Halloween e a codificação do slasher
Críticas GeraisTradicionalmente o mês de outubro é reservado para especiais de terror. Nos Estados Unidos e no Canadá, a partir deste ano várias redes de cinema estão não só apostando em relançamentos tradicionais dos estúdios, como oferecendo durante todo o mês clássicos do gênero. Tem um que sempre se destaca nessa época pela sua importância ímpar: Halloween (1978), que virou um filme símbolo para o slasher.
Neste mês vou fazer algumas sessões comentadas de Halloween em cidades do Brasil e decidi no artigo desta semana trazer um pouco mais sobre esse que é um dos meus favoritos no gênero.
Em outubro de 1978, época do lançamento do longa dirigido por John Carpenter, o cinema de terror dos Estados Unidos encontrava-se em momento de profunda transformação. A década anterior apresentou uma dissolução das certezas morais do horror clássico universal, substituídas pela ambiguidade perturbadora de filmes como A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e O Massacre da Serra-Elétrica (1974).
Se é bem verdade que historicamente Halloween não é o primeiro slasher - penso que ele se tornou o filme responsável por estabelecer um conjunto de convenções narrativas, tropos visuais e estratégias formais que se tornariam a própria linguagem do gênero, sendo alvo de constantes cópias e inspirações para o surgimento de outros ícones do terror.
Para compreender a importância singular de Halloween, penso que é justo trazer algumas ideias quanto às raízes: muitos autores trabalham com o conceito de proto-slasher - em que é possível trazer desde a icônica cena do chuveiro de Psicose (1960) de Hitchcock até o caso de A Tortura do Medo (1960) explorando explicitamente a cumplicidade entre câmera, assassino e espectador.
Uma das críticas que faço ao viés de publicações anglófonas no estudo do slasher está no modo como o giallo — subgênero cultivado por nomes como Mario Bava e Dario Argento - vira quase que uma nota de rodapé, quando na verdade merece muito mais destaque por lidar com o desenvolvimento da figura do assassino mascarado e a violência estilizada.
Em um estudo muito interessante que finalizei de ler recentemente feito pelo Prof. Sotiris Petridis no livro Anatomy of the Slasher Film: A Theoretical Analysis - ele coloca em perspectiva Black Christmas (1974) e O Massacre da Serra Elétrica (1974) como os dois primeiros exemplos do subgênero slasher. Lançados com apenas 11 dias de diferença, os filmes apresentam conjunturas que seriam ampliadas posteriormente com o espaço doméstico violado, a violência contra mulheres jovens, o uso criativo do telefone como dispositivo de suspense, e, no caso do filme de Tobe Hooper, uma demonstração ímpar da viabilidade comercial do horror de baixo orçamento focado em violência intensa.
Mas o que distingue Halloween é sua capacidade de síntese e sistematização. Carpenter absorve elementos dispersos — o assassino inexpressivo, a violação do subúrbio, a violência contra adolescentes, o suspense de viés hitchcockiano, e os organiza em uma estrutura narrativa coerente, replicável e viável do ponto de vista financeiro. Por isso acredito que essa operação de codificação transforma experimentos isolados em linguagem estabelecida.
A Arquitetura Narrativa
Halloween organiza-se em três movimentos distintos: o prólogo traumático de 1963, que estabelece a origem mítica do mal; a primeira metade, que constrói metodicamente a atmosfera de ameaça crescente através da chegada de Myers a Haddonfield e sua vigilância das adolescentes; e o que chamo de "noite de babás", um experimento do terror de sobrevivência.
Essa ideia de viés tripartite permite a Carpenter trabalhar cuidadosamente a tensão. O primeiro ato com o inesquecível plano-sequência de seis minutos, filmadof inteiramente do ponto de vista do assassino criança, estabelece uma premissa e também o viés perverso entre câmera e violência que estrutura todo o filme.
A revelação de que o assassino é uma criança com o jovem Michael Myers removendo a máscara de palhaço, produz um choque que nos dá conta de que o mal não possui origem, explicação. O segundo ato opera através de acumulação de detalhes inquietantes: Myers aparece repetidamente em segundo plano, desfocado, observando Laurie Strode. Isso sempre me gera interesse cada vez que assisto Halloween pois é incrível observar como o espectador fica em busca da presença ameaçadora. Carpenter aos poucos nos mostra que o terror eficaz reside não no choque, mas na ansiedade sustentada.
Michael Myers: a formação do ícone do slasher

Diferentemente dos monstros expressionistas do terror clássico — criaturas marcadas por deformidade física que expressava certo tipo de degeneração moral, ou até mesmo dos psicopatas com motivações dúbias típicas do cinema hitchcockiano, Myers é apresentado como completo vazio. O Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence), neste caso, é o responsável por articular verbalmente o que a câmera mostra visualmente: Myers não é humano, mas "o mal puro".
Myers nunca corre, apenas caminha, mas sempre alcança suas vítimas. Ele é baleado seis vezes, cai do segundo andar, mas desaparece quando Laurie desvia o olhar por um instante. Estas transgressões às leis naturais estabelecem Myers não como serial killer realista, mas como força sobrenatural, personificação ambulante da morte. É verdade que posteriormente isso se tornou uma dor de cabeça para os produtores que precisavam manter viva essa ideia e, ainda assim, trabalhar com algumas possibilidade de destruição de Myers, o que rendeu uma sequência de pontos baixos na franquia Halloween.
Outra coisa que chamo a atenção é para a caracterização: a máscara branca com olhos largos aprofunda esse vazio na incapacidade da leitura da emoção. Myers mata sem motivo aparente, suas vítimas parecem selecionadas por proximidade geográfica e temporal mais que por qualquer característica particular. Eu acredito que essa aleatoriedade é precisamente o que torna Myers tão perturbador: ele não pode ser compreendido por um viés lógico e racional.
Laurie e a construção da Final Girl

A construção de Laurie Strode como protagonista sobrevivente no filme estabelece o que a prof. Carol Clover cunharia e teorizaria como a "final girl" — uma figura que transcende o papel de vítima passiva para tornar-se agente de sua própria salvação. O que distingue Laurie de suas amigas não é uma questão moral simplista, mas uma diferença fundamental de percepção e vigilância. Laurie é a única personagem que consistentemente vê Michael Myers antes dos ataques: ela o avista do lado de fora da escola, atrás do varal de roupas, observando da rua. Esse tipo de vigilância - diria até uma hipervigilância — que suas amigas interpretam como paranoia ou distração, constitui sua grande vantagem. Enquanto Annie e Lynda habitam o mundo com a despreocupação típica da adolescência, Laurie permanece em estado de alerta, como se sentisse a presença da ameaça antes mesmo da concretização da ameaça.
Carpenter constrói visualmente esta distinção: os planos de Laurie frequentemente a mostram em janelas, enquadrando-a entre interior e exterior, posicionando-a como observadora liminar que habita a fronteira entre segurança doméstica e perigo externo.
A transformação de Laurie na sequência final demonstra a complexidade da final girl, também alvo de inspiração para outros projetos, especialmente na série de slashers que deliberadamente copiaram Halloween nos anos 80. Sua batalha com Myers transforma arquitetura doméstica em arena, improvisando objetos como armas.
Contudo, Halloween complica qualquer leitura triunfalista quando a montagem final nos coloca o contraste do rosto traumatizado de Laurie com planos vazios dos locais onde Myers esteve, além de sua respiração ecoando como presença eterna. Laurie sobreviveu, mas o trauma é permanente e a ameaça permanece apenas temporariamente dispersa.
Criatividade acima de tudo
Olhando as notas de produção de Halloween, esse era o filme que tinha tudo para ser cancelado na apresentação do projeto ao estúdio. A ideia era boa, mas precisava de dinheiro. O financiamento veio após a sugestão de transformar a história do assassino de babás em um evento específico do Halloween, com um roteiro feito em dez dias. Mesmo com controle criativo, Carpenter recebeu a ordem de Irwin Yablans e Moustapha Akkad de economizar em todas situações possíveis. Sem recursos para efeitos especiais elaborados, Carpenter investe em composição visual, duração de planos e uso expressivo do fora de campo.
A trilha sonora que Carpenter compôs em três dias tornou-se o elemento mais identificável do filme, com uma estrutura repetitiva que nos dá conta de uma aproximação - brilhantemente registrada no simples e efetivo crédito de abertura. Aliás, esse é um tema que pode ser assobiado e reconhecido instantaneamente, e que virou um dos meus temas favoritos da história do cinema (aqui preciso registrar também o quanto sou fã do tema de Halloween 3 e do uso maravilhoso do sintetizador).
O sucesso financeiro astronômico de Halloween desencadeou proliferação de imitações que transformaram o slasher em fenômeno industrial dominante do início dos anos 1980. A fórmula estabelecida por Carpenter foi deturpada frequentemente sem compreender os princípios formais que tornavam o original eficaz. E não precisa ir muito longe. Halloween 2 sofreu disso também.




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