Representar é eternizar uma parte nossa

Críticas Gerais

O tema da representação sempre foi uma inquietação para mim, não gratuitamente fiz um mestrado sobre isso. Primeiramente, eu gostaria de confessar que gostaria de falar de apenas um filme, como normalmente faço. No entanto, por mais que eu esteja pensando há dias (e a vida toda sobre isso), essa possibilidade me parece inexistente. Então, aqui, pela primeira vez, farei um pequeno mosaico para tentar entender esse tema que me é tão caro e, assim, poder também participar do desafio do nosso querido Peliplat. 

Vamos do começo: meu primeiro reconhecimento como sujeito (tirando o fato de ser humana) foi que eu sou uma mulher. Talvez eu tenha me entendido no mundo primeiro assim. Então, lembro-me bem de que, ainda criança, uma das minhas grandes inquietações era como as mulheres eram representadas.  Eu e Viviane, minha irmã gêmea, (para quem está chegando agora), passávamos tempo discutindo de como a Princesa Leia nos frustrava por não ser, pelo menos não na saga inicial, Jedi, como seu irmão gêmeo. Como gêmeas, também não entendíamos como um podia ser tanto e a outra só princesa, embora eu ame princesas de ficção, inclusive as da Disney. Nessa idade de 6/7 anos, eu não entendia exatamente o lugar conferido às mulheres no cinema, principalmente no cinema comercial, aquele a que tinha acesso. No entanto, era certo: a falta de representação me causava um mal-estar ainda criança.

Princesa Leia (Carrie Fisher)

Durante o mestrado, compreendi que a representação está intrinsecamente ligada ao cinema e ao que nele se produz. Dessa forma, ela é um campo de afeto e de disputa. Em outras palavras, um campo de poder. Representar é disputar esse território, é tentar controlar ou preservar a imagem que se tem de alguém; muitas vezes, de um povo inteiro ou de um grupo social com objetivo de manter uma hegemonia.

Nesse contexto, a representação das mulheres (cis, trans, negras, indígenas, amarelas, entre tantas outras, inclusive a branca) permanece em constante disputa. Foi nesse percurso que conheci outras princesas além de Leia, outras personagens femininas que me instigaram. Mas, curiosamente, quem roubou meu coração por um tempo foi Peter Pan. Um período de pura paixão. Mas não se engane, leitor: embora Wendy seja uma querida, não era ela que eu queria ser.

Eu cobiçava o lugar de herói, porque quando se tem entre 9/10 anos isso importa. Eu queria ser ele e viver a vida despreocupadamente. Na época, eu já conhecia Mulan, mas mesmo ela sendo uma heroína incrível, ela assumia muitas responsabilidades. Talvez porque para o cinema ser mulher significa, ou significava - na melhor das hipóteses -, assumir responsabilidade (como Mulan) ou crescer (como Wendy). Eu queria mesmo é voar quando eu quisesse, liderar um grupo de meninos perdidos e nunca crescer. Peter, então, podia dar vida aos meus anseios, mas ele não representava a minha totalidade. Ele é um homem branco que não precisava assumir responsabilidades (façam as críticas vocês mesmos). Comecei, a partir desse filme, a entender que eu queria me ver presentada em personagens de poder e de liderança.

 

Na adolescência, até encontrei personagens que poderiam trazer um pouco do meu estado de espírito ou personalidade, mas eu não poderia me reconhecer na Annabeth Chase, de Percy Jackson; eu gosto muito de água para não querer ser filha de Poseidon; ou ainda, para a maioria das crianças dos anos 2000, na Hermione; ela não tinha a minha vontade de ser e de ter as coisas, depois que eu não queria ficar salvando outros homens e mesmo assim ser coadjuvante (também não falemos mais nisso). Segui na busca por alguma personagem que pudesse me representar. Sei que o cinema produziu personagens, inclusive por esforços de grandes realizadoras, incríveis. No entanto, não achei. 

Depois, no final da adolescência e no começo da idade adulta, veio-me a questão de raça. Nesse mosaico, como assumi para vocês no início desse texto, adiciono mais uma camada: se mesmo para as mulheres brancas é difícil se ver e sentir representada, imagina para uma mulher não branca, de ascendência e ancestralidade negra e indígena? (mesmo que indígena seja entendida aqui como etnia e não raça). 

Dessa forma, foi em 2022, que pela primeira vez eu me senti representada em tela de cinema. Na verdade, não exatamente eu, como sujeito e indivíduo, mas como parte de uma grande família. Quando assisti a Marte Um (2022), filme dirigido por Gabriel Martins, cuja história está centrada em uma família negra: Wellington, o pai; Tércia, a mãe; Eunice, a filha e irmã mais velha; e Deivinho, o filho e irmão mais novo, que sonha em ser astrofísico e participar da missão Marte Um, enquanto seu pai coloca suas esperanças no futuro do menino como jogador de futebol. 

Já escrevi aqui sobre o choque que essa representação me causou, mas, nesse texto, gostaria de dizer como Chicó: não sei como foi, eu só sei que foi assim. Quando a gente se vê representada ou as pessoas que amamos, isso desperta um sentimento muito forte, inclusive me rendeu um mestrado. Em partes isso acontece, porque a gente infelizmente finge se habituar a não encontrar a nossa imagem como protagonista ou super-herói (mesmo que a maioria dos heróis esteja a serviço de uma indústria e, na maioria das vezes, do capitalismo).

Ao ver meu pai representado em tela pela primeira vez, eu senti que ele é eterno. Talvez essa frase soe como exagero ou até um pouco romântica, mas, na verdade, ela também foi dita, em dada medida, por André Bazin, um dos teóricos mais reconhecidos do cinema pela academia. Bazin conferiu ao cinema o poder de eternizar as imagens, eu digo mais: a nossa representação, seja boa ou ruim, está conectada à maneira como nos vemos e vemos os nossos. Somos (e fomos) por muitos anos eternizados na memória do Brasil como aqueles que não podiam escolher ser representados. Tudo isso, fruto de um cinema hegemônico dominado por uma elite branca a quem interessava fazer da nossa imagem algo que não nos cabia. Inclusive, um amigo meu diz que era também uma política de Estado. 

Se a gente pensar nas mitologias religiosas, a maioria delas defende a imortalidade ou a vida eterna. Assumo, assim, que queremos ser imortais também. No meu caso, quero que tenhamos o direito a escolher como queremos ser visto, como queremos se representados e, com isso, o direto de ser eternizados como nos imaginamos ou nos vemos.

Quanto à minha mãe, ela é uma mulher branca, mas, mesmo assim, a vejo muito em Tércia. Principalmente, por um tipo de representação da maternidade. Tércia e Ana, minha mãe, são muito dedicadas à família, as duas são cheias de subjetividades. Em questão de roteiro, é um mérito ver uma personagem assim: ela tem seu trabalho, seus passatempos, sua religiosidade. 

Imagem do filme Marte Um (2022)

Devinho e Eunice podem ter um pouco de mim e um pouco de Viviane. Eunice, por exemplo, como nós, saiu de casa para viver seu objetivo e ter melhores condições, apesar do medo dos pais. Encontro-me, assim, um pouco representada em um personagem de 10/11 anos, morador da periferia de Contagem-MG, cujos sonhos são grandes demais. Adulta, então, percebo que não me vejo mais representada em personagens de poder ou de liderança. Deivinho mesmo não é nada disso. Vejo e encontro-me em alguém que sonha, se a missão Marte Um é o horizonte de Deivinho; o cinema é o meu. Além disso, se antes eu queria um personagem para me representar, isso, agora, não me basta mais. Eu quero ver todas as pessoas que amo representadas. 

Por fim, Marte Um (2022) me despertou o sentimento de que podemos ser representadas, inclusive com afeto, em família, em conjunto. Contínuo buscando a minha e a nossa representação como sujeitos complexos, mas enquanto ela não vem, é muito bom saber que não estamos sozinhos.

Comentários 3

O
Osmira Seixas29 de novembro de 2025
Você sabe colocar as palavras minha querida. Eu amo aquele filme Tomates Verdes e fritos, bom Você sabe. Se eu fosse fala de um filme seria esse
A
Ana Lucia Freitas25 de novembro de 2025
Filha, parabéns pelo texto. Esse filme é bonito mesmo, lembro quando assistimos ele juntas
L
Luisa C Moreno19 de novembro de 2025
Muy interesante y lindo tu recorrido, reconociéndote en la pantalla "na tela". Yo hago casi siempre lo mismo en los artículos, no puedo escoger una sola película, debo mencionar varias.

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