Valor Sentimental (2025) e os demônios de cada um
Críticas Gerais
Em Valor Sentimental (2025), novo filme do realizador norueguês Joachim Trier, é significativo que sejamos apresentados primeiro ao principal cenário da história e depois às pessoas que a protagonizam. É como se o casarão escondido entre o verde - este, por sua vez, oculto por entre os prédios - de Oslo intimidasse cada vida que existiu ali.
A fachada vermelha e preta guarda segredos de várias gerações da família Borg, e sua imponência não passa despercebida mesmo para quem ainda não tem idade suficiente para entender o que aconteceu por entre aquelas paredes. É nesse elemento físico tão forte que Trier ancora seu drama familiar, focado sobretudo na relação entre um pai (Gustav, interpretado por Stellan Skarsgård) e as filhas (vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleås).
O ressentimento de Nora (Reinsve) com Gustav, um diretor de cinema renomado, conduz a história. O que deveria uni-la ao pai é justamente o que a separa. Atriz, ela exerce a profissão no teatro e na TV, que são rejeitados por ele. Carregado de um senso de autoimportância, Gustav está preso aos louros do passado e vive uma estagnação profissional que já dura 15 anos. Ele se agarra a um novo projeto como forma de seguir existindo e de reconquistar a relevância de outros tempos. Para isso, dá o braço a torcer e convida a filha para protagonizar seu filme.
Trier trabalha o filme como um drama familiar que não se limita às paredes daquele casarão que os assombra. Ainda assim, a narrativa sempre retorna ao espaço como catalisador das crises familiares. Quando o filme começa, a mãe de Nora e Agnes já morreu, e as duas lidam com a possibilidade de aquela casa não existir mais, uma vez que ela pertence ao pai. A relação de Gustav com o local ao longo dos anos é dissecada aos poucos pelo filme e pode ser lida como um reflexo do que se passa entre ele e as filhas. Assim como a rachadura na parede que está ali há anos, aquela família está quebrada, mas resiste.
Gosto muito de como Valor Sentimental se curva aos grandes dramas familiares do cinema para mostrar aquelas três pessoas como figuras falhas e perdidas, cada uma a seu modo. Pode ser a analogia mais óbvia, mas é difícil não relacionar o filme de Trier à obra de outro diretor escandinavo (curiosamente, com quem o próprio Stellan Skarsgård já trabalhou). Em Sonata de Outono (1978), Ingmar Bergman colocava em cena as fricções entre duas gerações (no caso, mãe e filha) em uma casa que transita entre a claustrofobia e a intimidação. Assim como no filme de 2025, a arte também centralizava os conflitos vistos na tela entre as personagens de Ingrid Bergman e Liv Ullmann.
No entanto, Trier não reduz seu filme a um pastiche de Bergman, mas, a exemplo do que o sueco fazia, o diretor e roteirista coloca seus personagens em conflitos individuais que afetam e espelham as relações deles com o mundo. Nora não sente que o pai a vê como artista, e ele faz questão de corroborar esse sentimento ao pontuar que os trabalhos dela são pequenos demais para seu talento. Gustav é cruel em suas afirmações, carregadas de pedantismo, que evidenciam a falta de interesse no que a filha pode oferecer em cima de um palco, por exemplo.
Os conflitos se expandem para além da família e, por meio da introdução de uma nova personagem (a atriz hollywoodiana Rachel Kemp, vivida por Elle Fanning), o filme passa a revelar as dúvidas que Gustav esconde na crueldade e na secura com que lida com o mundo. Kemp busca algo além dos papéis que a indústria reserva para ela, e é na obra do diretor europeu que encontra a possibilidade de se reinventar (ou se decobrir) como atriz.
Trier e Fanning não se rendem à ideia fácil de retratar a personagem como uma estrela vazia. Rachel tem o coração aberto e cria um laço com Gustav, que, pela primeira vez em anos, se sente visto como artista - não muito diferente do que Nora busca nele. Isso se confirma no encontro entre as duas atrizes no teatro, habitat da personagem de Reinsve, em uma troca que revela a busca de cada uma.
Ao mesmo tempo em que o filme não vilaniza totalmente o personagem de Skarsgård, gosto de como não faz questão de nos entregar um acerto de contas direto entre pai e filha. Esse embate existe no início do filme e continua de forma indireta, seja no olhar desafiador de Nora para o pai, seja na crueldade com que ele julga as escolhas da filha. É satisfatório que o entendimento não venha da esperada catarse de uma grande briga entre os dois, mas de uma conversa cheia de dor entre Nora e a irmã, Agnes (Lilleås). As duas lidam de formas diferentes com a ausência do pai, mas isso não significa que o olhar gentil da mais nova não esconda dores profundas. Ela também desejava ser vista por ele, mas não se ressentiu da mesma forma que a irmã mais velha porque tinha em quem se apoiar.

Quando percebe que não é tão diferente do pai e que ele pode ter enfrentado os mesmos demônios que ela vence todos os dias, Nora faz da arte um espaço de cura. Valor Sentimental não oferece uma resolução definitiva, mas uma trégua. Nora e Gustav se encontram no meio do caminho. A casa não os assusta mais. Eles vencem aquela imponência e passam a tratar de suas feridas em uma versão artificial do espaço que carregou tantos silêncios dolorosos e sons de insultos. A arte venceu.














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