Entrevista | Stellan Skarsgård: 'Estamos vendo menos e menos o cinema do não dito'

Celebridades

O ator sueco Stellan Skarsgård pode conseguir, na próxima terça-feira (22), a primeira indicação ao Oscar da carreira pelo filme Valor Sentimental (Affeksjonsverd, 2025), do norueguês Joachim Trier. Não que um prêmio hollywoodiano seja balizador de uma trajetória de cinco décadas, mas seria um justo reconhecimento a um ator que caminhou entre o cinema dito de arte europeu e os blockbusters estadunidenses com muita versatilidade. E, em uma Academia cada vez mais internacionalizada, seria bonito ver Skarsgård premiado por um papel na língua-mãe dele (sim, porque apesar de ser um filme sobre uma família norueguesa e falado primordialmente no idioma da terra de Trier, o personagem de Stellan tem origens suecas e morou por muitos anos no país vizinho). No último dia 11, o ator ganhou o Globo de Ouro, o segundo da carreira (em 2020, venceu pela minissérie Chernobyl, da HBO).

Em Valor…, ele interpreta Gustav Borg, um diretor de cinema bem sucedido, mas em um limbo criativo. Sem dirigir um filme há 15 anos, ele resolve voltar ao próprio passado para seu próximo trabalho e convida a filha mais velha (Nora, interpretada por Renate Reinsve), que é atriz, para atuar no projeto. O problema é que eles têm uma relação péssima, marcada pela ausência dele e pelo menosprezo que tem para com a trajetória e as escolhas artísticas de Nora.

Nos meses de divulgação do filme após o Festival de Cannes, uma coisa que observei nas entrevistas de Skarsgård é a associação feita entre o personagem e a vida pessoal do ator, afinal, ele também tem filhos que seguiram carreira artística. O próprio Stellan brincou que um de seus rebentos falou que ele havia se interpretado no filme. Há algumas semanas, conversei rapidamente com o ator e até mencionei essa associação feita pela imprensa internacional. “Eu não usei nada da minha vida pessoal, mas acaba que há coisas que, inconscientemente, aparecem, é claro. Minha vida é parte de mim. Eu sou a minha ferramenta”, sintetiza.

Um tema que levantei na minha crítica do filme é a arte como espaço de entendimento entre Gustav e as filhas (além de Nora, ele também é pai de Agnes, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleas). Para Stellan, Gustav não sabe que está fazendo aquele projeto para a cura de uma relação fraturada.

“Pessoalmente, eu não acredito no cinema como uma forma de cura, mas, nele, você pode expressar coisas que não consegue na vida. O mesmo acontece com a música. Isso é incrível quando a gente fala em cinema. Não é uma arte literal, como o teatro. É mais sutil, e, aos longos dos anos se transformou em uma forma de arte maravilhosa, mas, infelizmente, estamos vendo menos e menos desse cinema do não dito. Tivemos a Nouvelle Vague, mas, [nas décadas seguintes], passamos a fazer cada vez mais séries de TV, onde tudo se resume ao diálogo”

Outro ponto de comparação vem do desenho artístico do filme, que se assemelha ao de Ingmar Bergman, principalmente em Sonata de Outono (Höstsonaten, 1978). Stellan trabalhou com o conterrâneo nos anos 1980 e, ao longo dos anos, falou sobre as impressões negativas que teve sobre ele. Quando perguntado sobre a semelhança nos temas e nos aspectos técnicos entre os dois filmes, ele viu a oportunidade de criticar mais uma vez Bergman e exaltar Joachim Trier, não sem antes reconhecer que vê semelhanças na forma como os dois se expressam no cinema.

“Eu trabalhei duas vezes com Bergman e eu não gostava muito dele. Mas ele me lembra o Joachim na maneira como ele observa, com muita curiosidade e precisão, o que se passa nos olhos do ator. Ele não perdia o foco nisso e foi isso que o tornou um diretor fantástico. Mas Joachim é uma pessoa muito melhor”, frisa.

Assim como em Sonata de Outono, a casa também é um personagem do filme de Trier (e, consequentemente, do que Gustav está fazendo). Stellan concorda e diz que ela foi um elemento fundamental na sua atuação. “Eu pensei na casa como um outro ator em cena. Eu atuei em conjunto com ela, tive raiva dela, tive diferentes reações. No roteiro, ela aparece na página dois. Ela era tão lúdica, tão encantadora, mas esconde outra perspectiva. Ela esta lá, ela não te julga. Ela te vê chegar e te vê morrer. E a próxima geração vem, e a casa segue lá. Ela vê a pequena e infrutífera batalha humana por amor ou relacionamentos”, conclui.

 

Valor Sentimental está em cartaz nos cinemas.

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