O Cinema de Terror

Críticas Gerais

Um breve texto sobre o gênero

O sobrenatural permeia as histórias e o imaginário das pessoas há séculos. Vampiros, lobisomens e fantasmas, por exemplo, são figuras que atravessaram gerações e seguem causando arrepios, seja em lendas, livros ou nas telonas.

Logo nos primeiros anos do Cinema, as histórias de terror já eram exploradas. Georges Méliès inaugurou o gênero de terror, em 1896, com A Mansão do Diabo (Le Manoir du diable). Outros filmes dentro do gênero também incorporam a extensa filmografia do pioneiro, como Um Pesadelo (1896), O Diabo no Convento (1899), O Caldeirão Infernal (1903), dentre vários outros. Outra importante figura dos primórdios do Cinema que explorou o terror — e, antes disso, deu início às narrativas ficcionais na Sétima Arte — foi a diretora Alice Guy-Blaché, tendo realizado Cirurgia da virada do século (1900), Fausto e Mefistófeles (1903) e uma adaptação de O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allan Poe, em 1913.

Na década de 1920, o expressionismo alemão foi um importante aliado do terror no audiovisual. Dois exemplos marcantes, tanto do movimento como do cinema em geral, são O Gabinete do Doutor Caligari (1920) e Nosferatu (1922). As inovações estéticas trazidas pelo expressionismo alemão, com cenários distorcidos, maquiagens carregadas e uma fotografia que ressalta sombras criaram um visual perfeito para o gênero e seguem influenciando diversos filmes. Além disso, o expressionismo alemão também traz o sombrio e o aterrorizante como uma metáfora: na década de 1920, a Alemanha se recuperava dos impactos da Primeira Guerra Mundial enquanto presenciava a ascensão do nazismo. Atualmente, o macabro é muito utilizado para retratar, por exemplo, problemas sociais (como Corra! (2017), de Jordan Peele, que aborda o racismo) ou relacionados à saúde mental (como O Babadook (2014), de Jennifer Kent, que aborda a depressão).

Nas décadas de 1920 a 1950, a Universal investiu no terror, lançando os clássicos Universal Monsters que influenciaram as décadas seguintes e marcaram a cultura pop. Iniciando com O Corcunda de Notre Dame (1923) e O Fantasma da Ópera (1925), ambos protagonizados por Lon Chaney, a produtora lançou grandes marcos do cinema de terror, como Drácula e Frankenstein, ambos de 1931 e estrelados, respectivamente, por Bela Lugosi e Boris Karloff, atores que marcaram o gênero — inclusive, o famoso visual de Frankenstein que perdura até hoje, com a testa avantajada e parafusos no pescoço, foi cunhado no clássico filme. Além desses, A Múmia (1932), O Homem Invisível (1933), O Lobisomem (1941) e O Monstro da Lagoa Negra (1954) são outros personagens que fazem parte do universo de terror da Universal. Estes filmes se transformaram em franquias, expandindo o universo dos monstros — temos, por exemplo, A Noiva de Frankenstein (1935), A Filha de Drácula (1936), A Volta do Homem Invisível (1940), entre muitos outros. Foram 33 filmes ao longo de 31 anos.

Outro tema recorrente no gênero de terror é a feitiçaria. Em 1922, foi lançado Häxan — A Feitiçaria Através dos Tempos, importante marco para a entrada definitiva do misticismo, do sobrenatural, do demoníaco e da caça às bruxas no Cinema. Nas décadas seguintes, mesmo fora do circuito do terror, as bruxas já eram figuras presentes nas telonas, como em Branca de Neve e Os Sete Anões (1937) e O Mágico de Oz (1939). Outros filmes que seguem a influência de Haxän e abordam o terror sobrenatural são A Maldição do Demônio (1960), O Bebê de Rosemary (1968) O Exorcista (1973), Suspiria (1977), A Bruxa de Blair (1999) e os modernos Invocação do Mal (2013) e A Bruxa (2015).

Um subgênero que ganha força no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (com influência, também, de Haxän) e tem ressurgido nos últimos anos é o terror folk, que explora cultos macabros, satanismo, religiões antigas e mal compreendidas e, claro, bruxaria. Esse subgênero surge em um contexto hippie, com uma desilusão da filosofia de “retorno à natureza” e com a redescoberta de elementos pagãos e costumes antigos (daí o nome folk, derivado de folklore). Ambientados em áreas rurais e florestas, não dependendo da escuridão da noite para aterrorizar seus espectadores, os filmes de terror folk se apoiam não em jumpscares ou terror psicológico, mas sim no desconforto de assistirmos sociedades e rituais que se distanciam culturalmente do que estamos acostumados. Os principais filmes são O Caçador de Bruxas (1968), O Estigma de Satanás (1971), O Homem de Palha (1973) — considerados a clássica trindade do subgênero — e o recente Midsommar (2019).

Krueger e Ghostface ganham as telas. O terror slasher se popularizou nos anos 1980 e 1990 com histórias de serial killers perseguindo grupos de adolescentes. Com aparências bem caricatas, munidos de facas ou lâminas e rendendo bons sustos, os assassinos matam pelo simples prazer de matar, colecionando vítimas e assombrando vizinhanças pacatas com suas chacinas. O sucesso deste subgênero foi tão grande que estes personagens ganharam suas próprias franquias, como Halloween, Sexta-feira 13 e Pânico, algumas perdurando até hoje (dois exemplos são Halloween Ends e Pânico 5, lançados em 2022) e rendendo, até mesmo, o crossover de 2003, Freddy vs. Jason.

Mas terror não se sustenta apenas em monstros, jumpscares e cenas gráficas de violência. Há filmes que conseguem arrepiar o espectador apenas com sensações causadas pela trilha sonora, sons e uma atmosfera desconfortável. Não tem como negar os impactos que os brilhantes Psicose (1960) e O Iluminado (1980), referências de terror psicológico, nos causam: a música enquanto Marion Crane é assassinada na famosa cena do chuveiro ou processo de enlouquecimento de Jack Torrance no isolado Hotel Overlook são marcantes para quem assiste. Adentrando as mentes dos personagens e do espectador, os filmes desse subgênero incitam mistério, apreensão e perturbação sem, necessariamente, precisar de uma ameaça concreta em tela. Norman Bates nos aterroriza por sua mente psicopata, Jack por sua insanidade no hotel assombrado.

É incontestável a grandeza do gênero de terror no Cinema. Monstros, espíritos, zumbis e serial killers seguem fascinando espectadores há mais de 120 anos, adentrando nossos subconscientes e marcando presença nas noites de sono de muitas pessoas. Nada melhor do que assistir aos nossos queridos Jason, Regan MacNeil, Jack Torrance, Freddy Krueger e tantos outros. Bons filmes e bons sustos!

Publicado originalmente em 01/11/2022 no blog do Centro de Crítica da Mídia (CCM) da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) da PUC Minas (https://blogfca.pucminas.br/ccm/cinema-de-terror/).

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