Quem lembra que Marte Um (2022) foi o filme representante do Brasil no Oscar de 2023?
Críticas GeraisEu tenho uma história boa com Marte Um (2022) e quero compartilhar com você. Esse foi o filme que mais me fez chorar no cinema na vida. Chorei de soluçar. Sabe quando o choro para de ser “social” e vai ficando sério? Então, foi assim mesmo. Depois que o filme acabou, tive que ir até o banheiro do cinema me recompor. Eu fui para casa então. No caminho, dentro do ônibus, encontrei uma amiga que claramente tinha visto o filme também. Ela estava num momento particular e chorava continuamente. Eu tive que fingir que não a vi. Não porque eu sou uma má amiga, mas porque aquele momento era dela, totalmente entregue à experiência cinematográfica
Eu acho que foi exatamente isso que senti, quando vi o filme pela primeira vez: o cinema é também nosso. Para quem cresceu no começo dos anos 2000, tem uma família inter-racial, ver finalmente uma família negra, fora do padrão Globo filmes, é uma experiência de identificação poderosa e pulsante. Ainda estamos lutando para buscar o nosso lugar ao sol. Essa pulsão da qual eu falo, inclusive, me fez rever o filme várias e várias vezes. Acho que, inclusive, eu posso confessar para você que chorei todas às vezes que vi. Foi assim que me surgiu a pergunta, por quê? O que é esse choro?
Antes de respondê-la, você precisa saber — caso não tenha visto ainda — que Marte Um (2022) é o segundo longa-metragem do diretor Gabriel Martins. Ele é cofundador da Filmes de Plástico, produtora mineira originada em 2009 e, atualmente, sediada em Belo Horizonte, com André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia. Além do filme em questão, a produtora já produziu o maravilhoso Temporada (2018), dirigido por André Novais Oliveira; No Coração do Mundo (2019), dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins; e tantos outros filmes entre curtas e longas-metragens.
No enredo de Marte Um (2022), encontramos uma família de classe média baixa, negra, da periferia de uma grande cidade. Os Martins, mesmo sobrenome do realizador do filme — Gabriel Martins, lutam com a vida enquanto conciliam seus sonhos e suas expectativas diante do mundo: Tércia (Rejane Faria), a mãe, como muitas mães brasileiras, ganha a vida como diarista, sofre de ansiedade e tenta cuidar da família. Wellington (Carlos Francisco), o pai, porteiro, zelador e alcoolista, deposita todas as suas esperanças na carreira de seu filho mais novo, Deivinho (Cícero Lucas), desejando que o menino seja um jogador de futebol. Deivinho, por sua vez, sob pressão para agradar o pai, segue um caminho diferente em seus sonhos secretos de estudar astrofísica e colonizar Marte. Já Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, a primeira da família a cursar universidade, deseja uma vida melhor no centro da cidade com sua namorada. Vale pontuar que Eunice tem um relacionamento sáfico, cursa direito e incentiva o irmão a conquistar seus sonhos.
Aquilo que nos conecta ao filme está justamente na singularidade e, ao mesmo tempo, na simplicidade dos seus personagens. É uma história universal à medida que nos identificamos fácil, pelo menos eu me identifiquei e aquela amiga do ônibus também. Termos nossas mães, pais e irmãos em tela. Nesse sentido, ver a representação de quem amamos nos filmes cria uma memória coletiva e, por consequência, o direito de ser lembrado. Afinal, fazemos cinema para sonhar, ver o mundo de outra perspectiva, mas também para representar e fabular aquilo que tanto falta em nós e no mundo que nos cerca.

A representação e a memória coletiva que o filme deixa é permeada pela última frase do filme. O pai, Wellington, depois de muitos conflitos superados, finalmente diz ao filho Deivinho: “seu sonho é mesmo ir para Marte?”...”A gente dá um jeito”. Ao longo da minha vida, eu ouvi muitas vezes essa fala do meu pai. Se nem sempre por palavras, por atitudes e esforços dobrados no trabalho. Nessa perspectiva, eu começo a entender um pouco mais de onde vem esse choro.
O longa-metragem através do sonho de Deivinho também me fez sonhar. Fazer cinema no Brasil é um caminho árduo e difícil. Aqueles que mantêm esse sonho no coração sabem do que estou falando. Além do desafio de produção, quando falamos de um cinema negro e alternativo no Brasil, temos também o desafio de distribuição, uma vez que muitas vezes os filmes só chegam a grandes salas comerciais de cinema — isso quando chega —, normalmente em capitais, ou por iniciativas culturais, vide o Sesc, o Itaú cultural e coletivos culturais, em destaque para os coletivos e os cineclubes negros. Gabriel Martins também tem consciência dessa dificuldade. Na entrevista dada ao canal “BHAZ”, ele diz:
[...] enfim, lançou o Marte Um então a gente saiu com mais ou menos 33 salas no Brasil todo para ver, né?... é pouco, né? Se for pensar o Brasil tem mais de 200 salas a gente realmente não consegue. Depois dessa coisa do Oscar que a gente conseguiu chegar no Shopping Cidade. [...] As empresas não querem filmes como Marte Um. Talvez assim mesmo no auge do filme [...] tinha muitas redes que não quiseram botar o nosso filme [...]. [...] chega um filme americano um outro filme some então a gente ainda não consegue ter muito espaço diante de um mercado estrangeiro né (Martins, 2023).
Os personagens e o roteiro me conectaram muito ao filme. Gosto especialmente deles, porque me sinto mais brasileira dentre tanto Brasis que temos dentro do mesmo Brasil. Mas vale a pena destacar também que todas as áreas do filme foram bem pensadas. A fotografia, assinada por Leonardo Feliciano, diretor de fotografia também em trabalhos como Branco Sai Preto Fica (2014), dirigido por Adirley Queirós, Arábia (2017), de Affonso Uchôa e João Dumans, e No Coração do Mundo (2019), é muito bonita. Leandro recebeu o prêmio de melhor fotografia no Prêmio ABC 2023 e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2023 pelo trabalho em Marte Um. O filme, assim, tem muitas cenas bonitas, cujas fotos e frames valem a pena lembrar. Eu fico especialmente tocada pelas fotografias em que vemos a cidade e a quebrada. A localidade geográfica da quebrada, no filme, não é criminalizada. Ela é um lugar de morada, de contradições à medida que os personagens brigam, mas também lugar de afeto. Poucos brasileiros moram nas casas que vemos nas novelas, mas muitos brasileiros moram na casa que vemos no filme.

No final deste texto, posso dizer que o choro vem da identificação, mas também vem do alívio de entender que o cinema também nos pertence. Sinceramente, eu não sei se todo mundo vai ser capaz de chorar com Marte Um (2022), ou se as outras pessoas vão ter impressões tão fortes quanto as minhas. O cinema como experiência sensível e coletiva possibilita muitos olhares e identificações. Uma coisa é certa: se estamos abertos à experiência, é natural que a gente leve sempre quem somos ao cinema e voltemos sempre com um pouco mais do outro. O que também chamamos de alteridade.
Eu mesma, inclusive, já ouvi várias críticas ao filme: ou ele é “fofinho demais” ou ele é “conservador”. Não acredito nem em um, nem em outro. No fundo, o que a gente não pode mais é se acostumar ver as famílias negras do mundo e do Brasil sempre criminalizadas, sempre no lugar de que podia dar certo, mas deu errada. No fim, Marte Um (2022) deixa uma mensagem final forte: nós estamos aqui, sempre estivemos dando um jeito e vamos continuar.
Por fim, eu gostaria de saber sua opinião. Se você viu o filme? Viu no cinema? Não viu, por quê? Chorou? O filme está disponível na Globo Play, para quem ainda não viu fica a dica.




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