Então - é Natal
Críticas GeraisDesde que me lembro, eu sempre adorei o Natal. A decoração, a sensação de liberdade devido às férias escolares, a ansiedade pela chegada do dia 24, a festa reunindo toda a família, as comidas, os presentes... Desde cedo, tudo isso me infectava com uma alegria contagiante, um sentimento de euforia que antecipava a mudança de ano, e mesmo anos depois, já adulto, num lugar em que eu há muito já não acreditava em Papai Noel mas também como ateu e longe de uma crença firme de que o réveillon tivesse qualquer poder de trazer uma mudança de energia ou qualquer outra coisa nesse sentido – ainda assim a época continuava me encantando, mesmo nos anos em que eu, morando 450km distante dos meus pais e de minhas irmãs, e já relativamente afastado do resto da minha família, passava o dia de Natal sozinho em casa.
Não é de se impressionar, então, que eu também ame desde criança a instituição Filmes de Natal – e não apenas filmes; quando criança, eu ficava ansioso para ver qual eram os filmes que a Sessão da Tarde ia reprisar naquele ano: seria Gremlins? Talvez Os Fantasmas Contra Atacam? Ou algo completamente novo, que eu ainda não tivesse visto? E, entre um filme e outro, ficávamos ligados na TV (especialmente na semana do dia 25) para ver os episódios especiais de Natal das séries que gostávamos: episódio de Natal do Chaves? Temos. De Um Maluco no Pedaço? Temos também? Três é Demais? Claro, por que não?!
Hoje em dia, finda nossa dependência da TV aberta e reféns dos catálogos finitos e por vezes faltosos dos streamings, podemos fazer nossa sessão de Natal como quisermos: a qualquer momento do ano, podemos assistir qualquer um dos episódios de Friends passados na época, ou rever O Natal dos Muppets por quantas vezes quisermos. Criamos (posso incluir mais algum maluco do Peliplat nesse nós subentendido?) listas de filmes que veremos no mês de dezembro. Na verdade, enquanto cinéfilos, uma parte essencial da diversão é sair pesquisando por novos e diferentes títulos, de diversas épocas e diferentes gêneros. Num dia, podemos ver Arnold Schwarzenegger correndo atrás de um boneco de super-herói para o filho em Um Herói de Brinquedos; no dia seguinte, rever um monte de garotas universitárias sendo assassinadas em Black Christmas – e sem sair do clima da data de jeito nenhum. Na verdade, é um prazer maluco se regozijar nessa data especial passando pelo terror, pela comédia, pelo drama familiar.
A minha lista de filmes de Natal se tornou um monstro gigante, somente superado pela minha ridiculamente longa e abrangente playlist de Natal, que conta atualmente com 388 canções em 19h43 minutos de Jingle Bells infinitos (mas mais sobre isso em um outro artigo). Nessa lista (você pode checar ela no meu Letterboxd, ou ficar ligado nas listas que pretendo publicar aqui), eu coloquei os filmes que revia constantemente quando criança, filmes que descobri ao longo dos anos, e filmes que – devido à indisponibilidade no Brasil ou outro entrave qualquer – eu ainda tenho de assistir pela primeira vez em algum Natal porvir. Mas confesso que, chegado o mês de dezembro, uma parte tão importante quanto assistir esses filmes é procurar por listas e similares pela internet, e checar se realmente não tem nenhum outro filme natalino que ainda não está catalogado na minha lista.
(A saber: em diversas listas que vi por aí, o pessoal tenta fazer uma lista completa de TUDO o que já foi lançado com o tema da natividade, o que eu não julgo mas não sou parceiro – eu gosto de ter em minha lista um certo controle de curadoria de filmes que eu realmente gosto ou pretendo ver; nada contra quem ama uma daquelas comédias românticas genéricas que povoam o Netflix e similares; apenas não é a minha praia.)
Tendo tudo isso sido dito, eu confesso que por muito tempo uma coisa me incomodava em toda essa minha euforia: que tipo de pessoa chega à idade adulta – especialmente uma que, nessa transição, se tornou ateu, cético e anticapitalista – e não apenas ainda adora o Natal, mas tem no fundo de seu coraçãozinho frio e punkrockzista a época natalina como sua absolutamente preferida do ano? Seria atraso de desenvolvimento? Pouca inteligência emocional? Pura nostalgia dos tempos inocentes e despreocupados dos tempos de criança?
Embora, após ter casado e voltado a comemorar o Natal com uma família grande e amorosa, um pouco desse meu incomodo se dissipou, e a chegada iminente da meia-idade também começa a deixar a gente meio que impermeável ao que os outros pensam de nós, mas uma outra coisa também aconteceu: por muito tempo eu achei que, por amar a época de Natal, eu amava os filmes de Natal, mas, em anos recentes, comecei a pensar “e se for o contrário?” E se eu, na verdade, ame o Natal porque eu amo os filmes natalinos.
Para nós, cinéfilos, uma grande parte da maneira como encaramos a realidade e descobrimos nosso lugar no mundo é através dos filmes: certo ou errado, são ou insano, nós nos descobrimos pelos filmes, experienciamos a vida pelos filmes, moldamos quem somos pelos filmes; a sétima arte é algo inerente a nós, como uma segunda pele, o nosso porto seguro, e esses filmes nos trazem algo: seja a redenção de George Bailey em A Felicidade Não Se Compra, os surtos de Bill Murray no supracitado Os Fantasmas Contra Atacam ou mesmo a canção com que Judy Garland consola sua irmã mais nova em Meet Me in St. Louis, os filmes de Natal nos trazem um conforto estranho, uma sensação de que estamos vivendo em um tempo especial, um tempo que nos dá uma nova chance; um momento onde podemos (ou deveríamos) nos sentir mais próximos daqueles que amamos, que poderíamos amar aqueles a quem detestamos. Existe, claro, uma inocência pueril nisso que estou dizendo – não preciso contar para vocês que vivemos num mundo frio e caótico, onde homens decididamente maus trabalham arduamente para que eu e você sejamos menos felizes, menos satisfeitos, menos donos de nós mesmos.
Talvez, justamente por isso, os filmes de Natal sejam cada vez mais importantes para mim. Para nós, quem sabe. Como diria a personagem de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui, “sorriam”. Sorrir ainda é a forma mais simples de provarmos que, mesmo nesse mundo terrível, nós ainda podemos resistir. E, se um filme de Natal ou um pinheiro artificial com luzinhas piscando colocar um sorriso no seu (e no meu) rosto, que seja.





















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