A Volta ao Mundo em 20 Horrores - parte 1
Críticas GeraisQuer fazer Deus rir? Ponha um filme na tua watchlist.
Eu não tenho o costume de fazer watchlists porque, ou em algum momento elas viram obrigação e acabam perdendo a graça, ou (o que é bem comum) tu acaba condenando os filmes listados a nunca serem assistidos. A minha exceção é em outubro, quando eu faço uma lista de Halloween.
Terror é um gênero que eu demorei a explorar porque eu tinha outras preferências (medo), por isso os últimos três outubros têm sido muito importantes para conhecer novas vertentes e fugir do lugar comum. Esse ano, por exemplo, eu decidi assistir filmes do máximo de países diferentes que eu conseguisse, então acabei fazendo grandes descobertas enquanto conhecia vampiros, fantasmas e assassinos das mais diferentes culturas.
Bora descobrir por onde eu andei? Vem comigo.
Hong Kong
Começando com o filme que deu a ideia para essa lista, A Sétima Maldição é um longa de 1986, classificado na época como Categoria III, que no sistema de classificação indicativa honconguês da época significava que o filme foi considerado impróprio para menores de idade - e ele honra com gosto essa classificação.
Dirigido por Lam Nai-Choi (A História de Ricky), A Sétima Maldição é um espetáculo de efeitos práticos, que começa como um ótimo filme de ação daqueles que só a Hong Kong dos anos 80 sabia fazer, mas logo se torna uma aventura que é mais pulp e trash impossível, cheia de maldições, esoterismo, esqueletos lutadores e litros de sangue, com forte inspiração em Indiana Jones e o Templo da Perdição, e até em Alien (!).
A trama, baseada no livro escrito por Ni Kwang (que também escreveu o livro adaptado para o cult The Cat, também dirigido por Lam Nai-Choi), conta a história do Dr. Yuen (Chin Siu-Ho), um médico que sabe lutar kung-fu, mas não sabe seguir regras e acaba sendo amaldiçoado com sete maldições por uma tribo pagã na Tailândia. Um ano depois, ele precisa voltar à selva tailandesa para encontrar a cura, e, no caminho, derrotar o líder da tribo e enfrentar criaturas grotescas.
O protagonista não é muito simpático e é facilmente ofuscado pelo time carismático de coadjuvantes (Maggie Cheung como a repórter maluquete, Dick Wei como um guerreiro nativo, o grande Chow Yun-Fat como um Dr. Wesley coadjuvante de luxo...), mas tu não vai encontrar muito tempo para pensar sobre isso por causa do tanto de set pieces insanas que tem aqui, seja puxando mais para o gore, como quando um feto voador morde o pescoço de um cara, invade o seu corpo e sai rompendo o abdômen dele, ou para a ação, como na cena em que os heróis lutam contra monges enquanto escalam uma estátua gigante do Buda.
Se tudo o que foi dito aqui não te convenceu que esse filme é muito divertido, eu não sei o que vai.
Queria muito ter assistido quando criança.
Japão
Para o Japão, eu decidi conferir um clássico do Kiyoshi Kurosawa, um dos diretores japoneses mais célebres e que fez parte da onda de filmes de j-horror que bombou lá na virada do milênio (de onde saiu O Chamado, Pulse, O Grito, etc).
A Cura acompanha um detetive lutando para manter a sanidade enquanto investiga uma série de crimes onde os assassinos afirmam não terem controle sobre as suas ações.
Kurosawa é mestre em criar atmosferas, e eu ainda não consigo entender essa facilidade que ele tem de gerar uma sensação estranha, desconfortável, a partir de um cenário aparentemente comum. Aqui, essa característica do diretor é elevada à décima potência, com sua mise-en-scene sóbria que, aliada ao design de som e à fotografia do Tokushô Kikumura, ecoam o elemento hipnótico da narrativa. Outro ponto fortíssimo do filme é a atuação do Koji Yakusho, poderosa quando o detetive suprime as suas emoções, e, principalmente, quando ele as deixa extravasar.
Achei A Cura semelhante, em certo ponto, com outro filme bem conhecido do diretor, Pulse, no sentido de que ambos os filmes falam sobre essa sociedade emocionalmente decadente, onde as pessoas vão sucumbindo aos poucos às suas angústias. É um filme fantástico, se tornou o meu favorito dos que eu vi do diretor. Sinistro, instigante, oferece mais perguntas do que respostas, mas não te deixa parar de pensar nele depois que tu assiste.
Assim que os créditos rolaram, eu já queria dar play de novo.
Agora, vamos para a Coréia!
Coréia do Norte
Sim! Ela! A famigerada! A misteriosa! A controversa!
Imagina só:
Em 1986, o diretor sul-coreano Shin Sang-ok chegou aos EUA acompanhado pela sua esposa, a atriz Choi Eun-hee, pedindo asilo e contando que ambos haviam sido sequestrados pelo governo da Coréia do Norte, onde viveram por oito anos e onde ele dirigiu sete filmes.
O último fruto dessa parceria de sucesso foi Pulgasari, filme feito com o apoio do Japão e fortemente influenciado pelo cinema japonês, mais especificamente pelos subgênero dos kaiju (filmes envolvendo monstros gigantes, como o Godzilla).
Se Godzilla simboliza a ameaça nuclear após os bombardeios em Hiroshima e Nagasaki, Pulgasari simboliza a importância da união da classe trabalhadora frente a um regime opressor. Aqui, um povo camponês, que vive maltratado por um governante tirano, encontra em Pulgasari, um monstro gigante vindo direto do folclore coreano, a esperança de união e resistência.
O diretor abusa de um melodrama exagerado que te faz revirar os olhos durante toda a introdução, e tudo o que envolve o drama dos humanos é bem chatinho (o que acontece em vários filmes de kaiju, sendo sincero).
Depois que o Pulgasari aparece, o filme cresce (hehe) e vai tomando uma escala épica que me impressionou pelas grandes (e perigosas) cenas de batalha e as boas cenas de destruição. O monstro é expressivo, muito bem feito, e não deve nada aos kaiju japoneses que inspiraram a produção. Eu também percebi uma inspiração visual nos filmes de wuxia que os Shaw Brothers produziam em Hong Kong nos anos 70 e 80, principalmente quando envolve o império e suas feiticeiras.
Contextualizado, é fascinante, mas a verdade é que Pulgasari vale a pena só se tu te interessa pela Coréia do Norte, ou se tu gosta do subgênero kaiju no geral. Se tu não te encontra em nenhum desses grupos, acho que vai ser uma experiência bem maçante.
(Uma coisa que eu achei interessante é que depois que o diretor foi para os EUA, ele dirigiu nada mais, nada menos, do que o clássico da Sessão da Tarde 3 Ninjas Contra-Atacam. E ele não parou por aí e também produziu um remake de Pulgasari chamado Galgameth, que também passava direto, mas eu não lembro nada.)
Coréia do Sul
Na Coréia do Sul, eu conferi o trabalho de um dos seus diretores mais renomados (e um dos meus favoritos), Park Chan-Wook, diretor do já clássico Oldboy e do excelente A Criada.
Esse é o meu Crepúsculo.
Inspirado no livro Thérèse Raquin de Émile Zola, Sede de Sangue conta a história de um padre (o grande Song Kang-ho, de Parasita) que se voluntaria para participar de um experimento que visa encontrar a cura para um vírus mortal, mas acaba adquirindo características vampirescas, o que o leva a ter contato com seus instintos mais primitivos, como o desejo por sangue, e pela esposa de seu amigo de infância.
Dá pra dividir esse filme em duas partes:
A primeira conta essa história de amor entre um homem tentando manter a sua humanidade e uma mulher cuja a dela foi roubada há tempos, e Park aproveita várias vertentes do vampirismo para contar essa história, como a tragédia, o grotesco, a sensualidade e o camp.
Na segunda parte, o filme se aproxima mais de outros trabalhos do seu realizador, com os personagens entrando em uma espiral bizarra de acontecimentos a partir de péssimas decisões e suas caóticas consequências, de modo que tu nunca consegue adivinhar para que lado o filme está indo. Isso tudo, é claro, recheado com o humor ácido característico do diretor.
Eu, particularmente, gostei mais da primeira metade, onde o filme era mais diretamente “uma história de vampiro pela ótica de Park Chan-Wook”. Inclusive, é nessa primeira metade que está a minha parte favorita do filme: a bela fotografia do Chung Chung-hoon, que mimetiza o gótico a partir de um cenário urbano moderno.
Mas é importante dizer que o filme não me perdeu em nenhum momento. Eu fico fascinado com o storytelling do Park Chan-Wook que, mesmo com uma história mais linear como essa, consegue ser tão dinâmico e inventivo.
Taiwan
Em Taiwan, uma surpresa.
No fundo, todo mundo só quer ser visto.
Esta comédia de horror (o famoso terrir) apresenta o pós-morte como um mundo do entretenimento, onde as celebridades são fantasmas que tiveram mortes terríveis e hoje assombram os vivos de forma televisionada. Nela, acompanhamos uma jovem e tímida fantasma que precisa aprender a assustar os vivos para não desaparecer para sempre.
Com um grupo de personagens carismáticos, uma edição dinâmica e um roteiro com muito coração, A Sociedade dos Talentos Mortos foi uma ótima surpresa. A dinâmica meio Monstros S/A de mostrar os bastidores por trás dos sustos gera momentos muito divertidos e com um terror bem efeito e carregado de referências a clássicos asiáticos, como O Chamado e Espíritos. No meio de um humor mórbido, meio escrachado, está uma dose tocante de existencialismo, com o roteiro retratando essa busca dos personagens por validação, refletindo sobre luto, solidão e a busca por fama em tempos de redes sociais.
Um filme bem especial.
(Pós-créditos maravilhoso.)
Tailândia
Será que os diretores tailandes Parkpoon Wongpoon e Banjong Pisanthanakun sabem do barulho que o filme deles fez aqui no Brasil nos anos 2000?
Era impossível passar batido por Espíritos. Tinha chamada na tv, trailer em todo lugar, o cartaz gigante na locadora... É um filme que marcou bastante a minha geração, sendo que até mesmo eu, que não assisti na época, sempre que estou com dor nos ombros falo que tem uma fantasma montada na minha garupa.
Espíritos conta a história de um fotógrafo e sua namorada que, ao voltarem de um casamento, atropelam uma pessoa e não prestam socorro. Um tempo depois, eles começam a perceber uma figura estranha nas fotografias que ele tira.
Fortemente influenciado pelo j-horror, os diretores aproveitam muito bem o artifício das fotos para construir o terror, característica essa que também ficou muito marcante no filme. O ritmo é um pouco irregular, mas a trama, que pode parecer meio clichê num primeiro momento, guarda surpresas o suficiente para segurar o espectador até o final.
Eu apertei play esperando a coisa mais genérica do mundo e fiquei bem surpreendido. De toda essa leva de filmes sobre fantasmas vingativos que varreu os cinemas nos anos 2000, esse aqui é um dos melhores.
Índia
A Índia tem uma indústria cinematográfica gigantesca, mas foi difícil achar um filme de terror. Tive que me virar com o que tinha ao meu alcance, no caso, Quatro Histórias de Fantasmas, uma antologia da Netflix que conta com, veja só, quatro histórias de fantasmas, cada uma por um diretor diferente.
A primeira, dirigida por Zoya Akthar, é sobre uma enfermeira displicente que cuida de uma idosa e, sinceramente, não chega a lugar algum. Enrola demais no drama pessoal da enfermeira e, quando parece que o horror vai engrenar, termina. Muito ruim.
A segunda, dirigida por Anurag Kashyao, aborda a relação de um menino e sua tia grávida, e continua com um ritmo lento. Tem uma fotografia dessaturada que me irritou bastante, mas a narrativa surrealista, com body horror e algumas surpresas bem esquisitas tornam a experiência mais interessante.
A terceira história é muito mais eficiente no terror. Dirigida por Dibakar Banerjee, é menos uma história de fantasma e muito mais uma história de zumbis tensa, grotesca e aterrorizante. Todo o desinteresse que tomava conta de mim nos dois primeiros segmentos desapareceu e eu me encontrei muito investido na história. Fez o filme valer a pena.
A última é dirigida por Karan Johar e conta a história de uma mulher que descobre que seu noivo por casamento arranjado tem uma relação peculiar com a sua falecida avó. Parte para um lado mais divertido, dado o absurdo da situação, e tem uma vibe meio Além da Imaginação. Nada demais, mas entretém.
Austrália
Na terra dos cangurus, coalas e porquinhos atrapalhados, um filme enigmático sobre um grupo de alunas de uma escola vitoriana que fazem uma excursão até uma montanha chamada Hanging Rock. Desse grupo, três alunas e uma professora decidem subir a montanha… e nunca mais são vistas.
Três gurias e uma professora sumiram, mas todos se perderam.
O que começa como uma história de época clássica sobre meninas crescendo dentro de uma instituição opressora logo toma um rumo assombroso, quase psicodélico. O filme não tem muitos elementos clássicos de horror, pra quem vê de longe parece só um drama comum, mas, pra quem está vendo de perto, a perdição é evidente.
Feminilidade. Sexualidade. Classe. Opressão. Novo século. Natureza. Sobrenatural. O filme oferece pistas, nunca respostas. A fotografia belíssima, inspirada em pinturas renascentistas, contribui para esse tom de sonho (ou alucinação) que deixa muita coisa para interpretação. É um filme fascinante, que abre espaço para muitas discussões, sem, talvez, nenhuma resposta certa. E, se essa resposta certa existe, talvez não caiba a nós saber qual é.
Fascinante.
União Soviética
Na Rússia, viajamos no espaço-tempo até a União Soviética para assistir Viy - A Lenda do Monstro, filme de 1967 baseado em um conto folclórico sobre um jovem padre que é ordenado a presidir por três noites o velório de uma menina em uma aldeia distante - o problema é que ele mesmo matou a menina, quando ela o atacou na noite anterior na forma de uma bruxa.
Pela cenografia e os fundos pintados a mão, Viy lembra mais um filme da velha Hollywood, menos o technicolor. O humor ingênuo e a trilha cartunesca dão um tom de fábula que frustra durante uma boa parte do filme, mas, conforme a bruxa vai se manifestando, a direção vai ficando mais inventiva e os temas da história vão ficando mais claros.
Li que a produção sofreu com a falta de recursos e com as restrições da época, e talvez isso justifique tanta enrolação para o filme deslanchar de verdade. Quando se entrega ao horror, o filme cresce muito. Toda cena da bruxa impressiona pela beleza e pela criatividade do jogo de câmera, e o clímax abraça o bizarro de uma maneira desconfortável e fascinante, dados os efeitos práticos e as escolhas da direção de arte.
Esses últimos minutos não só salvam o filme da mediocridade, como também justificam o lugar dele na história do horror.
Deveria ser mais comentado.
Alemanha
Na Alemanha, mais especificamente na antiga Alemanha Ocidental, um filme que responde a pergunta “existe horror maior do que ser corno?”
Possessão conta a história de um casal em crise. Ela começa a apresentar um comportamento estranho, pede divórcio e some. Ele decide ir atrás da verdade e encontra o que ele menos espera.
O diretor Andrzej Zulawski tá num show-off desgraçado aqui, com uma câmera ativa que valoriza o caos da história e o trabalho vigoroso dos atores. O elenco, aliás, é fantástico, o diretor consegue tirar atuações intensas desde a atriz mirim que aparece por dois minutos até o casal principal. O homem, Sam Neill, insano como esse marido confuso e obcecado, e a mulher, Isabelle Adjani, maravilhosa nesse papel que exige muito dela, o de uma mulher desesperada para retomar o controle da sua vida, controle esse desejado pelo seu marido, seu amante, seu filho e talvez até mesmo pelo sete-pele. Ah, entendi! Possessão!
O que eu mais gostei de Possessão, além da densidade do roteiro (existe todo um subplot político que me escapa em sua totalidade, por exemplo) e das atuações, é que ele é um filme comprometido com o bizarro, sempre disposto a ir além. Chegou um ponto em que eu pensei "faltou coragem para mostrar", e depois ele foi lá e mostrou. E aí ele me fez muito feliz.
Muito obrigado por me acompanhar até aqui, te espero na parte 2, onde encontraremos suecos em crise, italianos assassinos e argentinos encapetados. Até mais!
























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