Marty Supreme: Ambíguo, amoral, anacrônico e arrebatador

Críticas Gerais
Foto: A24

Recentemente, assisti Marty Supreme e fiquei espantado (no bom sentido) com o protagonista Marty Roisman, interpretado com voracidade por Timothée Chalamet. Meu espanto não vem de um lugar de admiração, como eu acredito que possa vir para os machinhos Red Pill que enxergam em qualquer homem de caráter duvidoso um símbolo de macho alfa. Meu espanto vem do fato dele ser a mistura perfeita entre o malandro e o mané do famoso ditado popular.

Marty é malandro, pois está sempre buscando se dar bem e aproveitar das situações a seu favor. Tem sempre um esquema no bolso e a lábia bem treinada, essa que é provavelmente a única razão para ele conquistar mulheres tão lindas como as personagens de Odessa A'Zion e Gwyneth Paltrow. Com aquela cara toda espinhenta, aquele cabelo ensebado e aquele bigodinho horroroso, só mesmo um bom papo mole para ajudar. 

Marty, no entanto, acredita ser um malandro melhor do que realmente é, pois está sempre colocando os pés pelas mãos e quase nunca termina um esquema com sucesso pleno. Muitas vezes, acha que pode enrolar gente mais poderosa e perigosa, desde um empresário influente até um velhinho criminoso (Kevin O'Leary e Abel Ferrara, duas escolhas de casting extremamente inspiradas). Acaba, porém, como um fantoche dessas pessoas, sendo submetido a tortura física e psicológica a bel prazer delas. Marty é, portanto, um mané.

Foto: A24

Como esportista, se mostra um péssimo perdedor, apelando para a arbitragem e até para o formato das raquetes para justificar a derrota para um competidor mais preparado, o japonês Endo. Como filho, rejeita a presença da mãe, mas não sai de sua casa. No que tange às mulheres com quem se envolve, rejeita o papel de pai logo no instante em que observa a barriga de Rachel, uma amiga com quem tem um caso e divide a cena de sexo que abre o filme e leva aos ótimos créditos envolvendo os espermatozoides. 

Marty, no fundo, é um canalha, para não dizer coisa pior. Como todo filme dos irmãos Safdie, o barato do filme está em assistir esse protagonista tão errado entrar em uma espiral de autodestruição. Porém, ao contrário do Adam Sandler em Joias Brutas, aqui esse protagonista tem uma espécie de vitória. Ênfase em “espécie”. 

Foto: A24

Por mais que vença sua última partida contra seu rival Endo no Japão, Marty queima todas as pontas que ainda poderia ter para se tornar um jogador de pingue-pongue de sucesso, ao conquistar a total antipatia dos japoneses que dominavam o esporte, cuspir na cara de seu patrocinador (que, na verdade, organizou o evento para humilhá-lo) e voltar para casa sem nenhuma perspectiva de futuro. 

Ao conhecer seu bebê na maternidade, Marty chora descabidamente, enquanto outros recém-nascidos formam um coro para acompanhar a música Everybody Wants to Rule the World, que embala os créditos finais. Já vi interpretações sobre a cena como sendo a ficha de Marty caindo a respeito de que, agora, seu sonho está perdido. Minha visão já é diferente. Eu prefiro, na verdade, não ter uma visão acerca disso, pois a beleza de Marty Supreme está, para mim, na sua ambiguidade enquanto filme.

Foto: A24

Existe um sentimento de catarse sendo construído nessa partida entre Marty e Endo, mas ela é involuntária, pois sabemos que, para o protagonista, a vitória é mais simbólica do que material. E, mesmo com esse simbolismo, ele continua sendo um bosta. Ao contrário da tradição do cinema esportivo em que a conquista da partida final significa também uma vitória moral do protagonista “do bem” em cima do antagonista “do mal”, quem “vence” em Marty Supreme é, na verdade, o mal, o babaca. 

Essa ambiguidade se une a uma série de escolhas estéticas anacrônicas e arrojadas. Apesar da ambientação na década de 1950, a câmera na mão inquieta e o ritmo frenético da edição lembram um cinema indie dos anos 2000, enquanto a trilha de sintetizadores de Daniel Lopatin traz a memória sonora dos anos 1980. 

A cinematografia de Darius Khondji evoca o look antigo com um uso pontual da película granulada e viva, mas, com planos tão fechados e sequências tão escuras filmadas em digital, fica num meio-termo entre as duas, nunca pendendo nem tanto para o preciosismo e nem tanto para a uniformidade do cinema atual. 

Foto: A24

Marty Supreme, o filme, é como Marty Supreme, o protagonista. Vivo, irracional, barulhento, gritado, nervoso, agitado. Parece que assistimos diversos filmes em um. Primeiro, um filme de esporte. Depois, um filme de crime. No meio, um segmento que lembra Bonnie e Clyde. No fim, um estudo de personagem. Uma mistura de Cinemas tão intensa que só poderia vir de uma obra essencialmente ambígua, amoral e esteticamente anacrônica. 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor