MARTY SUPREME (2025): OS BASTIDORES DE UM VERDADEIRO HEROI NORTE-AMERICANO| Crítica

Críticas Gerais

Com um filme tão frenético quanto uma partida de tênis de mesa, Timothée Chalamet personifica o lado cru(el) da convicção em si mesmo, representando o egoísmo individualista que funda uma sociedade (supostamente) meritocrática.


Marty Supreme (2025) - IMDb
Marty Mauser (Chalamet), o protagonista de “Marty Supreme”

Hollywood se estabeleceu como a grande potência cinematográfica mundial logo na primeira metade do século XX. Não era a única produtora e distribuidora de filmes, por óbvio, mas logo galgou esse lugar de referência quando se pensa em um cinema para o grande público. Os seus filmes se tornaram os mais populares - podemos colocar assim? Pois bem, isso não é por acaso, tampouco é fruto de forças metafísicas dos deuses da arte que validaram as produções americanas como as melhores do mundo. Hollywood se tornou a Hollywood porque uma infraestrutura industrial lhe foi garantido por quem detinha o poder. Ela é fruto de decisões políticas e mercadológicas que viram no cinema uma via de produção cultural extremamente eficaz. Basta analisarmos as principais referências que temos quando o assunto é filme - não nós, aficionados por autores, diretores e produtoras independentes, mas nós, público consumidor.

Isto posto, temos certas figuras hollywoodianos míticas que fincaram raízes no imaginário popular, como: o estranho sem nome, clássico do Western americano; o cínico urbano, como os protagonistas dos filmes Noir; o cidadão comum, personificação da moral e dos bons costumes; e, é claro, o herói norte-americano, capaz de conquistar os seus quereres apesar das obstáculos ao seu redor.

Esse herói se distingue - e muito - da imagem clássica do herói, aquela grega e romana. Este deixava o conforto de sua vida conhecida, partia em uma aventura rumo ao novo, encontrava verdades jamais imaginadas e, por fim, ressignificava as suas vontades e até a sua própria identidade. O herói do cinema norte-americano rima boa parte desses elementos, mas tende a abrir mão do aspecto essencial dos clássicos gregos: a tragédia. 

Não entendamos o trágico como um sinônimo para desastre, por favor. A tragédia grega não trata de finais tristes sem escapatório, mas da ação inevitável do destino. Quando Édipo acaba por cumprir a profecia de matar o pai e desposar a mãe, ele se torna prova viva de que nenhum homem está acima das intemperes da vida. A trajetória de Odisseu (ou Ulisses, em latim) em “A Odisseia”, de Homero, personifica tais intemperes em deuses, monstros e outras criaturas que criam uma porção de barreiras entre o protagonista e a sua casa, para onde ele quer retornar. Nesse sentido, os gregos compreendem que o heroísmo humano não endeusa ninguém, pois até mesmo heróis continuam sendo - olha só - humanos. 

Ao meu ver, o herói hollywoodiano muitas vezes subverte a concepção do heroísmo grego ao provar que pode moldar a realidade ao seu redor a partir de sua vontade. Ele é maior que o destino e intransigente em suas convicções. Sua imobilidade, porém, não traduz uma falha, mas uma firmeza de caráter. É por ele ser quem é que os seus sonhos podem se tornar realidade, independente do restante do mundo ao seu redor.

Marty Mauser (Timothée Chalamet) começa a sua jornada em “Marty Supreme” (2025) como esse típico sonhador norte-americano, que tudo pode alcançar em sua vida desde que se esforce, persista e queira. Trabalhando em uma loja de sapatos do tio, ele junta um dinheiro para comprar uma passagem de avião e disputar um campeonato internacional de tênis de mesa. Ele é bom no esporte, quer viver disso e fará o que for necessário para se tornar um vencedor.

Com essa premissa, eu confesso o meu preconceito com “Marty Supreme”. Eu fui ao cinema esperando uma certa mesmice do “zé ninguém” que se torna “alguém” por conta de um talento e uma paixão que o impulsionam vida acima. 

Que bom que eu estava errado.

Em busca de um lugar ao sol

A história do filme é inspirada na vida do jogador profissional Marty Reisman, mas eu não me refiro a ele. Até porque o diretor do longa, Josh Safdie, não produz uma biografia, mas constrói uma história a partir das memórias de Reisman. Acho bom ressaltar a quem me refiro; isto é, Marty Mauser, o personagem.

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No longa, Mauser é o maior representante dos Estados Unidos no tênis de mesa.

Gente, que sujeitinho ardiloso! É difícil você desenvolver um protagonista desagradável, traiçoeiro e egoísta, pois o público precisa se conectar a esse cara. Como você gera conexão com alguém que tira proveito de quem ele puder? A quantidade de pessoas que entram na trama da vida de Marty e se enroscam em suas teias de megalomania é gigantesca: tem a sua mãe, sua amiga de infância (que está grávida dele, vale dizer), amigos, supostos amigos e até um cachorro! Todos eles têm um lugar em sua vida enquanto forem úteis a sua busca pelo sucesso tão almejado. Olha, eu não gosto de resumir personagens em bom e mal, certo e errado, mocinho e vilão; não gosto de julgar um personagem a partir de uma moralidade simplista que o encaixota em um modelo de ser humano. Porém, é muito difícil confiar no Marty depois de alguns minutos do filme - muito, muito difícil!

Ele é o herói norte-americano desmascarado, que escancara a nocividade da ode ao individualismo. Em dado momento, ele diz algo como “eu vou conseguir sozinho, eu vou alcançar o que eu quero”. Para ele, antes de tudo, ele. A personagem da Gwyneth Paltrow, por exemplo, a Kay Stone, é uma atriz decadente que o Marty nem sequer conhecia. No entanto, certo dia, ela chama a atenção de alguns jornalistas e eles comentam o quão incrível ela era nos seus dias de glória. Isso é o suficiente para que Marty a deseje. 

Ele transita entre o predador e o parasita. Se ele puder tomar algo, ele toma; se ele precisar sugar alguém, ele suga. Kay chegou até ele como ninguém e logo se tornou uma pequena obsessão. Por que? Por que ela é linda, simpática e cativante? Não… porque ela é alguém aos olhos de muitos. Ela já teve influência e Marty busca poder. Ora ele o faz de maneira calculada, ora de forma impulsiva, mas sempre do modo dissimulado de alguém obstinado em alcançar o seu desejo, ainda que muitos fiquem pelo caminho, como a Kay.

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O que define um vencedor?

Acompanhar o caos egoísta de Marty se torna uma tarefa possível por conta do já celebrado trabalho do Timothée Chalamet - aqui, com a sua melhor atuação desde “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017). A montagem do filme também faz um trabalho fantástico em sintonia com uma trilha sonora que me lembrou muito os filmes norte-americanos dos anos 80. Senti uma barriguinha ali pelo terceiro ato, uma perda do ritmo estabelecido até então, mas ele se recupera com um final instigante.

Sobre esse final, inclusive, há muito o que pode ser dito. Eu vou concluir a minha crítica justamente com esse final, pois vejo ali a desconstrução cabal do herói norte-americano, sem abrir mão dos elementos do heroísmo norte-americano - o que melhora ainda mais o filme para mim.

Redenção?

Marty Supreme (2025) - IMDb
Marty tem um ego grande demais para duas horas e meia de longa metragem.

De forma bem direta? Marty não consegue uma vaga no campeonato mundial. O que ele tem em mãos é um jogo armado pelo empresário Milton Rockwell (Kevin O'Leary) para que ele perca na frente de dezenas de japonês e engrandeça ainda mais o maior tenista do Japão, Koto Endo (Koto Kawaguchi). No início do filme, Endo ganha de Marty. Ele é o seu nêmesis; o responsável por dilapidar a sua coluna de marfim. Sendo uma figura extremamente egocêntrica, participar desse teatro promocional equivale a tortura para Marty. Ele, é claro, não se aguenta, fala para todos que o jogo é armado e desafio Endo para uma partida de verdade.

Eu torci fervorosamente para que ele perdesse! Marty deu provas suficientes para que nós não o vejamos como um vencedor, ainda que ele fosse muito bom. A sua presença ali não é fruto apenas de trabalho duro, dedicação e paixão pelo esporte. Tudo isso é atravessado por um narcisismo doentio que custou a saúde mental e a vida de uma porção de pessoas. É como se nós descobríssemos que o Rocky Balboa tivesse a índole do Leonardo Di Caprio em “O Lobo de Wall Street”. 

Para a minha tristeza, Marty vence a partida. Os poucos militares estadunidenses na plateia o ovacionam enquanto toda uma nação japonesa definha junto com Endo. É o típico final do herói norte-americano, onde ele prova a sua superioridade perante o destino e consegue o que ele quer.

Se Safdie tivesse feito o Marty simplesmente perder o jogo, ótimo. Eu estaria feliz, o público que o odiou estaria satisfeito e entenderíamos essa história como uma desconstrução do sonho norte-americano. Fim do roteiro, bom filme, parabéns. Porém, Safdie nos frustra. O diretor permite que o seu protagonista consiga o que ele mais quer: não o primeiro lugar no pódium, mas certeza de que ele é o melhor. Não é sobre entrar no campeonato, não é sobre conquistar o primeiro lugar, não é sobre ser reconhecido pelos seus pares no esporte… o que Marty quer é a indubitável superioridade de si mesmo perante todos ao seu redor. O filme, assim, reafirma o núcleo duro do seu narcisismo.

E você sabe qual é a pior parte? Não há espaço para contraponto. Marty não irá competir na semana seguinte; logo, não pode nem ser vencido por alguém. Ele sai como o melhor. Gente, ele volta do Japão em um avião de militares como se fosse um herói de guerra!

 Quando um heroi grego passa pela sua jornada, ele muda. A sua identidade rui perante verdades até então desconhecidas e ele descobre que o seu objeto de desejo não era o que ele de fato precisava. Marty vai na contramão disso e, simbolicamente, mostra o dedo do meio para qualquer herói clássico.

Agora, você pode me dizer que ele encontra redenção, não é? Afinal de contas, a última sequência de “Marty Supreme” mostra o seu protagonista deixando o tênis de mesa para visitar o seu filho recém-nascido no hospital. Ele chora ao olhar a criança e os créditos sobem. Lindo, não?

Então… para mim não. Ao meu ver, Marty caminha no sentido contrário a de uma redenção. O seu ego é grande demais para isso. Haveria redenção se ele largasse o tênis de mesa como um perdedor, escolhendo a sua família ao invés do seu sonho megalomaníaco; ou se ele nem sequer fosse para o Japão e ficasse com a mãe do seu filho APÓS ELA TER LEVADO UM TIRO POR SUA CAUSA. Nada disso acontece. Aquela criança se torna uma prioridade para Marty depois que ele tem a sua fantasia de supremacia comprovada para si mesmo. Com aquela cena final, eu só consegui pensar em dois cenários: ou Marty vai se entediar com a vida de pai de família e se tornará insuportável; ou ele vai se tornar aquele cara que não se cansa de falar dos tempos áureos de sua grande vitória no Japão, repetindo as mesmas histórias que culminam em sua vitória - o que também é insuportável.

O filme me deu provas suficientes para que eu duvide de qualquer mudança significativa na personalidade de Marty. Ele é o herói norte-americano sem a máscara narrativa de virtude e moralidade. Ele possui a resiliência, a perseverança e a ambição dos maiores símbolos de Hollywood, mas é destituído da compaixão e da firmeza de caráter nas quais essa mesma indústria nos fez acreditar. Marty escancara a sujeira de um jogo impossível de ser vencido sem trapaça e individualismo. Ele é supremo para si e, infelizmente, para uma parte do público que o viu jogar. Nós, porém, não… nós vimos os sacrifícios da supremacia de Marty Mauser…

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