O Agente Secreto e o Cinema como imaginação da memória
Críticas Gerais
“O Cinema como memória”. Essa é uma frase que eu li em muitos textos sobre Ainda Estou Aqui no final do ano passado, quando todo mundo estava falando sobre o filme devido ao Oscar e o seu impacto cultural aqui no Brasil. Discordar dela é impossível, pois sim, o Cinema tem o poder de trazer memórias de volta ao debate público. O que me incomoda nessa afirmação é o fato dela possuir um fim em si mesma, como se somente isso bastasse e não fosse levado em conta a individualidade do próprio Cinema.
Veja, o Cinema não é uma tradução ipsis litteris da memória. Os cineastas responsáveis pelos filmes baseados em memórias tomam escolhas estéticas para melhor se aproximarem do fato ocorrido e traduzir o seu significado. Pegando como exemplo o próprio Ainda Estou Aqui, a sequência da partida de Rubens Paiva deixa claro as escolhas de Walter Salles. As cortinas tampando a luz na casa da família, representando as trevas da ditadura que acabam de adentrar aquele refúgio de luz que era a residência até então, cheio de música e alegria. A câmera na mão. A imagem de Rubens refletida no espelho depois de conversar com a filha, em que sua cabeça aparece cortada pela borda superior do objeto. A despedida entre o casal, em que os atores Fernanda Torres e Selton Mello se posicionam ao canto direito do quadro, em frente a porta, por onde emana a única fonte de luz naquele momento. O abraço e o beijo entre os dois, seguido pela frase de Rubens, “volto à tempo do suflê”, que evocam um certo estoicismo de marido perfeito. E, por fim, o plano-contra-plano de Eunice olhando para Rubens, revelando o olhar levemente marejado de Fernanda e o sorriso na boca de Selton.

A frase “o Cinema como memória”, escrita dessa forma no texto de um filme, fechadinha, parece ignorar essas escolhas formais do cineasta que são tão importantes para a qualidade do filme quanto o seu tema única e exclusivamente. Portanto, eu me atrevo a descrever O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho com a seguinte frase: o Cinema como imaginação da memória.
Se você assistiu ao filme, já sabe que Marcelo - ou melhor, Armando - morre e toda a história que estamos acompanhando desde o início parte do trabalho de duas arquivistas que estão vasculhando os arquivos sobre sua morte. Esse fato, porém, não parece ser tão importante para o diretor. A pergunta que ele está mais interessado aqui é “e se?”. E se essa história de um homem morto durante a ditadura fosse filmada como um thriller policial setentista, a lá Carpenter e De Palma? E se, ao mesmo tempo que esse homem andava sendo perseguido, houvesse uma perna cabeluda solta matando pessoas em Recife? E se a vida desse homem estivesse rodeada de outras pessoas tão ou mais interessantes do que ele, como uma senhorinha ex-comunista e anarquista? E se a memória não estivesse atrelada somente a uma única pessoa, mas sim a todo um momento histórico específico que o próprio diretor viveu?

O dispositivo de voltar ao presente deixa claro o distanciamento da memória que Kleber propõe aqui. Pelo olhar de sua câmera, sempre sinuosa, cheia de zooms, split diopters e trucagens, vemos uma nostalgia em cena pela Recife dos anos 70 e suas singularidades. A rotina na repartição pública em que Marcelo trabalhava, as picaretagens do delegado que trabalhava em frente a ela, os filmes que estavam sendo exibidos no Cine São Luiz e como eles eram recebidos pelo público. Também vemos essa nostalgia por um ponto de vista anti-naturalista e calcado na suspensão de descrença e no realismo mágico. A perna cabeluda, o gato de duas cabeças.
Por vezes, O Agente Secreto até se esquece um pouco de Marcelo e Wagner Moura e divaga por esses detalhes pequenos que tanto estima, mesmo que, na perspectiva do público atual, eles sejam “desnecessários” e não exatamente “avancem o plot principal”. Isso é sinônimo de um diretor apaixonado pelo que está mostrando e como. Até enxergo nesse título uma tentativa de fazer um Cavalo de Tróia para o público. “Venha ver meu filme, com esse nome genérico e ambíguo de O Agente Secreto, e encontre algo totalmente diferente”.

Eu diria que essa paixão de Kleber às vezes passa um pouco do ponto, pois o dispositivo que ele utiliza é didático demais, como se o diretor não confiasse 100% na imagem cinematográfica para deixar claro que estamos vendo uma história dentro de outra. Também é um dispositivo que intui um olhar do diretor para o próprio presente. Se o passado em O Agente Secreto é filmado com cores vibrantes, libido, truques de câmera, musicalidade, tesão, o presente é o oposto. Ambientes gélidos, frios, desprovidos de vida. O fato de encontrarmos Fernando, filho de Marcelo, em um consultório médico qualquer que, um dia, foi um cinema de rua, diz tudo o que precisamos saber.
Nessa ânsia de imaginar a memória do passado, involuntariamente acabamos a embelezando, mesmo com todos os traumas que aconteceram naquele momento. Não há nada de errado com isso, pelo contrário. A memória é viva e está sempre sujeita a diferentes olhares. Memória não é só sobre o que é contado, mas sim sobre quem conta. Eu fico feliz que, em O Agente Secreto, o diretor assuma que está contando também uma memória pessoal de um momento vivido por ele. Que graça tem o Cinema baseado nas memórias se não pudermos imaginar um pouquinho com ele também, afinal?








Comentários 0
Ainda não há comentários.