Entrevista | Renate Reinsve: "A arte me reconciliou com muitas coisas da minha vida"
IndústriaQuando Renate Reinsve ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes e os corações dos cinéfilos mundo afora sua atuação em A Pior Pessoa do Mundo (Verdens verste menneske, 2021), ela já tinha dez anos de carreira no cinema. Sua trajetória nas telonas começou no filme Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. august, 2011), justamente com o diretor Joachim Trier. Logo, é bem significativo que a primeira indicação ao Oscar de Reinsve venha por mais um trabalho sob a batuta de Trier.
Valor Sentimental a traz no papel de Nora, uma atriz com uma relação complicada (para não dizer inexistente) com o pai, um renomado diretor de cinema, vivido por Stellan Skarsgard. Pelo papel, Reinsve foi indicada ao Globo de Ouro e se tornou a primeira norueguesa finalista na categoria de Melhor Atriz no Oscar desde Liv Ullmann, há quase 50 anos.
Semanas antes do anúncio das indicações, entrevistei Renate, e o resultado dessa conversa você confere a seguir.
Camila Henriques: Gosto muito daquela cena da Nora e da Agnes (Inga Ibsdotter Lilleas), quando elas refletem sobre a infância e sobre a relação que têm. Sei que você e Inga já se conheciam, mas como foi construir essa dinâmica em cena?
Renate Reinsve: É, nós trabalhamos juntas quando éramos mais jovens, numa peça infantil. E isso é claro que é bem diferente de agora, não era tão íntimo, era mais divertido. Nós sentimos que dava para construir algo a partir das memórias dessa fase da nossa infância. Mas acho que o principal é como o Joachim nos envolve nos papéis e os torna realmente pessoais, porque ele adapta o roteiro aos ensaios, ou muda o roteiro de acordo com os ensaios. Assim, [as personagens] se aproximam cada vez mais de nós, e ao mesmo tempo nós nos aproximamos cada vez mais das personagens. E a Inga tem essa energia muito sólida e essa autenticidade. Isso tem um efeito positivo no ambiente, de união mesmo. E acho que gostamos de trabalhar da mesma maneira. E o Joachim, ele nunca pede para você mostrar nada a ele [antes das filmagens]. Ele consegue sentir e estar realmente presente com as nossas emoções. Por isso, nunca precisamos exagerar nada. E acho que é por isso que nos foi permitido ter essa sutileza que aparece na relação delas. E captar os pequenos sinais sutis um do outro é algo muito raro. Você só consegue fazer isso com alguém do outro lado, reagindo. Mas sinto que todos nós conseguimos fazer isso neste filme também por causa da direção de Joaquim, e isso foi incrível.
Camila: O filme me tocou muito pela forma com que fala da arte como espaço de cura. Como é isso para você, enquanto artista?
Renate: Acho que são dois lados da moeda. Acho que, para mim, assistir a filmes, ouvir música, apreciar arte e ler livros me reconciliaram com algumas coisas da minha vida. E isso significou muito.Mas acho que, como atriz, isso é algo tão subconsciente. Coisas que você nem sabe que tem dentro de si são extraídas. E coisas sobre as quais você não tem nenhum controle são extraídas. Então, não acho que ser atriz seja necessariamente terapêutico. Mas sempre aprecio os artistas que tentam ser autênticos, detalhistas, com muita compaixão e ternura no que fazem e no que tentam expressar. Antes eu achava que atuar era terapêutico. Agora, porém, acho que só se chega até certo ponto. Mas, assistindo, tive muitas experiências marcantes com obras de arte que me ajudaram bastante na minha vida.
Camila: Algo que perguntei a Stellan e que queria falar com você também é sobre a casa, que é quase uma personagem do filme.E eu quero saber como você trabalhou com esse elemento.
Renate: Bem, Nora não está necessariamente tão interessada na casa e não tem muito apego sentimental a ela, mas os outros personagens têm. Então, acho que acabou se tornando algo distante para mim, porque aquela era a relação da Nora, enquanto a Inga estava muito ligada à casa. E isso era realmente importante para toda a produção. E, claro, era lá que fazíamos nossas pausas e ficávamos conversando. Tivemos ensaios lá. Então, claro, isso teve um efeito. Mas foi interessante como eu me relacionava de forma diferente com a casa, sendo eu parte da minha personagem, e com Inga se relacionou com a casa, sendo parte da personagem dela.
Valor Sentimental está em cartaz nos cinemas.












Comentários 0
Ainda não há comentários.