Josh Safdie. Há pouco, eu comentei sobre o mérito de “Marty Supreme” de sustentar uma história com um protagonista desprezível. Esse feito se estende à direção, que não nos da espaço para desistir do filme - e isso é um elogio. O Josh Safdie vem com toda a sua assinatura: planos fechados, ritmo acelerado, tensão nas alturas e reviravoltas brutais. Acho um bom trabalho, mas também acho que não só ele é menos favorito de todos como também poderia ser substituído por outros diretores, como o Kleber Mendonça Filho, o Park Chan-wook e o Jafar Panahi.
Em seguida, eu trago a Chloé Zhao. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” é um filme muito competente em estabelecer as peças do seu tabuleiro tendo o visto o xeque-mate final em nós, audiência. A Chloé Zhao mostra a história de amor da Agnes com o William surgindo, os filhos nascendo, a dinâmica da família quando o pai viaja a trabalho e, de repente, reposiciona tudo com um ponto de virada central na trama que, no final, retorna como um soco no estômago e mostra o porquê desse filme existir. A passagem do tempo também é muito boa, diga-se de passagem.
Vamos agora com Joachim Trier. “Valor Sentimental” parece uma pintura, não por causa dos enquadramentos e da fotografia, embora possamos pensar isso. Eu me refiro à direção do Trier, que é delicado e precisa como um pintor que pesa cada pincelada no quadro branco. O filme não tem pressa, aprecia detalhes, dá tempo para os atores entregarem até mais do que estava no roteiro… Ah, é uma bela direção. E temos ainda aquele fator metalinguístico de ter um personagem que é um diretor de cinema, vivido pelo Stellan Skarsgård. É um trabalho de direção que foi melhorando para mim com o passar do tempo.
Ok, mas vamos ao grande embate nessa categoria: Ryan Coogler e Paul Thomas Anderson. As premiações e o histórica no Oscar colocam o Paul Thomas Anderson como favorito com “Uma Batalha Após a Outra”. A qualidade do seu trabalho é inegável há anos, vide a filmografia desenvolvida desde “Boogie Nights”. Eu critiquei o roteiro do filme por se considerar mais maduro do que é, certo? Pois bem, eu acho que o confere maior maturidade a essa história é a mão do Paul Thomas Anderson, que engradece o papel. Ele gasta composições de quadro como alguém que sabe montar uma cena, e é inventivo no modo de fazer ação. Eu nunca tinha visto uma cena de perseguição de carros como aquela do terceiro ato. No máximo, há algo parecido no primeiro filme de “Mad Max” - no máximo, aproximando.
Mas eu vou com boa parte do público e tenho “Pecadores” no meu coração. Tem que ter muita coragem para fazer o que o Ryan Coogler fez, tanto na área artística quanto no campo empresarial. Eu não sei se você sabe, mas o Coogler fez um acordo com a Warner sobre os direitos de “Pecadores” que está fora da curva dos contratos entre estúdios e realizadores. O filme, portanto, é um feito técnico, narrativo e de business, além de ser um equilíbrio (arrisco dizer) perfeito entre um filme para o grande público e uma obra para a crítica. E digo mais: Ryan Coogler é um acréscimo fortíssimo à frente capitaneada pelo Christopher Nolan em prol da experiência cinematográfica.
Torcida: Ryan Coogler
Aposta: Paul Thomas Anderson
Fechamos por hoje, pessoal. Muito obrigado por mais um dia aqui comigo e amanhã temos as tão populares categorias de atuação.
Quem será o primeiro filme a ganhar a nova categoria do Oscar, de direção de elenco? Vai ser "O Agente Secreto"? Wagner Moura tem alguma chance contra Timothée Chalamet e Michael B. Jordan? Vemos isso amanhã.
Grande abraço e tchau!



















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