Crítica - Hamnet

Críticas Gerais

O melodrama possui, ao curso das artes, relevância histórica e cultural suficientes para ser uma das narrativas mais utilizadas na contação de histórias. Alguns fatores essenciais, como apresentar calamidades, tragédias e adversidades, delimitar a moral entre suas personagens principais (o herói, o vilão, a mocinha etc.) e, talvez o conceito mais famoso e expropriado dessa propriedade, o uso do sentimentalismo e das emoções com exageros cênicos.

No cinema, sua origem data aproximadamente dos anos 30-50; contexto geopolítico no mundo atualizava constantemente o comportamento humano, possibilitando questionamentos que permeavam convicções, tradições e intenções. Passados os anos, cineastas como Fassbinder, Sirk e mais contemporâneo, Almodóvar, entregam em seus filmes um melodrama estilizado e assinado por cada noção técnica e imagética individuais, mas ainda com as instruções narrativas de campos artísticos mais antigos, como a literatura e o teatro.

Em Hamnet, novo filme de Chloé Zhao, conhecida por The Raider, Nomadland e Eternos, há o encontro dessas quatro vertentes; cinema, teatro, literatura e melodrama. Apesar de que este último há uma certa instabilidade de assumir e aparecer. E é isso que me deixou ressabiado com o que era dito ser um filme de “tristeza sem fim”. E de fato, não nego que é uma história triste e que o filme manipula seu enredo para despertar esse sentimento em quem o assiste. O ponto é que a forma como esse maniqueísmo é desenvolvido me soou conflituosa, aparecendo em momentos esporádicos apostando na catarse melodramática de sua tragédia e usando seu elenco – principalmente Jessie Buckley -, como esse recurso de irrigação sentimental exagerada, quando poderia ter sido mais bem desenvolvido. Ou melhor, intensificado.

A construção da personagem de Jessie, Agnès, antes de sua tragédia, não está em uma leva melodramática. Pelo contrário, há um senso estético naturalista em introduzi-la. Sua relação com a natureza, sua origem esotérica e mística, tendo conhecimentos sobre plantas e vegetais, suas propriedades de cura, além de adestrar um falcão, que aqui visualizo como a principal emanação de uma característica “selvagem” da mulher protagonista. Há um adorno histórico mínimo aqui; a ideia de que, por ter esses conhecimentos, não possuir virtudes cristãs e dogmas tradicionais, a torna uma bruxa para a comunidade na qual vive.

Também nesta introdução, aparece o William Shakespeare de Paul Mescal em uma versão introspectiva e cinzenta, outro flerte com um naturalismo que dispa emoções mais vivas e quentes de seus personagens. Não que essa visão seja ruim, pois uma das cenas mais bonitas se encontra na primeira interação desse casal: um chiaroscuro no batente da porta enquanto mãos se tocam e nomes não são ditos, dentro de um ângulo de câmera mais subjetivo e suave. Entretanto, demora para ter uma outra cena de confecção estética e propósito narrativo fundidos ao longo do filme, justamente por uma forma irregular.

Hamnet deseja explorar as reações mais humanas possíveis, principalmente no âmago materno, com a perda de filhos e do sucessivo e latente luto. No entanto, quase que exclusivamente depende dos exageros cênicos de Buckley – gritos horrorosos de dor, choros violentos e rompantes físicos. Não que suas reações sejam estranhas à subjetividade humana, pelo contrário. Dor, luto e tristeza são sentimentos tão comuns que é difícil expressá-los de maneira sutil. Novamente, meu ponto com a direção de Zhao é na forma como esse crivo melodramático é usado. Pós tragédia e caminhando para o ato final do filme, há a criação da peça de Hamlet, uma das obras mais famosas e estudadas pela história de Shakespeare. O príncipe que retorna para Dinamarca para vingar a morte de seu pai, assassinado por seu irmão e tio de Hamlet. Em suma, é sobre vingança, mas também é sobre dúvida e dívida com deveres.

Dívida essa que, perpassando pelo roteiro (escrito por Zhao em parceria com Maggie O'Farrell, escritora do livro homônimo adaptado aqui), é gerada na cabeça do dramaturgo inglês. Shakespeare no filme cria a peça Hamlet para passar a essência de seu filho morto à frente, mas também para quitar a dívida da ausência para com Agnès. Mãe de três que passou pela morte, luto e criação dos filhos praticamente sozinha, sem a companhia do esposo e pai. E no ato final do filme, onde a peça é apresentada à cidade e à Agnès, além da encenação teatral recitando as frases e os diálogos mais famosos da peça, acrescenta uma outra característica que sublinha o melodrama e, agora assim, o abraça definitivamente. A trilha sonora incidental, que no caso, também não é tão casual assim.

No momento que a peça mata todos seus personagens e coloca Hamlet para morrer, após proferir “o resto é silêncio”, quebra-se ali qualquer resquício natural e real do filme. A mão de Agnès ao poder despedir de todas as essências e versões de seu filho, tocando o corpo do ator que o interpreta, é movida pela trilha “On The Nature of Daylight”, de Max Richter. Música criada em 2004 e que desde então, foi reproduzida em outras quase dez obras da TV e do cinema sob a mesma intenção; arrancar catarse e emoção da audiência.

Entretanto, o que fica para mim após o encerramento de Hamnet é a ideia de que não houve sutileza nessas intenções melodramáticas e que este não foi o problema. A questão é que as aparições breves soaram destoantes em uma obra que parece ter tido outras preocupações. Ser mais intimista e reservado com as emoções de outros personagens, salvo engano um diálogo mais alto e emotivo de William e da avó dos filhos dinamitaram a autenticidade que até mesmo a atuação de Jessie poderia ganhar com maior vividez. Em comparação, nesse escopo mais realista e lúdico, a atuação do menino que interpreta Hamnet foi a que mais soou determinante para sua função àquela obra. Enganando a morte para livrar a irmã, sua despedida e sua brincadeira de criança premiam um lado narrativo, que parece que o filme não soube – ou não quis -, dosar melhor.

Uma pena que os debates acerca do filme ficam somente ao quão boa uma obra pode ser se há apenas profundidade emotiva, bastando-se, sem um formalismo regente que mostre dominância. Hamnet parecia implorar por lágrimas.

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