Um rebuliço após o outro

Críticas Gerais

Um rebuliço após o outro. É assim que eu descreveria a avalanche de opiniões positivas e negativas que eu venho lendo desde a estreia do novo filme de Paul Thomas Anderson, Uma Batalha Após a Outra. Para os defensores, um dos melhores do ano, o franco favorito ao próximo Oscar, um retrato importante dos tempos atuais. Para os detratores, uma propaganda anti-revolucionária que utiliza os problemas contemporâneos como mero pano de fundo para criar um produto vazio, sem comprometimento com algum tipo de mudança. E para mim?

 

Mesmo quem ama e quem odeia o filme concorda que ele é político. A discordância surge na hora de falar o lado que ele defende. Na verdade, o próprio fato desse debate existir já é político por si só e talvez seja a maior força política do longa em si, pois não é difícil perceber aqui que Anderson está menos interessado em entregar uma mensagem pronta do que em fazer um cinemão de gênero para o grande público.

 

Em seu vídeo A Evolução de Paul Thomas Anderson, o youtuber Thomas Flight argumenta que os protagonistas do diretor dividem quase todos eles um traço em comum: se anunciam como uma coisa, mas mostram que são outra através de suas ações. Em Sangue Negro, Daniel Plainview se anuncia como um homem do petróleo e pai de família que irá trazer prosperidade a um pequeno povoado, mas o que ele faz, no fim, é sugar todos os recursos dessa comunidade para benefício próprio e abandonar o filho. Em O Mestre, Lancaster Dodd se anuncia como um guru de uma nova filosofia de vida, mas, no fundo, é só mais um charlatão pseudo-intelectual explorando a fé alheia. Em Magnólia, Frank T.J. Mackey se anuncia como um desses coaches “macho-alfa”, mas esconde uma profunda tristeza por ter sido abandonado pelo pai.

 

A performance é característica central dos protagonistas de Anderson, de tal forma que muitos deles carregam alter-egos de sucesso em suas áreas de trabalho. Dirk Diggler, a revelação do cinema pornô em Boogie Nights. Reynolds Woodcock, o estilista da alta sociedade londrina em Trama Fantasma. Gary Valentine em Licorice Pizza, um projeto de showman tentando alcançar algum tipo de notoriedade com seus investimentos em negócios “da moda” na década de 70, dos colchões d’água aos pinballs recém-legalizados.

Foto: Warner

Não me surpreende, portanto, que os protagonistas de Batalha sejam pessoas ultra performáticas em seus ímpetos políticos. Já disseram que Perfidia Beverly Hills parece um nome de uma personagem do Tarantino e, bem, parece mesmo, aquele tipo de nome que grita “essa sou eu e você que se dane”. Há quem diga que Anderson reduz a personagem a planos sexistas olhando para suas curvas (planos subjetivos filmados do ponto de vista de um personagem que sim a sexualiza) e um encaminhamento punitivo de suas ações. Eu até concordaria com essa retórica, se não fosse o fato daqueles que a punem serem simplesmente os seres mais abjetos da face da terra e do próprio filme dar espaço para Perfidia expor sua vulnerabilidade com o nascimento da filha. 

 

Os interesses de Anderson nunca estão nas performances de seus personagens, mas sim nas contradições que lhes conferem humanidade. Não à toa, o close é uma ferramenta que o diretor usa e abusa aqui, com os benefícios do VistaVision (grande escopo, grão fino, nitidez nos rostos dos atores). Os memes dos “cabeções” de Leonardo DiCaprio e Sean Penn projetados em IMAX 70mm dizem tudo. Com essa proximidade, detalhes como a reação de pânico do primeiro ou o cabelo lambido patético do segundo saltam aos olhos e demonstram muito mais empatia do que cinismo.

 

A verdade é que Uma Batalha Após a Outra pode ser comparado até um pouco a seus personagens. Existe performance aqui, performance declarada. Performance, no caso, não de cinema político como muitos vem falando, mas de cinema de gênero, de massa, pipocão mesmo. Olho de novo para o nome Perfidia Beverly Hills e lembro não de Tarantino, mas de blaxploitation. Olho para as perseguições na estrada e lembro de Mad Max. Olho para a caracterização de DiCaprio e lembro de Jack Nicholson e do Dude de Jeff Bridges em O Grande Lebowski. Olho para a história de um pai em busca da filha e lembro de Procurando Nemo. Olho para a sociedade secreta nazista (e para o Sean Penn desfigurado no final) e lembro de uma série de filmes B com inimigos parecidos. Olho para DiCaprio caindo daquele prédio na cena da fuga e lembro de Buster Keaton. Olho para as freiras guerrilheiras e lembro de… bem, nesse caso, não consigo lembrar de nada, nunca vi algo parecido, elas são maneiras e ponto.

Foto: Warner

Isso é ruim? Depende. Entendo a fúria dos puristas com um filme tão declaradamente performático. Até acho que Batalha será tido por essas pessoas como só mais um aceno de um cineasta metido a “moderninho” ao cinema de gênero para “farmar” prêmios com uma mensagem social qualquer. A Substância, Pobres Criaturas, Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, Pecadores, os filmes de Jordan Peele, Kléber Mendonça Filho, etc. Nada contra, mas essa fúria toda já existia antes do filme e vai existir depois com outros longas.

 

Novamente, a performance para Anderson não é seu único interesse. Uma Batalha Após a Outra pode ser performático o quanto quiser, mas ainda possui uma força própria. Existe beleza em como Anderson deixa os planos respirarem durante as sequências de ação no ato final, principalmente em todo aquele segmento da fuga de Willa. Existe humanidade na maneira como ele permite que seus personagens sejam contraditórios e constrói o drama a partir dessas contradições. E existe, por fim, muito valor quando ele aposta nas reações mais primitivas à própria imagem de cinema.

 

Os planos da câmera colada no capô do carro me trouxeram a memória física de quando eu andava em carros dos meus pais ou parentes e, de repente, aparecia um quebra-molas no meio do caminho. Aquele frio na barriga, aquela empolgação momentânea de criança, eu vejo refletidas na imagem da estrada com curvas, ondulações e distorções. Não há muito o que fazer depois disso, apenas esperar pelo próximo rebuliço. 

Comentários 1

V
VanessaFreitas022 de outubro de 2025
Ainda não vi o filmes, mas seu texto me jogou luz nele. Provavelmente verei depois de ler seu texto. Parabéns pela crítica.

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